Eu tentei ignorar. Foquei nas minhas tarefas no terreiro, na aprendizagem das ervas, dos cânticos, das rezas. A Mãe de Santo era paciente, me ensinando a canalizar minha dor em força espiritual. Mas era difícil. A noite, o silêncio era preenchido pelas minhas memórias e pelas vozes cruéis dos boatos.
Um dia, a fonte dos boatos veio até mim.
Eu estava varrendo as folhas secas no pátio da frente do terreiro quando ouvi uma agitação no portão. Era Luana. Ela discutia com um dos filhos de santo que guardavam a entrada.
"Eu quero ver minha irmã! Sai da minha frente!", a voz dela era estridente e arrogante.
"A Mãe de Santo pediu para não a perturbarem", o rapaz respondeu, firme, mas visivelmente intimidado.
"E quem é a Mãe de Santo para me impedir de ver minha própria família? Thiago vai ficar sabendo dessa falta de respeito!", ela ameaçou, usando o nome dele como uma arma.
A menção do nome de Thiago fez o rapaz hesitar. Eu suspirei. Para evitar mais problemas para as pessoas que me acolheram, larguei a vassoura e caminhei até o portão.
"Deixe-a entrar, Jorge. Está tudo bem."
Jorge me olhou com preocupação, mas abriu o portão. Luana entrou, desfilando como se estivesse na Sapucaí. Ela usava roupas de grife, joias brilhantes e aquele seu sorriso vitorioso. Ela me olhou de cima a baixo, reparando nas minhas roupas simples e nos meus pés descalços na terra.
"Finalmente. Achei que você tinha virado uma eremita", ela disse, com um tom de zombaria.
"O que você quer, Luana?", perguntei, minha voz calma. Eu não a reconhecia. Ou talvez, eu estivesse finalmente vendo quem ela realmente era. Havia uma aura nela, uma confiança fria e implacável que nunca estivera lá antes. Era a aura da entidade sombria que a Mãe de Santo mencionou, a força que ela invocou para conseguir o que queria.
"Vim ver como você estava, irmãzinha. Fiquei sabendo do seu... retiro espiritual", ela disse, a palavra "irmãzinha" soando como um insulto. "Mas parece que você está se adaptando bem a essa vida... simples."
"Eu estou bem", respondi, mantendo meu olhar firme no dela.
Ela riu, um som sem alegria. "Sabe, Isabela, eu até sinto um pouco de pena de você. Você se dedicou tanto, por tanto tempo... para nada." Ela deu um passo mais perto, baixando a voz para um sussurro conspiratório. "Eu tentei te avisar. Thiago nunca te viu como uma igual. Você era a inspiração dele, a musa bonita. Mas musas são para serem admiradas, não para serem rainhas."
Ela parou, esperando que as palavras me atingissem. E elas atingiram. Mas a dor foi rapidamente substituída por uma clareza fria.
"Ele me disse isso, sabe?", ela continuou, seu sorriso se alargando. "Ele disse que o seu talento era lindo, mas que o seu lugar era ao lado dele, não no topo. Para o topo, ele precisava de alguém com ambição. Alguém como eu." Ela fez uma pausa dramática e então soltou a palavra final, com um prazer cruel. "Você era o bichinho de estimação talentoso dele, Isabela. E bichinhos de estimação podem ser substituídos."
"Bichinho de estimação". A palavra ecoou na minha cabeça, oca e horrível. Um flash de memória me atingiu com a força de um soco. Uma conversa que eu ouvi sem querer, meses atrás, entre Thiago e o presidente da escola de samba.
"A Isabela tem a alma da escola, mas a Luana tem a garra para a competição", o presidente disse.
E Thiago respondeu, com uma risada que na época me pareceu carinhosa: "Não se preocupe. A Isa é o meu amuleto da sorte, meu bibelô. Ela fica feliz só de dançar. Ela sempre vai estar onde eu precisar que ela esteja."
Na época, eu ignorei. Achei que era o jeito dele de me proteger, de me manter fora das políticas sujas da escola. Agora, as palavras dele voltavam com um significado novo e monstruoso. Bibelô. Bichinho de estimação. Algo para ser guardado, exibido e, quando conveniente, descartado.
Um gosto amargo subiu à minha garganta. A dor no meu peito, que eu estava aprendendo a controlar, voltou com força total. Eu senti meu nariz arder, a ameaça de lágrimas me humilhando na frente dela.
Eu forcei um sorriso, um movimento que me custou toda a minha força. "Se eu era o bichinho de estimação, pelo menos eu era o favorito por muito tempo. Deve ser difícil ser sempre a segunda opção, não é, Luana? Até para roubar um lugar, você precisou que eu saísse do caminho."
A cor sumiu do rosto dela. O sorriso dela desapareceu, substituído por uma máscara de raiva.
"Você...", ela começou, mas eu a interrompi.
"Eu o quê? Vou dizer a verdade? Você sempre viveu na minha sombra. E mesmo agora, com tudo o que você roubou, você ainda precisa vir aqui para se certificar de que eu estou sofrendo. Isso não é poder, Luana. É insegurança."
Ela me olhou, seus olhos se estreitando em duas fendas perigosas. "Você vai se arrepender dessas palavras."
"Eu já me arrependi de muitas coisas, Luana", eu disse, me virando para voltar ao meu trabalho. "Conversar com você não será uma delas."
"Não vire as costas para mim!", ela gritou.
Eu parei, mas não me virei. Eu podia sentir o ódio dela queimando nas minhas costas. Eu sabia que aquela não seria a última vez que a veria. A guerra entre nós estava apenas começando. E pela primeira vez, eu senti que tinha armas para lutar. Não as armas do samba, mas as da fé e da verdade. E eu não ia mais ser o bichinho de estimação de ninguém.