Soltei o ar devagar e caminhei até o banheiro. Ligar o chuveiro foi quase um ato mecânico, tão automático quanto o copo de uísque que mais tarde levaria à varanda.
A água quente escorria pelos ombros, mas não lavava o pensamento repetitivo que me consumia por dentro. A imagem dela voltava como um reflexo, sem esforço. A forma como mordeu o lábio inferior, a tensão no ar quando nossos corpos dividiram o mesmo espaço no elevador.
Minha mão deslizou pelo abdômen até onde o desejo já latejava. Encostei as costas na parede fria, o vapor embaçando o box, enquanto o prazer invadia cada músculo.
Não pedi licença à consciência. Fechei os olhos e deixei acontecer.
O orgasmo foi intenso, rápido demais, mas não trouxe alívio. O corpo cedeu, mas a cabeça ficou inquieta.
Saí do banho enxugando o rosto, os fios molhados grudando na testa. Escolhi uma calça de moletom, a primeira que vi, e deixei o peito nu. Queria sentir o ar da noite contra a pele. Talvez isso ajudasse.
Na varanda, o copo de uísque gelou minha mão enquanto as luzes da cidade pulsavam lá embaixo. O barulho dos carros era um ruído distante, incapaz de me distrair.
O celular vibrou no bolso, atendi no segundo toque.
- Doutor Jones? - A voz da central de transplantes entrou firme no meu ouvido. - O coração chegou. O helicóptero decola em breve. Estamos acertando os detalhes.
A notícia trouxe foco, mas não afastou o torvelinho dentro do peito.
- Assim que o órgão estiver a caminho, me liguem direto - girei o copo entre os dedos, atento -, não esperem. O transplante precisa ser feito assim que possível.
- Entendido, doutor. Pode deixar.
Desliguei e guardei o celular no bolso da calça. Olhei para o lado, quase por instinto.
E lá estava ela, a residente do elevador, na varanda ao lado, vestindo uma camisola curta demais para o vento gelado da noite. Os cabelos castanhos e soltos caiam pelos ombros, e os olhos pareciam hipnotizados pelo céu da cidade.
Ela ergueu a barra do tecido, tentando se proteger do frio. O gesto inocente só deixou mais pele à mostra, e meu corpo respondeu no mesmo instante.
Segurei o copo com mais força, tentando controlar o impulso de chamá-la pelo nome que eu ainda não sabia.
Mas antes que eu dissesse mais alguma coisa, uma voz feminina rompeu o ar.
- Amor? Cadê você? - fechei os olhos por um segundo, já imaginando quem era.
Megan surgiu do outro lado da varanda da cobertura, usando um vestido dourado justo, decotado demais, brilhante demais para aquela hora da noite. A maquiagem pesada, o batom vermelho impecável, tudo em contraste com o momento que ela invadia.
Aproximou-se de mim como se ainda tivesse esse direito, pendurando-se no meu braço com aquele sorriso ensaiado.
- Ah, tá aqui! Vem pra dentro, amor. Tá frio.
O problema não era o frio e sim ela, quando virei o rosto, a garota da camisola já não estava mais lá.
Megan continuava falando, mas minha mente permanecia onde queria estar: naquela varanda ao lado.
Soltei meu braço de forma firme, rompendo o contato sem rodeios.
- Vai embora, Megan.
Ela deu uma risada curta, sem acreditar no que ouvia.
- Oliver, você está tenso demais. Vamos conversar.
Mantive a expressão fria.
- Não tem mais conversa. Vai embora agora - o sorriso desapareceu dos lábios dela, dando lugar ao olhar ferido que usava sempre que perdia o controle.
- Eu ainda te amo.
- E eu não amo mais você.
Girei o copo com força. O gelo tilintou de leve, mas minha raiva era maior do que o som do cristal.
- Fica com a mansão, Megan. Já deixei claro. Mas a cobertura não.
Ela cruzou os braços, desafiando.
- Você não vai fazer isso.
- Amanhã mesmo troco as fechaduras.
Virei as costas, encerrando o assunto, e ela permaneceu imóvel por alguns segundos antes de sair, batendo a porta com mais força do que o necessário.
Fiquei sozinho, mas não estava em paz, o meu corpo estava na varanda da cobertura.
Mas minha mente... continuava presa no apartamento vizinho, na garota da camisola curta, na residente desconhecida que, sem esforço algum, já havia mexido com tudo em mim.
***
As horas seguintes passaram como uma névoa.
A madrugada avançava quando o celular vibrou de novo, tirando-me do torpor. Atendi sem pensar, já esperando a notícia.
- Doutor Jones? O helicóptero pousou. O coração está aqui.
