Sentei na terceira fileira da sala de conferência, tentando parecer confiante. O jaleco novo pinicava o pescoço, o crachá pesava no bolso do peito. Fingir segurança era meu exercício secreto.
Quando o professor entrou, não era o homem que todos esperavam.
O Dr. Hanks ajeitou os óculos no rosto, pigarrou, e falou com a autoridade de quem sabe exatamente onde pisa.
- Bom dia, residentes. Hoje quem faria essa aula seria o Dr. Oliver Jones, mas ele está no centro cirúrgico, resolvendo uma emergência.
O murmúrio começou imediatamente. Todo mundo conhecia o nome dele. O cirurgião mais famoso do hospital. Talvez da cidade. Talvez do país.
Oliver Jones é o tipo de médico que carrega o peso do impossível nas costas. As histórias sobre ele passam de boca em boca, quase como lendas.
A primeira cirurgia cardíaca sem suporte de circulação extracorpórea. O transplante que ninguém mais aceitou. O salvador da vida de um político importante em pleno voo.
E, claro, o filho do dono do hospital, mas o que eu sabia mesmo era que ele não gostava de ser chamado de herdeiro.
O Dr. Jones gosta do centro cirúrgico, não da sala da presidência. Dizem que isso irrita o pai dele, que o quer no comando da cadeira administrativa.
Depois da aula, sentei sozinha no refeitório. Abri o caderno de anotações e comecei a escrever sem parar, tentando reter tudo o que tinha ouvido naquela manhã.
Estava tão concentrada que só percebi quando a cafeteria silenciou por um instante.
Ele tinha entrado: Oliver Jones atravessava os lugares como se não precisasse pedir licença. O jaleco fechado até o último botão, os ombros retos, o olhar sério.
Ele foi direto à máquina de café, e eu deveria ter desviado o olhar.
Mas não desviei quando nossos olhos se encontraram, alguma coisa parou dentro de mim, por alguns segundos, mas o efeito ficou em mim.
O resto do dia foi automático. Passei o plantão pensando no olhar dele, tentando me convencer de que não era nada, que eu estava cansada, que isso era normal. Mas não era. Quando o turno acabou, voltei pra casa, exausta.
Lembrei que precisava comprar comida e desci até o mercado da esquina, rezando para conseguir terminar o dia sem pensar mais nele.
Voltei correndo, pois o vento gelado da noite cortava os braços. Cheguei no prédio, vi o elevador quase fechando.
- Espera! Segura, por favor! - as portas travaram.
Entrei apressada, ajeitando a mochila no ombro, tropeçando no próprio pé, levantei o rosto e o choque veio.
Era ele: O Dr. Jones, ali, no mesmo elevador que eu.
O olhar dele percorreu meu rosto, desceu pelo meu corpo, voltou para os meus olhos, senti a pele formigar, apertei o número 18, o botão já estava aceso.
O mesmo andar que o meu, duas coberturas por andar. Um vizinho, então.
O elevador subiu devagar demais, o silêncio entre nós pesava, o ar parecia outro, minhas mãos seguravam a alça da mochila com força, tentando disfarçar o tremor.
Ele também estava tenso, eu percebi, e quando as portas se abriram, saí primeiro.
Ele veio logo atrás, virei o rosto, esbocei um sorriso sem graça, os olhos dele me acompanharam.
Entrei no apartamento, ainda com o coração acelerado, fechei a porta atrás de mim e encostei as costas na madeira por alguns segundos, tentando normalizar a respiração.
A cena do elevador passava na minha cabeça como um filme em looping.
Droga.
- Tá tudo bem com você? - a voz da minha amiga cortou meus pensamentos.
Levantei os olhos e dei de cara com a Júlia me olhando do sofá. Ela segurava uma taça de vinho e me observava com um sorriso de canto, como quem sabe mais do que deveria.
- Tô bem - menti, forçando um sorriso.
- Bem? - Ela arqueou uma sobrancelha, cruzando as pernas sobre a almofada. - Você tá vermelha, Emma. Parece que saiu correndo da academia ou... sei lá.
Desviei o olhar e fui até a cozinha pegar um copo d'água.
- Nada demais. Só estou cansada. Primeiro dia de residência, lembra?
Ela riu baixo, pegando o celular do colo.
- Vou sair com o Caio. A gente vai no barzinho da esquina. Quer ir?
Balancei a cabeça, recusando.
- Hoje não. Preciso dormir cedo, o semestre mal começou e eu já tô exausta.
Júlia me encarou mais um pouco, como se quisesse cavar alguma coisa da minha expressão, mas soltou um suspiro resignado.
- Tá bom, certinha. Fica aí. Se mudar de ideia, me manda mensagem.
