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Irmãos Jones
img img Irmãos Jones img Capítulo 4 Doutor Gostoso - Emma Carter
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Capítulo 18 Doutor Gostoso - Emma Carter img
Capítulo 19 Doutor Gostoso - Epílogo - Emma Carter img
Capítulo 20 Juiz Gostoso - Prólogo - Clara Bennett img
Capítulo 21 Juiz Gostoso - Thomas Jones img
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Capítulo 29 Juiz Gostoso - Clara Bennett img
Capítulo 30 Juiz Gostoso - Thomas Jones img
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Capítulo 4 Doutor Gostoso - Emma Carter

A música vibrava pelo chão, pulsando sob meus pés como se acompanhasse a batida do meu coração. Eu estava de costas para o balcão, os olhos fixos na pista, tentando focar em qualquer coisa que não fosse o homem que havia me tirado do eixo mais cedo naquele dia.

- Emma, vou ali. O Caio chegou - avisou Júlia, já indo ao encontro do namorado, com um sorriso animado nos lábios.

Assenti, fingindo indiferença, mas por dentro me sentia desprotegida. Estar sozinha ali, com os pensamentos mergulhados no que tinha acontecido, era quase um convite para o caos.

Virei de volta para o bar, buscando apoio no balcão de madeira escura. Pedi uma água com gelo, na tentativa frustrada de me refrescar, mas quando levantei os olhos, o mundo pareceu desacelerar.

Oliver estava a poucos metros, ele não dizia nada. Só me olhava. Olhar firme, frio, calculado... e ao mesmo tempo, carregado de algo mais. Algo que esquentava meu estômago e deixava minha respiração curta.

Seu copo vazio, girava entre os dedos, como se ele estivesse decidindo o próximo movimento de um jogo. A distância entre nós parecia encurtar a cada passo lento que ele dava em minha direção, como se medisse o impacto de cada centímetro conquistado.

Meu corpo enrijeceu. Ele não podia estar vindo até mim, mas estava.

E quando parou ao meu lado, era impossível ignorar sua presença.

O perfume amadeirado se misturava com o cheiro do uísque em sua pele quente. Ele se apoiou no balcão com o antebraço, inclinando o corpo levemente na minha direção.

- Você não deveria estar aqui - disse, finalmente, com a voz rouca e baixa, como se cada palavra tivesse sido cuidadosamente controlada antes de sair.

Não era um tom de reprovação. Era um aviso.

Virei devagar para encará-lo. A pouca luz do ambiente, destaca os traços marcados do seu rosto, os cabelos perfeitamente penteados para trás, agora um pouco bagunçados pela noite. A mandíbula estava contraída.

- E você deveria? - respondi, tentando manter a voz firme, apesar do nó na garganta.

Seus olhos baixaram por um segundo, percorrendo meu rosto, pescoço, a curva dos ombros à mostra. Quando voltaram aos meus, estavam mais escuros.

- Eu vim arrastado - murmurou, com um meio sorriso enviesado. - Você?

- Júlia - respondi. - Meu par de más decisões.

Ele riu, e aquilo me pegou desprevenida. O som era grave e abafado, quase como se ele mesmo estivesse surpreso por ter deixado escapar. Ficamos em silêncio por alguns segundos, mas o silêncio entre nós não era vazio. Era carregado.

Ele se endireitou, terminando o que restava no copo e deixando-o sobre o balcão. Os olhos ainda em mim.

- Eu deveria saber seu nome - disse, mais para si mesmo do que pra mim. - Mas ainda não tive tempo de olhar a lista dos novos residentes.

Minha respiração prendeu no peito. Ele sabia. Claro que sabia. Mas não completamente. E isso deixava tudo ainda mais instável.

- Talvez seja melhor assim - respondi, numa tentativa desesperada de colocar um limite que eu mesma não sabia se queria.

Ele se aproximou mais um passo. Seu ombro quase roçava o meu agora.

- Não tenho certeza se concordo.

Ficamos ali. Olhares presos e corações acelerados.

A balada ao redor sumiu. As vozes, a música, as luzes - tudo virou ruído de fundo.

Até que alguém chamou o nome dele de longe. Um dos irmãos, talvez um amigo. E num piscar de olhos, ele se afastou, mas não sem antes lançar um último olhar, como um aviso silencioso de que aquilo não tinha acabado.

Júlia reapareceu no meio da multidão, com os cabelos bagunçados e um sorriso bobo no rosto. Estava colada ao namorado, que a mantinha pela cintura como se o resto da balada não existisse.