A voz do enfermeiro da central de transplantes soou firme, mas eu percebi a tensão por trás do tom profissional. Sabiam que aquele procedimento seria meu. Sempre é.
- Preparem tudo. Estou a caminho.
Vesti a calça social e a camisa preta de botões, sem nem secar o cabelo direito. Passei a mão no rosto, peguei a chave do carro e desci pelo elevador, ainda pensando nela. Na garota da camisola.
Mas quando cheguei no hospital, o foco tomou conta do resto.
Na sala de cirurgia, o tempo sempre desacelera.
O silêncio pesa. Os olhos da equipe me observam como se eu fosse uma entidade à parte. Nenhuma palavra é dita além do necessário.
Vesti o avental estéril, fiz a assepsia e calcei as luvas, enquanto o anestesista monitorava os sinais vitais. O paciente já estava preparado. O coração antigo descansava em falência. O novo pulsava, na máquina de preservação, dentro da caixa ao meu lado.
A mão do instrumentador me entregou o instrumento com precisão. Não precisei olhar para saber quem era. Já conheço os toques, os ritmos, os gestos.
Iniciei a abertura do tórax com calma absoluta, como quem desenha uma linha exata entre a vida e a morte.
As horas correram sem pressa. Cada sutura era feita com concentração total, cada vaso ligado com perfeição.
Durante o processo, a equipe mal respirava.
Só quando conectei o novo coração e vi as primeiras contrações do órgão pulsando sob as minhas mãos, o ar voltou a circular pela sala.
- Retirem a pinça da aorta - ordenei, mantendo o tom firme.
O sangue fluiu, preenchendo as artérias. O coração novo começou a bater no compasso certo.
Ali, naquele momento, é onde eu me sinto vivo, o monitor cardíaco marcou o ritmo. O pulso do paciente se estabilizou, olhei para o visor, respirei fundo e recuei um passo.
- Fechem, por favor.
Agradeci à equipe com um aceno discreto. Não costumo fazer isso sempre, mas naquela madrugada, fiz questão.
- Bom trabalho, pessoal.
Alguns sorriram aliviados. Outros baixaram a cabeça, respeitando o silêncio típico do pós-cirurgia.
Saí da sala com os músculos ainda tensos. Tirei o jaleco, a máscara e as luvas, lavei as mãos com calma. O relógio marcava quase cinco da manhã. A cidade lá fora despertava devagar, mas dentro do hospital, a rotina nunca dorme.
***
Passei pela cafeteria, peguei meu café preto, sem açúcar, como sempre. O líquido quente escorreu pela garganta, ajudando a acalmar o resto do corpo que ainda vibrava com a adrenalina.
Caminhei até minha sala. Queria uns minutos de silêncio antes da próxima reunião. Mas quando abri a porta, encontrei meu irmão sentado na poltrona de frente para minha mesa.
- Até que enfim, hein, doutor? - disse Ryan, erguendo uma sobrancelha, com o sorriso provocativo de sempre.
Ele estava à vontade, de terno e gravata soltos, como quem saiu do plantão da delegacia direto pro hospital. Delegado da central de homicídios, dez anos mais novo que eu, e dono de um senso de humor ácido que não combinava com aquele horário.
- O que você tá fazendo aqui? - perguntei, apoiando o café na mesa.
- Vim te convidar. Hoje à noite tem a inauguração da boate do Kyle. Tá afim de sair um pouco da rotina ou vai preferir costurar mais uns peitos?
Sorri de canto, pronto pra responder, mas não precisei.
A porta se abriu antes que eu dissesse qualquer coisa.
Meu pai entrou. Edward Jones. Paletó alinhado, gravata de seda, expressão de quem sempre carrega o mundo nas costas.
- Que surpresa encontrar vocês dois juntos - disse, entrando na sala sem pedir licença. - Achei que só veria esse tipo de reunião em Natal ou no funeral de alguém.
Ryan riu, recostando-se na cadeira.
- Relaxa, pai. Não é uma conspiração familiar. Vim só chamar o Oliver pra sair.
Meu pai cruzou os braços, ignorando o comentário.
- Você devia largar essa vida de delegado e assumir o hospital, Ryan.
O sorriso do meu irmão aumentou.
- Isso é pro Oliver, não pra mim. Eu gosto do meu trabalho.
- Ah, claro. Prender criminosos na madrugada deve ser muito mais divertido do que cuidar do hospital da família, né?
Ryan deu de ombros, debochado.
- Pelo menos me mantém acordado.
Suspirei, apoiando as costas na cadeira. Já sabia onde aquela conversa ia parar.
Meu pai respirou fundo, como sempre faz quando está prestes a dar um sermão.