Acenei com a mão enquanto ela saía, escutando a porta bater com suavidade.
Sozinha no apartamento, fui direto para o banho.
A água quente caiu sobre o corpo, mas não levou embora o pensamento que martelava na minha mente: Oliver Jones.
A cena no elevador, os olhos dele grudados nos meus, a tensão que ficou pairando no ar, tudo reaparecia como uma tatuagem mental.
Fechei os olhos sob o chuveiro, tentando controlar a imaginação, mas era inútil. O rosto dele surgia em detalhes. A voz grave, o cheiro leve de hospital misturado com algo mais masculino, mais quente.
Quando saí do banheiro, enrolei a toalha por alguns minutos, parada no meio do quarto.
Acabei vestindo uma das minhas camisolas curtas, aquelas que cobrem o suficiente para não ser indecente, mas deixam quase tudo à mostra. Era confortável. E, sinceramente, eu não estava pensando direito no que fazia.
Abri a porta do quarto e fui até o parapeito da varanda do corredor, aquele espaço comum entre os apartamentos da cobertura.
O céu de Nova York estava limpo, apesar do frio. As estrelas brilhavam mais do que o normal, e o vento gelado arrepiava minha pele.
Fechei os braços ao redor do corpo, mas não voltei pra dentro, queria respirar e esquecer, ou talvez quisesse exatamente o contrário.
Foi quando ouvi uma voz baixa, próxima, falando ao telefone, virei o rosto, devagar.
Ele estava ali. Oliver Jones, encostado na grade do lado oposto, segurando um copo de uísque.
Usava apenas uma calça de moletom escura, sem camisa, o peito largo subia e descia de forma ritmada, os músculos desenhados como se tivessem sido esculpidos à mão.
Os cabelos estavam penteados pra trás, ainda úmidos, provavelmente do banho que tinha acabado de tomar.
A bebida girava devagar entre os dedos dele, os olhos fixos no horizonte, até que me viu.
O olhar dele encontrou o meu, e, por alguns segundos, ninguém disse nada.
O tempo congelou e o ar entre nós pareceu ainda mais frio e, ao mesmo tempo, mais quente.
Minha camisola estava grudada na pele, por causa do vento, revelando mais do que escondia, ele não desviou e eu também não. Os olhos de Oliver desceram pelo meu corpo, subiram de volta para o meu rosto, e permaneceram ali, presos nos meus, ficamos assim, apenas encarando, sem palavras ou máscaras.
E eu soube, naquele instante, que a linha entre o certo e o errado acabava de desaparecer.
Oliver desligou o telefone, os olhos ainda cravados nos meus.
Guardou o celular no bolso da calça, o copo de uísque girando devagar na mão, como se aquilo o distraísse da tensão real que estava no ar.
O peito nu subia e descia de maneira lenta, os músculos desenhados, os cabelos molhados brilhando sob a luz do corredor.
Ele não disse meu nome, mas eu sabia que ele sabia.
- Tá frio pra isso, não acha? - A voz dele finalmente cortou o silêncio, baixa, grave, carregada de algo que eu não sabia nomear.
Minha boca abriu, mas nenhuma resposta saiu.
O ar estava pesado demais, o vento gelado batia nas minhas pernas nuas, mas o calor que crescia dentro de mim era mais forte do que o frio da noite.
Quando ele deu um passo em minha direção, pensei que fosse falar mais alguma coisa.
Mas não falou. Uma voz feminina ecoou de dentro do apartamento dele, alta o suficiente para cortar o momento em dois.
- Amor? Cadê você?
A palavra atravessou minha pele como um choque, e antes que eu pudesse reagir, uma mulher apareceu na varanda ao lado.
Linda, loira, maquiada como se fosse para uma festa de gala. Brincos de brilhantes pendiam das orelhas, um vestido de cetim dourado deixava parte do colo à mostra, revelando o tipo de corpo que a gente vê em capas de revista.
Ela sorriu, ignorando minha presença como se eu fosse invisível.
- Ah, tá aqui! - disse, se aproximando de Oliver, apoiando-se no parapeito ao lado dele, os dedos com unhas vermelhas, tocando de leve o ombro dele. - Vem pra dentro, amor. Tá frio.
Oliver permaneceu em silêncio, o olhar dele continuava no meu, e, por algum motivo que eu não sabia explicar, isso doeu mais do que se ele tivesse desviado. Minha garganta fechou, as bochechas queimaram, quis rir de mim mesma. Ou desaparecer.
Sem dizer uma palavra, me virei e voltei devagar para dentro do apartamento.
Fechei a porta atrás de mim, mas o coração continuava lá fora, exposto, batendo no meio da varanda.
E o pior? A parte de mim que deveria estar aliviada por aquilo ter sido interrompido...
Não estava.