Eu apenas o encarei, agarrando os papéis contra o peito, tentando instintivamente escondê-los de sua vista.
Seus olhos se estreitaram. "Você estava me seguindo? É por isso que está aqui? Helena, isso está ficando ridículo. Eu te disse, levei a Carla para casa porque ela estava doente."
A acusação era tão absurda, tão profundamente egocêntrica, que uma risada borbulhou em minha garganta, áspera e sem humor. "Te seguindo?", perguntei, minha voz pingando um sarcasmo que eu não sabia que possuía. "Sim, Bernardo, é isso. Depois que você me abandonou no nosso casamento, meu primeiro pensamento foi rastrear você e sua estagiária pela cidade. O ataque cardíaco do meu sogro foi apenas uma desculpa conveniente para estar no mesmo prédio."
Ele teve a decência de parecer momentaneamente envergonhado. A acusação morreu em seus lábios quando ele percebeu o quão insano soou.
O silêncio que se estendeu entre nós era pesado e sufocante. Ele deu um passo hesitante em minha direção, a mão estendida como se para tocar meu braço. Seus olhos, no entanto, foram atraídos para os papéis que eu segurava.
"O que é isso?", ele perguntou, o olhar fixo no cabeçalho em negrito da clínica.
Antes que eu pudesse responder, a mãe dele apareceu, o rosto pálido e abatido. Ela passou por mim e deu um tapa no rosto de Bernardo. O som ecoou no corredor silencioso.
"Seu egoísta!", ela gritou, a voz tremendo de fúria. "Seu pai... ele quase morreu! Por sua causa! Por causa da sua palhaçada ridícula e egoísta!"
Bernardo recuou, a mão voando para a bochecha. "Do que você está falando? Não foi uma palhaçada! Papai estava bem esta manhã!" Seus olhos dispararam para mim. "Você contou a eles? Você correu para eles com alguma versão distorcida do que aconteceu para me fazer parecer mau?" Sua voz baixou, tingida de veneno. "Você não suportou, não é? A ideia de que eu pudesse ter que me importar com outra pessoa por cinco minutos. Você tinha que garantir que o nome da Carla fosse arrastado na lama."
Senti o sangue drenar do meu rosto. Mesmo agora, sua principal preocupação era a reputação dela. Dela. A estagiária.
"Eu não disse uma palavra, Bernardo", eu disse, minha voz mal um sussurro. O peso de sua injustiça estava me esmagando.
"Você é um advogado, Bernardo", eu disse, reencontrando minha voz, uma fúria fria crescendo dentro de mim. "Sócio de um dos melhores escritórios de São Paulo. As pessoas confiam que você tenha bom senso. Que siga um certo código de ética. Você acha que abandonar sua noiva no altar para correr para o lado de sua jovem subordinada demonstra bom senso?"
Seu rosto ficou branco. Eu havia tocado num nervo. Eu não ataquei seu coração, mas seu ego. Seu orgulho profissional.
"Ela está certa, Bernardo", disse a mãe dele, a voz trêmula. "Como você pôde? Como pôde humilhar a Helena assim? Na frente de todo mundo?"
Bernardo olhou para a mãe como se ela tivesse criado uma segunda cabeça. Ele estava tão acostumado a ela ser sua defensora mais ferrenha, aquela que não via erro em seu filho perfeito. "Mãe, você não entende. Foi uma emergência."
"Uma emergência que exigia você, e apenas você?", retruquei. Meus próprios anos de apaziguá-lo, de amenizar as coisas, de dar desculpas por ele, haviam acabado. Ele era um advogado. Que se defendesse.
Sua mãe, ainda operando sob a suposição de que ele havia corrido para um acidente de carro ou alguma outra catástrofe inevitável, balançou a cabeça. "Não importa o que fosse, seu lugar era com sua esposa."