- Emma, vou dormir na casa do Caio - ela se aproximou no meio da música, os olhos brilhando. Caio já estava ali, segurando-a pela cintura com um sorriso de quem sabia exatamente como a noite deles terminaria. - Quer que a gente te leve?

- Não precisa - respondi, ajeitando o cabelo atrás da orelha. - Vou ficar mais um pouco e peço um carro pelo aplicativo.

- Tem certeza? - Júlia franziu a testa, desconfiada.

- Absoluta. Vocês dois aproveitem - assenti, sorrindo.

- Qualquer coisa, é só mandar mensagem que a gente volta pra te buscar - Caio soltou um riso baixo.

- Prometo que me viro.

- Então me liga quando chegar. Sério, Emma. - Júlia ainda me olhou com aquele ar protetor de sempre.

- Tá bem.

Pedi um drink e deixei meus dedos tamborilando no mármore, enquanto esperava. O barulho dos copos, o cheiro de álcool misturado ao perfume adocicado que vinha de algum lugar próximo, o som abafado da música... tudo era cenário.

Porque eu já sentia o seu olhar, levantei a cabeça e lá estava ele.

Na parte de cima, na área VIP, encostado na sacada como se fosse dono do lugar. Um copo de uísque descansava na mão, os dedos firmes segurando o vidro. Oliver Jones. Os olhos fixos em mim, tão intensos que a sensação era física. Pesavam sobre mim, queimavam como se quisessem atravessar minha pele.

Ele não sorria. Não mexia um músculo. Só me observava, cada segundo calculado.

O barman colocou meu drink na frente e, sem pensar duas vezes, virei tudo de uma vez. O álcool queimou minha garganta, mas não apagou o calor que ele já tinha acendido dentro de mim. Apoiei o copo vazio no balcão, peguei minha bolsa e segui para a saída.

O ar frio da madrugada bateu no meu rosto como um choque, mas antes que pudesse abrir o aplicativo para pedir um carro, aquela voz grave e próxima demais cortou o silêncio.

- Vai embora sozinha? - virei devagar. Ele estava ali. Mais perto do que eu esperava.

- Estou bem. Ia pedir um carro.

- Não precisa. A gente mora no mesmo lugar. Posso te levar - ele se aproximou um passo, a sombra do seu corpo misturando-se com a minha.

- Ah... é verdade. Nos encontramos no outro dia - dei de ombros, tentando disfarçar a tensão.

- Cobertura 1801. Eu sou o 1802.

As palavras ficaram suspensas no ar, pesadas. Eu deveria dizer não. Era o certo. Mas alguma parte de mim queria saber até onde isso ia dar.

O manobrista se aproximou, entregando a ele a chave de um carro preto esportivo que parecia custar o suficiente para comprar um apartamento. Oliver abriu a porta do passageiro e apenas me esperou.

E eu... entrei.

O couro frio do banco contrastava com o calor que subia pela minha pele. Ele fechou a porta com firmeza, deu a volta e se acomodou no banco do motorista. O perfume amadeirado invadiu o pequeno espaço, e minha respiração ficou mais pesada.

Enquanto ele ligava o carro, a luz suave do painel desenhava seu rosto, realçando a linha da mandíbula e o olhar concentrado. Não falamos nada nos primeiros minutos. O silêncio não era confortável e era carregado, quase sufocante.

A cada farol, eu sentia minha própria pulsação mais forte. Foi quando, ao manobrar para sair de uma rua estreita, o braço dele se moveu e a mão encostou na minha perna.

Não foi proposital. Mas poderia ter sido.

O toque breve disparou uma corrente elétrica pelo meu corpo, e a sensação se espalhou rápido demais. O carro pareceu encolher, o ar ficou mais quente.

Ele percebeu. Não comentou nada. Apenas manteve a mão no câmbio, perto demais da minha pele, como se quisesse me lembrar de que estava ali.

E eu... não consegui me mexer.

Cada segundo ao lado dele me fazia sentir como se estivesse à beira de algo proibido. Algo que eu sabia que poderia me destruir, e mesmo assim, eu não queria que acabasse.

O carro deslizou pelas ruas quase vazias, e o silêncio entre nós era mais intenso do que qualquer conversa. Cada vez que seu braço se movia para trocar de marcha, o calor da sua mão perto da minha perna me deixava em alerta, como se minha pele estivesse em chamas.

Quando estacionamos na garagem do prédio, ele saiu primeiro e abriu minha porta. O gesto foi simples, mas carregado de algo que me fez engolir em seco. Caminhamos lado a lado até o elevador.

