As palavras dela eram para ferir, e feriram. A insegurança sobre minha aparência, sobre meu valor além do samba, era um ponto fraco que ela conhecia bem. Mas a lembrança de outra época me deu força. A lembrança de como Thiago me via, ou pelo menos, como ele agia.
"Ele pode ter te escolhido agora, Luana", eu disse calmamente, olhando diretamente nos olhos dela. "Mas por anos, foi por essa cara 'comum' que ele brigou. Foi para me proteger que ele enfrentou gente perigosa. Houve uma época em que ele teria queimado o mundo por mim. Você nunca terá isso. Você só tem o que sobrou."
Eu estava blefando em parte, exagerando a memória daquela briga no beco, mas a verdade no fundo da minha afirmação a atingiu. Ela sabia das histórias. Sabia de como ele era protetor.
"Isso era antes!", ela retrucou, mas sua voz tinha um pingo de incerteza.
"Era", eu concordei. "Mas são as memórias que constroem uma história. Você está tentando construir a sua sobre as ruínas da minha. Ele te beija e lembra de mim. Ele te vê dançar e compara comigo. Eu vivi com ele por cinco anos, Luana. Cada canto daquela quadra, cada batida daquela bateria, tem um fantasma meu que você nunca vai conseguir exorcizar."
As palavras saíram afiadas, calculadas para causar o máximo de dano. Eu vi o resultado no rosto dela. A cor sumiu de suas bochechas, deixando-a pálida sob a maquiagem pesada. Ela abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. Ela, que sempre tinha uma resposta na ponta da língua, estava sem palavras.
Recuperando-se, ela jogou sua última cartada. "Fantasmas não significam nada para os vivos", ela disse, forçando um sorriso de desdém. "E ele me prometeu. Ele me prometeu o cargo de Rainha de Bateria permanentemente. Ele vai anunciar no próximo ensaio. Ele disse que quer construir um futuro comigo. Comigo, Isabela. Não com uma lembrança."
A menção de uma promessa, de um futuro, doeu. Mas eu estava cansada. Cansada da briga, da dor, dela. Eu não queria mais participar daquele jogo.
"Que bom para você, Luana. Espero que vocês sejam muito felizes", eu disse, e a sinceridade na minha exaustão pareceu desarmá-la mais do que qualquer insulto. Eu dei a volta nela e comecei a me afastar. Eu não queria mais ouvir.
"Isa?"
A voz dele me fez parar. Meu coração deu um salto estúpido e doloroso antes que eu pudesse controlá-lo. Thiago estava parado a alguns metros de distância, perto do portão. Ele tinha uma expressão confusa, olhando de mim para Luana. Ele não tinha ouvido a conversa, mas podia sentir a tensão no ar.
"O que está acontecendo aqui?", ele perguntou, seu tom era o de sempre, um pouco despreocupado, como se estivesse interrompendo uma briga boba de crianças.
"Nada, meu amor", Luana correu para o lado dele, se agarrando ao seu braço, possessiva. "Eu só vim visitar minha irmã, ver se ela precisava de alguma coisa."
Thiago olhou para mim, e pela primeira vez, eu vi uma sombra de culpa em seus olhos. Mas desapareceu tão rápido quanto apareceu. Ele estava escolhendo não ver, escolhendo a ignorância para não ter que lidar com a própria consciência.
"Você está bem, Isa?", ele perguntou, mas a pergunta era uma formalidade.
Eu olhei para os dois juntos. A imagem deles me causava uma dor de cabeça latejante. O amor da minha vida e a minha irmã, unidos pela traição contra mim. A visão era tão absurda, tão dolorosa, que um cansaço profundo tomou conta de mim.
"Eu preciso ir", eu disse, minha voz baixa.
"Eu só vim te dizer para não se preocupar com nada", disse Thiago, como se estivesse me fazendo um favor. "Eu vou cuidar de tudo na escola. A Luana está se saindo muito bem. Ela tem a força que a gente precisa este ano."
Era uma explicação. Uma desculpa esfarrapada para justificar o que ele tinha feito. Ele não estava apenas substituindo uma dançarina. Ele estava me substituindo, e tentando fazer parecer que era uma decisão puramente profissional. Ele estava validando a traição de Luana, dando a ela a sua bênção.
"E sobre a posição de Rainha...", ele começou, olhando para Luana, que sorria triunfante. "Eu vou oficializar a Luana no cargo. É o melhor para a escola."
Ouvir aquilo da boca dele foi a pá de cal. Senti meus olhos arderem e minhas mãos tremerem. A humilhação era completa. Ele não estava apenas me abandonando; ele estava publicamente entregando meu maior sonho para a pessoa que me destruiu.
Eu não disse nada. Apenas assenti lentamente, a cabeça pesada. Eu me virei e caminhei para dentro do terreiro, sem olhar para trás. Eu podia sentir os olhos deles em mim. O olhar triunfante de Luana e o olhar culpado e egoísta de Thiago. A dor era tão grande que meu corpo parecia não pertencer mais a mim. Eu só queria desaparecer.