"Temos visto recentemente uma tendência perigosa nas redes sociais," ela começou, a voz carregada de falsa preocupação. "A romantização de um estilo de vida que aprisiona as mulheres em casa. Um estilo de vida que diz que o único valor de uma mulher está em servir ao marido e cuidar dos filhos. Isso não é uma escolha, é uma armadilha. É um retrocesso."
Ela continuou por mais de quinze minutos, discursando sobre independência financeira, carreira e a luta histórica das mulheres. Cada palavra era uma crítica velada ao meu sucesso, ao meu conteúdo, à minha existência. Ela me pintava como uma ameaça, uma influência negativa que estava desfazendo o trabalho de gerações de feministas. A inveja era tão palpável que chegava a ser transparente em seu discurso pretensamente intelectual.
Enquanto eu assistia, um sorriso frio se formou em meus lábios. Ela estava fazendo exatamente o que eu esperava. E ela estava sendo uma hipócrita monumental.
Uma memória da minha vida passada veio à mente com clareza. Poucos meses antes da minha morte, um escândalo sobre Beatriz veio à tona, mas eu estava tão imersa no meu próprio sofrimento que mal prestei atenção. Agora, a lembrança era uma arma.
Beatriz, a grande defensora da independência feminina, tinha um segredo sujo. Ela era completamente sustentada por um amante casado e muito mais velho. Todo o seu estilo de vida luxuoso, seu apartamento caro, suas viagens internacionais, nada vinha do seu trabalho como blogueira. Vinha do dinheiro dele. Ela pregava a independência, mas vivia na mais completa dependência.
E a hipocrisia não parava por aí. O homem que a sustentava era um político conservador, conhecido por suas posições anti-feministas. Era a ironia em sua forma mais pura. Na vida passada, essa história foi abafada rapidamente. Desta vez, eu a traria à luz.
Mas Beatriz era apenas uma peça do quebra-cabeça. O alvo principal, a origem de tudo, era Carlos.
Carlos, o produtor musical. O homem que me usou como uma desculpa para dispensar Beatriz. Eu o conheci brevemente em um evento da indústria, anos atrás. Trocamos algumas palavras cordiais, nada mais. Eu nem me lembrava direito do seu rosto. Mas para ele, eu fui uma ferramenta conveniente.
Na vida passada, a influência de Carlos também contribuiu para a minha ruína. Quando a controvérsia explodiu, alguns jornalistas tentaram contatá-lo para obter um comentário, já que seu nome estava ligado ao início da obsessão de Beatriz. A assessoria de Carlos emitiu uma nota fria e distante, dizendo que ele "não se lembrava" de mim e que "lamentava qualquer mal-entendido" .
Essa declaração, vinda de um homem poderoso como ele, foi o prego final no meu caixão. Selou a narrativa de que eu era uma ninguém, uma alpinista social que talvez tivesse tentado algo com ele e falhado. Isso validou o ataque de Beatriz e me isolou ainda mais. A empresa de advogados de Rafael, sob pressão dos sócios que não queriam problemas com a família influente de Carlos, também nos abandonou. Foi um golpe devastador. Ele não me atacou diretamente, mas sua omissão e seu desprezo calculado me destruíram.
Ele também pagaria.
Meu plano de vingança agora tinha dois focos claros. Eu precisava expor a hipocrisia de Beatriz e a manipulação de Carlos. E a melhor maneira de fazer isso era colocá-los um contra o outro.
Eu me levantei e fui até a janela, olhando a rua tranquila.
"Beatriz," eu sussurrei para o nada. "Você se acha a caçadora, mas é apenas a isca."
Eu peguei meu celular e comecei a pesquisar. Eu precisava encontrar o elo fraco na vida de Carlos. E eu sabia, por vagas lembranças da minha vida passada, exatamente onde procurar. Carlos tinha um vício, um segredo que sua família rica e poderosa tentava esconder a todo custo.
Um sorriso genuíno, o primeiro em muito tempo, apareceu no meu rosto.
"Carlos. Beatriz. O show de vocês está prestes a começar. E eu estarei na primeira fila, com a câmera ligada."
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