O espaço pequeno nos cercou como uma armadilha silenciosa. O ar parecia mais quente e pesado. Eu me encostei na parede, tentando manter distância, mas era impossível não sentir o perfume amadeirado que vinha dele.

Oliver apertou o botão do 18º andar e manteve as mãos nos bolsos. Seus olhos, mesmo quando não me encarava diretamente, pareciam me estudar. Meu coração acelerava.

De repente, as luzes piscaram. O elevador deu um tranco seco e parou. Um pequeno grito escapou da minha garganta antes que eu pudesse me controlar, e meus pés se moveram instintivamente para ele.

- Calma... - sua voz grave soou perto do meu ouvido, baixa e rouca.

Senti suas mãos firmes tocarem meus braços, como se quisessem ancorar meu corpo ao dele. Mas então... ele fez algo que me roubou o fôlego.

Com delicadeza, mas com uma autoridade silenciosa, segurou meu rosto entre as mãos. Seus dedos quentes roçaram minha pele, e o polegar deslizou levemente pelo meu maxilar. Eu respirei fundo, quase sem ar.

A tensão era esmagadora. O mundo inteiro parecia ter desaparecido, restando apenas nós dois e aquele instante prestes a se romper.

Ele inclinou o rosto, e por um segundo eu jurei que ele ia me beijar. Meu corpo inteiro respondeu antes mesmo de acontecer, o meu coração disparado, o estômago em um redemoinho, o calor se espalhando pela pele.

Mas então... o elevador voltou a funcionar com um solavanco. As luzes se estabilizaram, e ele soltou meu rosto com um movimento lento, quase relutante.

Eu não consegui olhar para ele. Meu corpo tremia, não pelo susto, mas pelo que quase aconteceu.

As portas se abriram no 18º andar. Ele saiu primeiro, o silêncio denso entre nós dizendo mais do que qualquer palavra. Caminhamos pelo corredor até às nossas portas.

- Boa noite, vizinha - a voz dele soou baixa, quase um sussurro carregado de algo que não se apagaria tão cedo.

- Boa noite... - respondi, ainda sem recuperar o fôlego.

E quando fechei a porta atrás de mim, percebi que não havia como voltar atrás.

*** 

Assim que a porta do meu apartamento se fechou, encostei as costas nela e fiquei parada, como se precisasse de alguns segundos para processar o que tinha acabado de acontecer. Ainda sentia o calor das mãos dele segurando meu rosto, o peso do seu olhar, a quase certeza de que ele ia me beijar... até o elevador voltar a funcionar.

Meu corpo inteiro estava em alerta. A respiração curta. O coração batendo rápido demais.

Fui direto para o banheiro. Liguei o chuveiro e deixei a água quente escorrer pela pele, tentando acalmar algo que não tinha nada a ver com medo. Era desejo. Cru, urgente, proibido.

Fechei os olhos e a lembrança da sua voz grave, do calor do seu corpo tão próximo, me fez morder o lábio. Tentei afastar a imagem, mas ela voltou com mais força. Só saí do chuveiro quando percebi que estava começando a tremer e não era de frio.

Escolhi um pijama curto, quase impróprio para ser visto por qualquer vizinho. Um tecido fino, leve, que cobria apenas o necessário. Não era proposital... ou talvez fosse, mas eu não queria admitir nem para mim mesma.

Peguei uma taça de vinho e fui até o parapeito da varanda. A noite estava fria, mas o céu limpo deixava as estrelas mais nítidas. Apoiei os cotovelos na mureta, fechando os olhos por um instante, respirando o ar gelado.

Foi então que ouvi passos, virei o rosto e lá estava ele.

Oliver, com o cabelo molhado penteado para trás, vestindo apenas uma calça de moletom cinza. Sem camisa. O peito largo e definido, iluminado pela luz suave que vinha de dentro do apartamento dele. Um copo de uísque na mão.

- Parece que não sou o único com dificuldade pra dormir - disse, a voz grave cortando o silêncio.

- Talvez - respondi, tentando manter o tom leve, mas a tensão era palpável.

Ele deu um passo mais perto da mureta que separava nossas varandas. Os olhos passearam por mim de um jeito que fez minha pele inteira se arrepiar.

- Esse pijama... - A pausa dele foi calculada, o olhar demorando mais do que deveria nas minhas pernas. - Vai acabar matando algum vizinho do coração.

- Ainda bem que não tem tantos por aqui - sorri de canto.

