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Ele a Abandonou, Ela se Tornou Deusa
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Capítulo 2

A memória veio sem aviso, como uma corrente de ar frio em um dia quente. Eu estava no chuveiro, a água ainda escorrendo pelo meu corpo dolorido, e de repente eu não estava mais no terreiro. Eu tinha dezesseis anos de novo, tremendo de frio e medo em um beco escuro perto da quadra da escola de samba. Tinha chovido forte, e a festa que acontecia lá dentro tinha se transformado em uma briga de rua. Eu fui empurrada, caí, e um grupo de rapazes me cercou. Eu pensei que era o fim.

Então, ele apareceu. Thiago. Ele não era muito mais velho que eu, mas já tinha uma autoridade que vinha do seu talento com os tambores. Ele não disse muito. Apenas se colocou na minha frente, alto e firme, e olhou para os outros com uma intensidade que os fez recuar e desaparecer na noite.

Ele se virou para mim, que estava encolhida no chão, com o joelho ralado e a roupa encharcada. Ele tirou a jaqueta da escola de samba que usava e a colocou sobre meus ombros. Era quente e cheirava a ele.

"Você está bem?", ele perguntou, sua voz era grave, mas não assustadora.

Eu apenas consegui assentir, incapaz de falar. Ele me ajudou a levantar, seu toque em meu braço era firme e protetor. Ele me levou para dentro da quadra vazia, me sentou em um dos bancos de madeira e foi buscar o kit de primeiros socorros.

Ele limpou meu joelho com um cuidado que eu nunca tinha recebido de ninguém. Suas mãos, as mesmas que produziam trovões dos surdos, eram incrivelmente gentis. Ele não fez perguntas invasivas, não me fez sentir envergonhada. Ele apenas cuidou de mim.

A partir daquele dia, ele se tornou meu protetor. Nos ensaios, ele sempre encontrava um jeito de ficar perto, seus olhos me seguindo enquanto eu dançava. Se alguém me olhava de um jeito que ele não gostava, um simples olhar dele era o suficiente para afastar a pessoa. Ele me trazia água, me ajudava a alongar, e celebrava cada novo passo que eu aprendia com um sorriso que iluminava todo o seu rosto.

Ele me tratava como algo precioso, mas nossa relação era de amizade, de um irmão mais velho cuidando da mais nova. Pelo menos, era o que eu pensava. Luana, que tinha ciúmes até da sombra, sempre dizia que ele me olhava diferente. "Ele não te olha como uma irmã, Isabela. Acorda", ela dizia com desdém. Eu nunca acreditei.

Até uma noite, cerca de um ano depois. Estávamos sozinhos na quadra depois de um ensaio particularmente longo. A maioria das pessoas já tinha ido embora. Ele estava me ajudando a guardar umas fantasias.

"Sabe, Isa", ele disse, com um tom de brincadeira, "se você continuar dançando desse jeito, eu vou ter que arrumar um segurança particular pra você."

"E por que isso?", eu ri, jogando um pedaço de tecido brilhante para ele.

"Porque você brilha demais. Vai ofuscar a avenida inteira. E eu não quero dividir sua atenção com mais ninguém", ele respondeu, e seu sorriso vacilou um pouco, se tornando algo mais sério.

Meu coração acelerou. A atmosfera na quadra mudou de repente. O ar ficou mais denso, carregado de algo que eu não conseguia nomear. Ele deu um passo na minha direção, tirando o pedaço de tecido da minha mão e colocando-o de lado. Suas mãos encontraram as minhas.

"Estou falando sério", ele disse, sua voz agora um sussurro.

Eu não sabia o que dizer. Fiquei ali, parada, sentindo o calor das mãos dele, olhando para os seus olhos que agora pareciam mais escuros, mais intensos. Ele se inclinou lentamente, me dando todo o tempo do mundo para recuar. Eu não recuei.

O primeiro beijo foi suave, quase hesitante. Um toque de lábios que enviou uma onda de calor por todo o meu corpo. Depois, ele aprofundou o beijo, e eu me entreguei completamente àquele momento. Seus braços me envolveram, me puxando para perto. Eu me senti segura, desejada e, pela primeira vez na vida, completamente em casa. O som distante de um último tambor sendo guardado foi a trilha sonora do início da nossa história.

A água fria do chuveiro me trouxe de volta à realidade dolorosa. A imagem do beijo se desfez, substituída pela lembrança da marca de batom no pescoço dele. A náusea voltou. Que idiota eu fui. Como pude me afogar em memórias de um tempo que estava morto e enterrado? Aquele Thiago, o protetor, o amante gentil, não existia mais. Ou talvez nunca tivesse existido. Talvez eu só visse o que queria ver.

"Eu me odeio", murmurei para a parede do banheiro. "Eu me odeio por ainda sentir falta dele."

A dor no meu peito era uma prova da minha fraqueza. A promessa que fiz à Mãe de Santo exigia que eu cortasse esses laços, mas eles ainda estavam ali, sangrando. Eu me sentia patética, uma tola que se apegava a um fantasma.

Mas então, outra sensação surgiu por baixo da dor e da raiva. Uma faísca de determinação. Eu não podia deixar a traição deles me destruir. Eu não podia deixar Luana e Thiago vencerem. A Mãe de Santo disse que meu destino era maior que o Carnaval. Ela disse que eu tinha um poder a ser despertado.

Saí do chuveiro, tremendo de frio, mas com uma nova resolução. Se a dor era o preço, eu a pagaria. Se o sacrifício era o caminho, eu o seguiria. Eu não podia mudar o que eles fizeram, mas podia mudar o que eu faria a seguir. Eu precisava me tornar mais forte. Não por vingança, mas por mim mesma. Para honrar a nova vida que me foi oferecida. Eu me vesti com as roupas limpas que o terreiro me deu e fui procurar a Mãe de Santo. Era hora de começar meu verdadeiro treinamento. A dançarina Isabela estava morrendo. Era hora da sacerdotisa nascer.

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