O ar saiu dos meus pulmões. O som do restaurante, as vozes, a música suave, tudo se transformou em um zumbido agudo e ensurdecedor.
"O quê?"
"Ah, o coelho," ela continuou, saboreando cada palavra, cada gota da minha dor. "O papai disse que era um desperdício de comida mantê-lo. Então, ele o levou para um chef amigo dele. Ele disse que carne de coelho é uma iguaria. E estava mesmo. Muito macia."
Ela descreveu.
Ela descreveu a cor do molho.
Ela descreveu a textura da carne.
Ela descreveu como eles riram enquanto comiam, imaginando minha cara quando eu descobrisse.
Minha visão escureceu. Tive que me apoiar na mesa para não cair. Meu estômago se revirou violentamente. A imagem do meu coelhinho, do animalzinho indefeso que vinha comer na minha mão, sendo esquartejado, cozido, devorado...
Era um nível de crueldade que minha mente se recusava a processar.
Eu olhei para Pedro, buscando um pingo de remorso, de humanidade. Não encontrei nada. Apenas impaciência.
"Pronto, Maria. Satisfeita?" ele disse, como se estivesse lidando com uma criança birrenta. "Era só um coelho. Não faça um drama por causa disso."
"Só um coelho?" Minha voz era um fio. "Ele era meu, Pedro. Ele era meu amigo."
Isabela finalmente falou, sua voz era seda envenenada.
"Oh, querida, não fique assim. Foi só uma brincadeira de mau gosto. Pedro pode te comprar outro coelho amanhã. Dez coelhos, se você quiser."
A maneira como ela falou, o tom condescendente, a oferta de substituir algo que tinha valor sentimental por um objeto, um preço... foi a gota d'água.
A dor se transformou em fúria. Uma fúria tão intensa que me cegou.
Eu não pensei. Eu agi.
Minha mão se moveu rápido. Agarrei o copo de água com gelo na frente de Pedro e joguei o conteúdo no rosto de Isabela.
A água gelada escorreu pelo seu cabelo perfeitamente penteado, pela sua maquiagem cara, manchando seu vestido de seda.
Ela gritou, um som agudo de surpresa e raiva.
Pedro explodiu.
"Você ficou louca, Maria?! Peça desculpas agora!"
Mas eu não estava olhando para ele. Eu estava olhando para a minha filha. A filha que comeu meu animal de estimação e riu disso.
E eu senti o último fio que me ligava a ela se romper.
A dor no meu coração era imensa, mas outra coisa estava nascendo em seu lugar. Uma resolução. Uma certeza fria e dura como aço.
Eu me virei para Pedro, meus olhos secos. As lágrimas tinham acabado.
"Pedro," eu disse, e minha voz não tremeu. "Eu quero o divórcio."
O silêncio que se seguiu foi mais alto que qualquer grito.
Ana me olhava com ódio. Isabela, pingando água, me olhava com puro desprezo.
E Pedro... Pedro riu. Uma risada curta e incrédula.
"Divórcio? Por causa de um coelho estúpido? Não seja ridícula, Maria. Você não é nada sem mim."
Ele ainda não entendia. Ele achava que aquilo era sobre o coelho.
Mas era sobre tudo. Sobre a mentira, a traição, a humilhação. Sobre a crueldade. Sobre a descoberta de que eu vivia com monstros.
O coelho não foi a causa. Foi apenas a prova final.
Eu não respondi. Apenas me virei e comecei a andar para longe da mesa, para longe da minha vida arruinada.
Eu não sabia para onde estava indo. Só sabia que nunca mais voltaria para aquela casa. Para eles.
Minha liberdade começou com a morte de um coelho e um pedido de divórcio em um restaurante chique que eu nunca poderia pagar.