Ele se aproximou mais, até que a distância entre nós parecia ridícula. Então, com um movimento calmo, colocou o copo sobre a mureta e apoiou as mãos nela. Num impulso, saltou para o meu lado.

Meu corpo reagiu imediatamente. O ar pareceu sumir. Ele ficou perto o suficiente para que eu sentisse o calor que emanava da sua pele.

- Você sabe que isso é errado... - murmurei, mas minha voz saiu mais como um suspiro do que como uma advertência.

- Eu sei - respondeu, a voz grave quase roçando meus lábios. - Mas eu não consigo parar.

E antes que eu pudesse pensar em qualquer resposta, a mão dele deslizou para a minha nuca, puxando-me para mais perto. Seu corpo encostou no meu, firme, seguro... e então ele me beijou.

Não foi um beijo calmo. Foi faminto, urgente, como se ele tivesse segurado esse momento desde o segundo em que me viu pela primeira vez. Minhas mãos subiram para o seu peito quente, sentindo cada músculo se contrair sob meus dedos.

O mundo sumiu. Só existia o sabor dele, o toque firme, o cheiro intoxicante que me envolvia inteira.

Quando ele finalmente se afastou, meus lábios ainda ardiam e minhas pernas pareciam incapazes de me sustentar.

- Boa noite, vizinha - sussurrou, como se soubesse que tinha acabado de atravessar uma linha da qual nenhum de nós voltaria.

Oliver

Ela ainda estava encostada na mureta quando eu recuei um passo. Os lábios dela... ainda quentes contra os meus. O sabor doce misturado ao álcool. O olhar meio perdido, as bochechas coradas pelo frio ou pelo que acabamos de fazer.

Eu não deveria ter feito aquilo. Mas no momento em que meus dedos tocaram a pele macia da nuca dela, eu já não tinha mais escolha.

Pulei de volta para minha varanda, o coração batendo rápido demais para um homem que vive com as mãos dentro de um corpo aberto, na sala de cirurgia. Apoiei as costas na parede, tentando recuperar o controle.

O cheiro dela ainda estava em mim. E isso me irritava.

Irritava porque eu sabia que aquela garota, aquela residente que nem sei o nome, está a vinte anos de distância da minha vida, do meu mundo, do meu passado. Irritava porque, mesmo assim, meu corpo reagia a ela como se fosse inevitável.

Passei a mão no cabelo molhado, sentindo a frustração crescer. Peguei o copo de uísque e virei o restante de um gole só. O líquido queimou a garganta, mas não levou embora a sensação dela nos meus braços.

Voltei para dentro e fechei as cortinas, como se isso fosse suficiente para colocar uma barreira entre nós. Mas minha mente já tinha guardado cada detalhe - a forma como ela me olhou quando atravessei a mureta, o jeito como seu corpo colou no meu durante o beijo, a respiração acelerada.

E, pior de tudo... eu queria mais.

Joguei a calça de moletom sobre a poltrona e fui para o chuveiro novamente, deixando a água quente bater nos ombros. Eu precisava de clareza. Precisava lembrar quem sou e o que está em jogo.

Mas cada vez que fechava os olhos, era o rosto dela que surgia. Os lábios entreabertos. Os olhos grandes, cheios de algo entre medo e desejo.

Terminei o banho sem pressa, sequei o cabelo com as mãos e fui para a cama. Liguei o abajur, encarei o teto por alguns minutos... e entendi que não haveria sono naquela noite.

Porque eu tinha cruzado uma linha, e agora... não tinha mais volta.

***

Cheguei ao Memorial mais cedo do que o habitual. Não dormi. Passei a madrugada virando na cama, revivendo aquele beijo como uma maldita obsessão.

O corredor principal estava silencioso, iluminado pelas luzes brancas e frias que eu conhecia bem. Cumprimentei alguns médicos de forma automática e segui direto para minha sala. Precisava revisar o caso do transplante de coração que poderia chegar a qualquer momento.

Mas não importava o quanto eu tentasse focar nos exames e relatórios... minha mente me traía. Voltava sempre para o toque dela. Para a forma como sua respiração acelerou quando segurei seu rosto. Para a maciez dos lábios contra os meus.

- Oliver! - A voz do meu irmão soou na porta, quebrando minha concentração. Ele entrou com aquele ar relaxado de quem nunca leva nada muito a sério. - Vi que você sumiu da balada ontem.

- Tinha coisas mais importantes pra fazer - respondi seco, sem tirar os olhos do computador.

