"Luana, isso é inacreditável! Quem é essa mulher? Vamos processá-la por difamação, por uso indevido de imagem. Eu vou ligar para o escritório agora mesmo."
Ele pegou o celular, pronto para iniciar a mesma batalha legal que nos levou à ruína na vida passada. Eu coloquei minha mão sobre a dele, gentilmente.
"Não, Rafa. Não vamos fazer nada disso."
Ele me olhou, incrédulo.
"Como assim, não vamos fazer nada? Luana, ela está te destruindo! Você viu o que estão falando? Isso é um linchamento virtual!"
"Eu sei," eu disse, minha voz calma e firme, uma calma que o surpreendeu. "E é exatamente por isso que não podemos reagir como eles esperam."
Ele franziu a testa, confuso.
"O que você quer dizer?"
"Pense bem, Rafa. Se processarmos, isso vai se arrastar por anos. A mídia vai transformar isso num circo. 'Influenciadora submissa processa blogueira feminista' . Quem você acha que eles vão apoiar? Nós vamos gastar nosso dinheiro, nossa energia, nossa paz de espírito, e no final, mesmo que a gente ganhe, nossa reputação já estará destruída. Foi o que aconteceu antes."
A última frase escapou. Ele não entendeu a referência, claro. Para ele, era uma hipótese. Para mim, era uma memória.
"Então o que a gente faz? Deixa ela sair impune?"
Eu sorri, um sorriso que não chegava aos meus olhos.
"Não. Nós vamos lutar. Mas não no campo dela. Não com as armas dela. Nós vamos usar a estratégia dela contra ela mesma."
Puxei-o para o sofá e expliquei meu plano. A desconfiança em seu rosto lentamente deu lugar à surpresa, e depois, a um brilho de admiração. Ele era um advogado, treinado para pensar em termos de leis e tribunais. Minha abordagem era completamente alienígena para ele, mas ele viu a lógica nela.
"Você tem certeza, Lu? Isso é... arriscado."
"Mais arriscado do que repetir o que já não deu certo?" , eu perguntei.
Ele ponderou por um momento e então assentiu, a decisão firme em seu olhar.
"Ok. Eu confio em você. O que eu preciso fazer?"
"Por enquanto, nada. Apenas confie em mim."
Mais tarde, naquele mesmo dia, a tempestade de ódio estava no seu auge. Meu nome estava nos trending topics. Milhares de pessoas que nunca tinham ouvido falar de mim agora me odiavam com paixão.
Era a hora de agir.
Eu preparei meu celular em um tripé no nosso quarto. O fundo era o nosso closet, organizado e elegante. Eu vestia o mesmo vestido branco da manhã. Meu cabelo estava solto, minha maquiagem era mínima. Eu parecia o epítome da feminilidade frágil.
E então, eu apertei o botão para iniciar a live.
Os espectadores entraram aos milhares. O chat ao vivo explodiu com insultos.
"Olha ela aí, a Amélia do século 21!"
"Veio se desculpar por existir?"
"Cadê seu mestre, o maridão?"
Eu ignorei. Deixei que eles vomitassem seu veneno por alguns minutos. Então, eu olhei para a câmera, meus olhos se enchendo de lágrimas. Lágrimas que eu pratiquei por uma hora na frente do espelho.
"Oi, pessoal," eu comecei, a voz trêmula, embargada. "Eu... eu não sei bem por que estou fazendo isso. Eu nunca fiz uma live antes."
Fiz uma pausa, como se estivesse tentando encontrar forças para continuar.
"Eu vi o vídeo... e os comentários. Eu sei o que vocês estão pensando de mim."
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Eu a enxuguei delicadamente.
"Eu só... eu só queria fazer uma surpresa para o meu marido. É o nosso aniversário de casamento. Eu amo o meu marido. Isso é... isso é errado?"
Minha voz falhou no final. Eu parecia pequena, confusa e genuinamente magoada. A esposa dedicada que não entendia por que estava sendo atacada por amar seu parceiro.
O chat, por um instante, hesitou. A torrente de ódio diminuiu. Alguns comentários de zombaria ainda apareciam, mas outros começaram a surgir.
"Nossa, ela parece tão triste."
"Gente, calma, ela só fez um café da manhã."
"A blogueira lá exagerou, não?"
Eu continuei, mantendo a performance.
"Eu admiro mulheres fortes e independentes. A Beatriz... ela é uma inspiração. Talvez eu não seja como ela. Eu só... gosto de cuidar da minha casa, da minha família. Eu não achei que isso fosse um crime."
Eu não a ataquei. Pelo contrário, eu a elogiei, o que me fez parecer ainda mais inofensiva e ela, ainda mais cruel em comparação. Eu era a vítima perfeita.
A live durou exatos dez minutos. Eu terminei chorando, dizendo que precisava ficar um pouco sozinha.
Assim que a transmissão terminou, o sorriso voltou ao meu rosto. Eu peguei meu outro celular e abri as redes sociais. A maré estava virando.
As hashtags haviam mudado. Ao lado de #EsposaSubmissa, agora surgiam #JustiçaParaLuana e #DeixemElaEmPaz. As pessoas estavam começando a discutir. Minha performance de vulnerabilidade tinha plantado a semente da dúvida. Eu não tinha negado a acusação, eu a havia abraçado de uma forma que gerava simpatia.
O número de meus seguidores, que estava caindo vertiginosamente, de repente disparou. Pessoas que vieram para me odiar, acabaram ficando por curiosidade, ou até por compaixão.
Rafael entrou no quarto, o celular na mão, os olhos arregalados.
"Luana... você é um gênio."
Eu apenas sorri.
"Isso é só o começo, meu amor. O primeiro round é nosso."
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