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O Amor Construído Sobre Mentiras Silenciosas
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Capítulo 4

Ponto de Vista de Elisa:

Uma cacofonia de vozes, agudas e raivosas, lentamente me puxou de volta à consciência. O mundo era um borrão de som, áspero e indesejado. Minha cabeça latejava, meu corpo doía, cada músculo protestando. Tentei abrir os olhos, mas a luz era muito forte. Eu podia ouvi-los, no entanto. Bruno. Seus pais.

"Eu tô de saco cheio disso, mãe!", a voz de Bruno era tensa, carregada de uma amargura que eu nunca tinha ouvido antes. "Dez anos! Dez anos bancando o herói dedicado! Dez anos amarrado a ela, ao silêncio dela, a essa culpa."

Meu coração se apertou, um torno doloroso. Culpa. Era isso, não era? Não amor. Não cuidado. Apenas culpa.

"Eu só quero viver minha própria vida, pela primeira vez!", sua voz falhou, cheia de um anseio cru e desesperado. "Eu queria... eu queria ter morrido naquele incêndio no lugar dos pais dela."

As palavras me atingiram como um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Meu coração parou. Minhas mãos, escondidas sob os lençóis do hospital, se fecharam em punhos, minhas unhas cravando em minhas palmas, uma tentativa desesperada de sentir algo, qualquer coisa, além da dor excruciante de suas palavras.

"Bruno Rocha! Como você pode dizer uma coisa dessas?", a voz de sua mãe estava embargada de lágrimas, cheia de um profundo choque e tristeza. "Depois de tudo que eles fizeram por você, depois de tudo que ela passou?"

"Ela nem consegue me ouvir de qualquer maneira, mãe!", retrucou Bruno, sua voz carregada de um desafio cruel. "Não importa o que eu diga! Ela é um fardo! Sempre foi!"

Um estalo agudo. O som inconfundível de um tapa. "Seu moleque ingrato!", a voz do pai de Bruno, geralmente calma e composta, agora tremia de raiva. "Não se atreva a falar da Elisa assim! E que palhaçada é essa sobre a Amanda Nogueira? Eu te disse para ficar longe daquela encrenqueira!"

"A Amanda me entende!", rosnou Bruno, um tom desafiador em sua voz. "Ela não tem pena de mim, não me trata como uma boneca de porcelana frágil. Ela é viva, é emocionante! Ela me faz sentir algo além de sufocado!"

Esta era a família deles. Esta era a casa dele. Um lugar que eu achava seguro, um lugar ao qual eu pertenci por uma década. E eu estava ouvindo tudo, cada palavra crua e brutal. Esta foi a primeira vez que o ouvi discutir com seus pais, a primeira vez que ouvi seus verdadeiros sentimentos, sem filtros e cruéis.

Ele me ressentia. Ele me odiava. Ele desejava que eu tivesse morrido.

Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. A dor fria e vazia em meu peito se espalhou, me consumindo. Meu coração, antes uma coisa vibrante e pulsante, havia murchado e morrido. Não havia mais nada. Absolutamente nada.

O quarto ficou em silêncio, pesado com palavras não ditas, sufocante.

Na manhã seguinte, dei alta a mim mesma do hospital. Os pais de Bruno estavam lá, seus rostos abatidos e cansados. Eles falaram sobre a investigação, sobre conseguir justiça para mim, mas não mencionaram Bruno. Eu também não o mencionei. O silêncio entre nós era alto, um abismo que se abriu.

"Temos que fazer algo sobre a Amanda", insistiu a mãe de Bruno, sua voz trêmula. "Vamos à escola, à polícia. Ninguém pode machucar nossa Elisa assim." Seu pai assentiu sombriamente, o maxilar cerrado.

Balancei a cabeça, gesticulando *Não*. Peguei meu celular e digitei: *Eu vou resolver isso.* Minha determinação era fria, dura, inflexível. Eu não os deixaria lutar minhas batalhas, não quando o filho deles era quem havia começado a guerra.

Amanda Nogueira vai pagar. Jurei em meu coração, uma promessa ardente.

Uma semana se passou. Bruno não voltou para casa. Sua cama permaneceu desfeita, seu quarto silencioso, um contraste gritante com o garoto animado que geralmente enchia a casa com sua presença. Seus pais ficavam cada vez mais preocupados, seus rostos marcados por linhas de noites sem dormir.

"Elisa", disse a mãe de Bruno uma noite, sua voz hesitante, quase suplicante. "Você poderia... você poderia ir procurá-lo? Por favor? Ele não nos escuta, mas vai escutar você." Ela me olhou com olhos desesperados e cheios de lágrimas.

Encarei o nome de Bruno, gravado em uma foto emoldurada na lareira, uma foto nossa quando crianças, rindo, despreocupados. Parecia olhar para um estranho.

Levantei a cabeça, encontrando seu olhar. Assenti, um acordo suave e deliberado. Eu iria. Mas não por ela. Não por ele. Por mim mesma.

Naquela sexta-feira, depois da escola, armada com um endereço que sua mãe me deu com relutância, eu o encontrei. Ele estava em um beco imundo atrás de um bar, cercado por um grupo de garotos de aparência rude, uma nuvem de fumaça de cigarro pairando pesada no ar. Bruno, vestido com uma camisa branca impecável, se destacava como um farol em meio à escuridão, um cordeiro perdido entre lobos. Ele parecia deslocado, desconfortavelmente descolado, tentando se encaixar.

Nossos olhos se encontraram através do beco escuro. Seu rosto, geralmente tão composto, corou de um vermelho vivo. Ele rapidamente largou o cigarro, esmagando-o sob o calcanhar. Ele começou a caminhar em minha direção, seus passos hesitantes, incertos.

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