"Ah, ela precisa de você", zombou Amanda. "Ela é um fardo, Bruno. Um peso morto. Sempre foi. Todo mundo sabe disso."
Meu sangue gelou. Um fardo. Um peso morto. As palavras, sussurradas tão casualmente, foram como água gelada derramada diretamente em minha alma. Afastei-me dos armários, saindo para o corredor.
Antes que eu pudesse dar outro passo, algo grosseiro e áspero foi jogado sobre minha cabeça. Um saco de lona grosso, cheirando a poeira e mofo, me envolveu, me mergulhando em uma escuridão instantânea. O pânico explodiu, quente e agudo, mas eu o contive. Eu não lhes daria essa satisfação.
Fui puxada para frente, arrastada bruscamente pelo chão, meus pés raspando nos azulejos. O som de uma porta pesada rangendo ao abrir, depois batendo, ecoou ao meu redor. O ar ficou úmido e pesado, cheirando vagamente a água parada e desinfetante. Eu estava em um banheiro, provavelmente o abandonado na ala antiga da escola.
"Olha pra ela", a voz de Amanda, agora mais clara, mais nítida, preencheu o pequeno espaço. Ela claramente achava que eu não podia ouvi-la. "Apenas parada aí, patética como sempre. Ela nunca se cansa de ser uma vítima?"
Ela riu, um som cruel e zombeteiro. "Sabe, o Bruno acha que você é uma santa. Tão pura. Mas ele odeia essa sua cara de paisagem, Elisa. Ele me disse. Ele odeia que você nunca reage, nunca chora. É chato, ele disse."
As palavras foram um golpe físico, um soco no estômago. Bruno. Meu Bruno. Ele odiava meu rosto? Ele odiava meu silêncio? O mundo girou em seu eixo.
"Sabe o que eu acho?", continuou Amanda, sua voz cheia de um veneno arrepiante. "Acho que você merece tudo de ruim que acontece com você. Você monopolizou o Bruno por tanto tempo, o fez se sentir culpado. Espero que você queime, assim como seus pais."
Meus olhos arderam, uma dor aguda e súbita. Lágrimas, quentes e incontroláveis, brotaram e escorreram pelo meu rosto, molhando o interior do saco áspero. A memória do incêndio, uma ferida aberta em minha alma, se rasgou novamente. Meus pais. O sacrifício deles. E Bruno, que havia compartilhado aquele segredo, aquele trauma, o havia transformado em arma. Ele havia contado a Amanda. Ele havia compartilhado minha vulnerabilidade mais profunda e dolorosa com minha algoz.
Um estalo agudo. Uma onda de dor agonizante subiu pela minha perna. Senti o gosto de sangue, metálico e acre. Um osso. Parecia que um osso tinha acabado de quebrar. Um gemido sufocado escapou dos meus lábios selados.
Então, um frio súbito e chocante. Água, gelada e com cheiro fétido, foi derramada sobre minha cabeça, encharcando minhas roupas, colando o saco de lona no meu rosto. Engasguei, sufocando com o fedor.
Minha cabeça foi forçada para baixo, para dentro de algo molhado e nojento. A água fria e pútrida de um vaso sanitário encheu meu nariz, minha boca. Eu me debati, minha perna quebrada gritando em protesto, meus pulmões queimando. Minha mente gritou *Bruno!* Um grito desesperado e primitivo pelo protetor que não estava lá.
Então, fracos a princípio, ouvi passos. Passos rápidos e pesados do lado de fora da porta. E então, a voz de Bruno, clara e alta através da porta fina. "Amanda! O que você está fazendo?"
Uma onda de esperança, tola e fugaz, surgiu em mim. Ele estava aqui. Ele me salvaria.
"Ah, nada demais, Bruninho", arrulhou Amanda, sua voz enjoativamente doce, como se não tivesse acabado de tentar me afogar. "Só me divertindo um pouco."
"Eu te disse pra deixá-la em paz!", a voz de Bruno era ríspida, uma nota clara de raiva. Mas então ele acrescentou: "Eu saio com você hoje à noite. Prometo. Só não faz cena agora."
Minha esperança evaporou, substituída por uma onda esmagadora de desespero. Ele ainda estava jogando o jogo dela. Ainda a priorizando.
"Só não faz cena, Amanda", repetiu Bruno, sua voz mais baixa, mais um aviso do que uma ordem. "Não exagera."
Amanda riu, um som triunfante e zombeteiro. "Ah, Bruno, você é tão hipócrita. Você sabe que adora quando eu a provoco." Sua voz era provocadora, brincalhona.
Senti, em vez de ver, o olhar de Bruno em mim, um peso frio e indiferente. Ele olhou para minha forma se debatendo, escondida pelo saco, e não fez nada. Apenas observou.
"Sério, Amanda, não arruma problema pra gente", disse ele, sua voz curta. "O tio dela é um oficial de alta patente do exército. Se isso vazar, não vai ser bom pra ninguém." Sua preocupação não era com meu bem-estar, mas com as consequências, com sua própria pele.
Então, ouvi um baque nauseante, um som suave e úmido, seguido pela risadinha de Amanda. Meus ouvidos, ainda sobrecarregados pelos novos sons, registraram o som distinto de um beijo. Um beijo longo e demorado. E então, o grito triunfante de Amanda.
"Viu?", ela sussurrou, sua voz pingando satisfação. "Ele sempre volta pra mim."
Bruno se afastou, seus passos pesados enquanto saía, a porta se fechando com um clique suave. Ele me deixou. Ele simplesmente me deixou.
A voz de Amanda flutuou de volta pela porta. "Vê se limpa ela antes que alguém a encontre. Não queremos estragar a imagem perfeita do Bruno, não é?" Ela riu de novo, um som arrepiante. "Ele é tão dividido, não é? Acha que deve algo a ela, mas é muito mais feliz comigo."
"É, tanto faz", respondeu uma voz rouca. "A muda é um pé no saco de qualquer maneira. Sempre fazendo o Bruno parecer o herói dela."
Os passos se afastaram. O silêncio caiu, quebrado apenas pelo gotejar constante de uma torneira vazando em algum lugar próximo.
Deslizei para o chão frio e úmido, meu corpo doendo, minha perna quebrada latejando. Minhas mãos, ainda trêmulas, procuraram meu celular. Uma nova mensagem. De Bruno. *Desculpa. A gente se vê em casa.*
Cada palavra era uma farpa, perfurando meu coração já estilhaçado. Minha visão embaçou. Minhas pálpebras ficaram pesadas. A escuridão, antes um terror, agora parecia um abraço acolhedor. Meu corpo cedeu. Mergulhei na inconsciência, os sons do mundo desaparecendo, substituídos pelo vazio familiar e reconfortante.
Eu estava de volta ao incêndio. O calor, a fumaça, os gritos. Os rostos dos meus pais, contorcidos de medo, mas seus olhos, fixos em Bruno, cheios de uma determinação desesperada. *Proteja-a, Bruno!* As palavras ecoaram em minha mente, um apelo silencioso.
*Eu prometo, Elisa. Vou sempre te proteger. Sempre.* Sua voz, de uma década atrás, estava clara em minha memória, um fantasma de um voto.
Ele havia prometido. Mas promessas, percebi, eram apenas palavras, facilmente quebradas, facilmente descartadas. Ele havia quebrado a sua. E ao fazer isso, ele havia me quebrado.