- Não sei se fico feliz ou triste com os filhos que criei - disse, olhando para nós dois. - O mais velho prefere operar corações ao invés de assumir o legado da família. O do meio virou juiz e também não quer saber do hospital. E você, Ryan, se enfia nessa vida policial perigosa como se fosse hobby.
- Talvez seja porque a gente gosta do que faz - respondi, sem me mexer.
- E quem disse que eu não gosto? - ele rebateu. - Eu gosto de fazer o Memorial crescer, de garantir que continue sendo o melhor hospital do país. Isso também salva vidas, Oliver.
Permaneci em silêncio. Ele sabia exatamente como me provocar.
- Só não quero te ver com as mãos tremendo daqui a uns anos, pensando que perdeu o tempo de assumir o lugar que é seu por direito.
Ryan se levantou da cadeira, esticando o terno.
- Pronto, agora sim virou sermão. Eu vou embora antes que sobre pra mim.
Meu pai olhou pra ele, sério.
- Pelo menos você podia convencer o irmão mais velho.
- Ah, não. Isso aí é briga de vocês. Eu tô fora - respondeu Ryan, piscando pra mim. - A propósito, Oliver... pensa na boate mais tarde. Vai fazer bem.
Ele saiu da sala, deixando o ambiente pesado e um rastro de sarcasmo no ar.
Meu pai permaneceu parado por alguns segundos, me encarando.
- Você não vai operar pra sempre, filho.
- Eu sei.
- Só espero que, quando chegar o dia, não seja tarde demais pra fazer a transição.
Quando ele saiu, a porta fechou devagar.
Fiquei sozinho na sala, o café já quase frio na mesa.
Lá fora, o hospital despertava mais uma vez.
E eu continuava exatamente onde sempre quis estar.
***
A música vibrava nas paredes. Grave, intensa, preenchendo o ambiente com uma energia quase palpável. Luzes de neon cortavam a penumbra da boate recém-inaugurada. No bar, copos tilintavam, corpos se esbarravam na pista, e o cheiro de álcool misturado a perfume caro dominava o ar.
Entrei mais por insistência do Ryan do que por vontade própria. Ainda usava o blazer escuro por cima da camisa social, mesmo com o calor abafado da casa noturna. Atravessei o salão, ignorando os olhares femininos que me acompanhavam.
- Achei que não vinha - disse Ryan, surgindo ao meu lado com um copo de gin tônica na mão. - Perdi uma aposta com o juiz, aliás.
- Que aposta? - perguntei, levando o uísque à boca.
- De que você ia inventar uma desculpa qualquer e sumir no último minuto. Como sempre.
Dessa vez, quem apareceu foi Thomas, o filho do meio. Terno alinhado, olhar sério demais pra um sábado à noite.
- Confesso que tô surpreso - disse ele - Oliver Jones... numa balada. Isso devia ser notícia no jornal.
- E vocês dois têm o hábito de frequentar esse tipo de lugar agora? - retruquei, lançando um olhar entre eles.
- De vez em quando, sim. A vida não é só processos, nem bisturi - respondeu Thomas.
- E nem criminosos presos às três da manhã - completou Ryan, rindo.
Balancei a cabeça, mas antes que pudesse responder, algo desviou completamente minha atenção.
Do outro lado do salão, perto do bar, uma silhueta me prendeu o olhar.
Vestido preto curto. Cabelos soltos em ondas leves. Um sorriso tímido enquanto conversava com a amiga que dançava ao lado. Ela parecia deslocada ali, como se não pertencesse ao ambiente... e, ao mesmo tempo, como se tudo tivesse sido feito sob medida pra ela.
Emma.
Não sei como a reconheci tão rápido. Talvez tenha sido o modo como seus olhos brilhavam sob as luzes piscando. Ou a maneira como ela olhava ao redor, atenta, mas tentando parecer indiferente.
Ela não me viu.
Mas meu corpo reagiu antes mesmo de eu perceber. O calor subiu pelas veias. A lembrança dela de camisola curta, no parapeito do prédio, invadiu minha mente como um soco.
- Terra chamando Oliver - disse Ryan, estalando os dedos diante do meu rosto. - O que foi agora?
- Nada - menti, virando o rosto e tomando mais um gole do uísque..
- Tá encarando alguém, é? - Thomas perguntou, com um tom provocador.
- Tô observando. Não é a mesma coisa.
- Cara, relaxa. Hoje não é plantão. Hoje é diversão.
Tentei me concentrar na conversa, mas a verdade é que minha atenção já tinha sido sequestrada. Ela ria de algo que a amiga dizia, e o som, mesmo abafado pela música, parecia doce demais pra ser ignorado.
O pior de tudo? Eu ainda não sabia o nome dela.
E isso só aumentava a vontade de descobrir.