- Mais importante do que se divertir? É a sua cara - ele riu.

Não respondi.

Minutos depois, já no centro cirúrgico, revisei a agenda do dia. Foi então que ela entrou.

A primeira vez que a vi no hospital à luz da manhã. Jaleco branco impecável, crachá pendurado no bolso, cabelos presos num coque frouxo. Emma Carter. Finalmente li o nome dela no distintivo, e ele ficou gravado como se tivesse sido marcado na pele.

Ela conversava com outro residente, mas seus olhos me encontraram por cima da máscara pendurada no queixo. Não foi um olhar casual. Havia reconhecimento. Memória.

E algo mais, ela desviou rápido, mas eu percebi. Percebi o leve rubor nas bochechas, o jeito como suas mãos mexeram no caderno de anotações como quem busca distração.

- Doutor Jones, tudo pronto para a cirurgia das dez - anunciou minha instrumentadora, trazendo-me de volta para a realidade.

Assenti e caminhei até a pia para a antissepsia. Mas, ao lavar as mãos, vi meu reflexo no vidro e entendi que aquela manhã não era como as outras.

Porque, agora, eu conhecia o gosto da minha residente, e isso mudava tudo.

A cirurgia foi um sucesso. Um transplante limpo, sem complicações. Ainda assim, o peso da responsabilidade pulsava nos meus ombros. Lavei as mãos, retirei o jaleco cirúrgico e segui para a sala dos médicos, levando comigo o prontuário de um paciente grave na UTI.

O ambiente estava ocupado por alguns residentes, espalhados em cadeiras, folheando prontuários e digitando anotações apressadas. Alguns levantaram os olhos quando entrei e logo se remexeram nos assentos, desconfortáveis. Era sempre assim. A minha presença silenciava conversas.

Foi então que ela apareceu. Emma Carter entrou na sala como se não carregasse a marca do que tinha acontecido na noite anterior. Jaleco aberto, uniforme azul-claro debaixo, cabelo preso de forma prática. Ela cruzou o espaço sem sequer olhar para mim e pegou algo na bancada como um fichário, talvez, ou algum material médico, o suficiente para me obrigar a notar cada movimento dela.

Quando alguns residentes perceberam que eu estava ali, começaram a sair. Primeiro dois, depois mais um. Em poucos segundos, éramos só nós dois.

E foi quando ela virou para ir embora que minha voz saiu, mais grave do que eu queria.

- Carter! - Ela parou, mas não se virou de imediato. Depois, lentamente, me olhou por sobre o ombro.

- Sim, doutor? - fechei o prontuário nas mãos, tentando organizar as palavras.

- O que aconteceu ontem à noite... foi um erro - mantive o tom frio, controlado -, eu sou seu professor. Apesar de não estar ministrando as aulas agora, por causa das cirurgias e transplantes, ainda assim sou seu instrutor.

Ela arqueou uma sobrancelha, e o canto da boca se curvou num quase sorriso.

- Não faço ideia do que o senhor está falando. - Sua voz veio carregada de ironia. - Somos apenas vizinhos. E, pelo que sei, isso não é crime.

O ar no ambiente pareceu mais denso.

Ela me tratava como se nada tivesse acontecido. Como se aquele beijo não tivesse roubado o fôlego dos dois. Eu deveria agradecer. Afinal, era exatamente isso que eu queria: distância. Limites.

Mas, por algum motivo, aquilo me irritou profundamente.

- Mais alguma coisa, doutor? - Ela deu um passo em direção à porta, mordendo o lábio inferior como se fosse um gesto inocente. Mas não era. Ela sabia.

O calor subiu pelo meu corpo. Minha paciência se rompeu.

Cruzei o espaço entre nós em dois passos e, antes que ela pudesse sair, minha mão segurou sua nuca e minha boca encontrou a dela.

O beijo foi bruto, carregado de tudo o que eu estava tentando negar. Ela respondeu na mesma intensidade, como se tivesse esperado por aquilo desde que nossas bocas se tocaram pela primeira vez.

Minhas mãos deslizaram para a sua cintura, apertando-a contra mim. Uma delas subiu por baixo do uniforme azul que ela usava, encontrando a pele quente da sua lombar.

O gosto dela invadiu todos os meus sentidos. O mundo sumiu. Só restava aquele contato proibido, aquele calor que não deveria existir.

Quando finalmente nos afastamos, nossas respirações estavam pesadas. Ela manteve os olhos fixos nos meus, sem um pingo de medo.

E eu sabia que estava perdido.

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