Minha esposa. A palavra era uma ironia amarga. Em minha mente, vi a foto que Carla havia enviado. A mão dela no braço dele. No carro dele. Em nosso apartamento. O famoso chá de gengibre com limão.
O rosto de Bernardo passou de branco para um vermelho manchado. Ele abriu a boca para se desculpar, para amenizar as coisas, mas era tarde demais.
"Bernardo? Me desculpe... seu pai está bem?"
Uma voz pequena e tímida cortou a tensão. Carla Bastos estava no final do corredor, seus olhos grandes e arregalados com falsa preocupação. Ela segurava uma bolsa de grife contra o peito, parecendo um pássaro perdido e frágil. Ela dirigiu sua pergunta a Bernardo, mas seus olhos piscaram para mim, um brilho de triunfo puro e absoluto em suas profundezas.
"Eu me sinto péssima", ela sussurrou, uma lágrima traçando um caminho perfeito por sua bochecha. "Isso tudo é culpa minha."
Eleonora Arruda parecia prestes a explodir. "Você-!"
"Mãe, pare!", Bernardo rosnou, colocando-se na frente de Carla como se para protegê-la. "Não é culpa dela. Ela está doente."
Sua mãe o encarou, horrorizada. "Bernardo, você está se ouvindo? Esta é a mulher com quem você vai se casar! Esta é a sua família!", ela gesticulou descontroladamente entre mim e ela mesma.
"O casamento está cancelado, Eleonora", eu disse, minha voz assustadoramente calma.
A cabeça de Bernardo se virou para mim. "Não, não está", ele disse, como se a decisão fosse dele. "Helena, você só está chateada. Está falando besteira."
"Estou?", perguntei.
"Nós vamos adiar", ele declarou. "Eu já te disse, estou resolvendo a situação com a Carla. Ela será transferida na segunda-feira de manhã."
Um som pequeno e patético, como um gatinho ferido, veio de trás dele.
Minha mão em meu abdômen se apertou. Eu podia sentir o início fraco e vibrante da vida dentro de mim, uma vida cujo pai estava ativamente escolhendo outra mulher em vez de sua mãe.
"Para onde ela está sendo transferida, Bernardo?", perguntei, meu tom casual. "Para o almoxarifado? Para o escritório de Londres?"
"Estou transferindo-a para a divisão de direito societário", ele disse, estufando o peito ligeiramente, orgulhoso de sua solução magnânima. "É em um andar diferente."
Um andar diferente. Essa era a solução dele. Mantê-la no mesmo prédio, a uma viagem de elevador de dez segundos de distância.
"Você é inacreditável", sussurrei, os últimos vestígios do meu amor de sete anos se transformando em cinzas na minha boca.
"Qual é o seu problema, Helena?", ele exigiu, sua voz se elevando. "É uma boa solução! Ela é uma boa estagiária, tem uma família para sustentar, não posso simplesmente demiti-la e arruinar a carreira dela porque você está se sentindo insegura!"
Ele estava certo. Ele não podia arruinar a carreira dela. Mas ele tinha acabado de detonar a minha. Minha vida. Nosso futuro.
Ele estava do lado dela na linha. Ele mesmo a havia traçado na areia. Ele e ela contra mim. Contra sua própria mãe.
De repente, eu estava tão cansada. Cansada da briga. Cansada do drama. Cansada dele.
"Você está certo", eu disse suavemente.
Ele pareceu momentaneamente aliviado.
"Eu estou sendo insegura", continuei, minha voz ganhando força. "E decidi que não quero estar em um relacionamento que me faz sentir assim. Então, estou me retirando dele."
Levantei os papéis em minha mão, virando-os para que ele pudesse ler as palavras no topo.
"Interrupção da Gravidez: Termo de Consentimento Informado."
Seus olhos percorreram as palavras. Seu cérebro, a mente jurídica mais afiada de sua geração, processou a informação. A cor, a raiva, a arrogância - tudo drenou de seu rosto, deixando para trás uma máscara de incredulidade boquiaberta e oca.