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Ele a Abandonou, Ela se Tornou Deusa
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Capítulo 1

O terreiro de Candomblé cheirava a incenso e ervas frescas, um cheiro que se agarrava às roupas e acalmava a alma. Eu estava ajoelhada no chão de terra batida, diante da Mãe de Santo, uma mulher cujos olhos pareciam conter a sabedoria de gerações. O som dos atabaques do lado de fora era baixo, um pulsar constante que imitava o bater do meu próprio coração. Minhas pernas doíam, uma dor aguda que subia dos tornozelos machucados, um lembrete físico da traição que me trouxera até ali.

"Você tem certeza, minha filha?", a voz da Mãe de Santo era grave, mas gentil. "O caminho dos Orixás exige tudo. Exige o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Não há espaço para metades."

Eu olhei para as minhas mãos, calejadas de anos segurando o estandarte da escola de samba, de ajudar a costurar fantasias. Tudo o que eu sempre quis foi brilhar na Marquês de Sapucaí, seguir os passos da minha mãe, ser a passista que todos aplaudiriam. Mas esse sonho virou cinzas. Luana, minha própria irmã, o roubou de mim. Ela não apenas pegou meu lugar de destaque, minha fantasia, mas também orquestrou o "acidente" que feriu minhas pernas e me humilhou na frente de toda a comunidade.

"Eu tenho certeza, Mãe", minha voz saiu firme, mais firme do que eu me sentia. "O samba me deixou. Meu sonho me deixou. Não tenho mais nada para me agarrar."

"Você não está se agarrando a algo novo, Isabela", ela me corrigiu suavemente. "Você está respondendo a um chamado que sempre esteve aí. Os Orixás a protegeram da morte, mas a proteção deles tem um preço. Sua vida, a partir de agora, será para eles e para a comunidade que eles guardam."

Ela me entregou um colar de contas brancas, o fio de Oxalá. Eram frias ao toque. "Para aceitar este caminho," ela continuou, "você precisa cortar os laços que a prendem ao mundo que a feriu. Todos eles. Sem exceção."

O nome dele surgiu na minha mente sem ser convidado. Thiago. O diretor de bateria, o homem cujo ritmo guiava meus pés e meu coração. O homem que Luana também seduziu e roubou. A Mãe de Santo me olhou como se pudesse ler meus pensamentos.

"Principalmente ele", ela disse, sua voz não deixando espaço para dúvidas. "O amor que você sente é uma âncora que a impede de subir. Você deve soltá-lo. Completamente."

Um frio percorreu minha espinha. Soltar Thiago? Era como pedir para eu parar de respirar. Cada batida da bateria dele era uma declaração de amor para mim, ou assim eu pensava. Como eu poderia simplesmente apagar isso?

"Como?", sussurrei, sentindo as lágrimas que eu segurava ameaçarem cair.

"Aceite o seu destino. Deixe a dor vir. Ela vai te purificar", ela disse, e seus olhos se fixaram nos meus. "O poder que você busca para proteger os outros só virá quando você não tiver mais nada seu para proteger."

Eu fechei os olhos e assenti. "Eu aceito."

No instante em que as palavras saíram da minha boca, uma dor diferente da dos meus tornozelos me atingiu. Era uma dor interna, fria e aguda. Eu senti algo dentro de mim se partindo, se rasgando. Era como se fios invisíveis que me conectavam a Thiago, ao meu sonho, à minha antiga vida, estivessem sendo arrancados à força. Eu me curvei, ofegando, com a mão no peito. A Mãe de Santo apenas observou, seu rosto uma máscara de serenidade. A dor era parte do processo.

Levei dias para me recuperar, trancada no pequeno quarto que me deram nos fundos do terreiro. Minhas pernas saravam lentamente com as compressas de ervas, mas a dor no meu peito era constante. Então, uma tarde, ele apareceu.

Thiago parou na porta, seu rosto expressando uma preocupação que, por um momento, pareceu genuína. Ele trazia um pequeno cacho de flores do campo, as mesmas que ele me dava depois de cada ensaio cansativo.

"Isa... Como você está? Fiquei tão preocupado", ele disse, sua voz cheia daquele charme fácil que sempre me derretia.

Ele se aproximou, tentando me abraçar como sempre fazia, seu cheiro familiar de suor e perfume amadeirado me envolvendo. Mas algo estava diferente. Eu não senti o conforto de antes. Em vez disso, senti uma barreira, uma frieza que emanava de mim mesma. Eu me afastei um pouco.

"Estou melhor, Thiago. Obrigada por vir", eu disse, minha voz soando distante até para mim.

Ele pareceu não notar, ou escolheu não notar. "A escola toda está sentindo sua falta. O desfile não vai ser o mesmo sem você."

Ele continuou falando, sobre os preparativos, sobre a bateria, sobre como Luana estava se esforçando para preencher o meu lugar. Cada palavra era como um grão de sal jogado na minha ferida aberta. E então eu senti. Um cheiro diferente misturado ao dele. Um perfume floral, doce e enjoativo. O perfume de Luana.

Meu olhar desceu para o colarinho da sua camisa. E lá estava. Uma pequena marca vermelha, quase escondida. Uma marca de batom. O mesmo tom vermelho vibrante que Luana usava como sua marca registrada. Meu estômago se revirou. A náusea subiu pela minha garganta, forte e amarga. A traição não era mais uma suspeita, uma sombra. Era uma mancha vermelha e brilhante na pele do homem que eu amava.

"Você precisa ir", eu disse, me virando de costas para ele, para que ele não visse a repulsa no meu rosto.

"Isa, o que foi? Eu disse algo errado?", ele perguntou, confuso.

"Apenas vá, Thiago. Por favor."

Eu o ouvi hesitar, depois seus passos se afastaram. Assim que a porta se fechou, corri para o pequeno banheiro. Abri a torneira e joguei água fria no rosto, de novo e de novo. Depois, entrei no chuveiro com roupa e tudo, e comecei a me esfregar com uma bucha vegetal, com força, como se pudesse arrancar a sensação do cheiro dele, da presença dele, da mentira dele da minha pele. Eu me esfreguei até minha pele ficar vermelha e arranhada, mas a sujeira que eu sentia não era superficial. Estava dentro de mim, uma mancha de desgosto e desespero que a água não podia lavar. Eu chorei ali, sob a água fria, não mais pela perda do meu amor, mas pela nojeira de ter sido tão cega. A dor da promessa que fiz no terreiro voltou, mas desta vez, eu a recebi. Era a única coisa limpa que restava.

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