Mas, ao chegar na cidade de Orlando, me deparei com uma vida mais difícil do que pensei que seria. Comecei morando de favor com uma mulher chamada Rita. Vivi dias de inferno na sua casa porque o seu marido vivia dando em cima de mim. O meu único propósito no momento era sair da casa dela antes de arrumar mais problemas. Decidi ir trabalhar de faxineira no shopping para pagar o aluguel de um pequeno apartamento.
De forma humilde, me despedi e agradeci à senhora Rita e fui embora o mais rápido possível da sua casa.
Os primeiros dias morando sozinha foram horríveis porque eu chorava muito, me sentia impotente e quase passando fome. Nessa época, soube que a minha avó teve um AVC e necessitava de cuidados especiais. Eu só comia pão para poder mandar um pouco do que eu ganhava para custear o seu tratamento, e nos falávamos sempre por telefone nas horas vagas.
Com o passar dos meses, foi ficando mais difícil conseguir um emprego melhor, já que a maioria dos empregos exigia ter ensino superior e, infelizmente, eu não tinha. Isso dificultou demais a minha vida aqui. Mas, trabalhando de faxineira, eu conheci alguns colegas que trabalhavam no shopping e, graças ao segurança de uma grande loja de perfumes, consegui entrar numa vaga de vendedora ofertada pela dona, ganhando um pouco mais do que como faxineira. Abracei a oportunidade com unhas e dentes, porque eu só queria ganhar mais.
Nesse novo trabalho, aprendi a me virar sozinha, porque as minhas colegas de profissão me viraram as costas. Mas, com muita persistência, atendia os clientes muito bem e, aos poucos, fui adquirindo clientes que só queriam ser atendidos por mim. Um deles é o senhor Emilton Dylon, um homem da alta sociedade que, sempre ao comprar o seu perfume, me dava generosas gorjetas, e eu aceitava porque era um grande complemento à minha renda. Isso causava mais inveja nas outras vendedoras. Mas, com o tempo, ele sumiu e não o vi mais. Sinceramente, eu não sei o que houve com ele.
Mas, com o passar dos meses, continuei trabalhando. Ao sair da loja para ir tomar um café, Suyane me aborda.
- Cadê a melhor vendedora? Já atingiu a meta do dia? - Suyane fala em tom de deboche.
- O que você quer? Acho que você está com medo de mim.
- Jamais vou ter medo de você, Sâmia, uma pessoa que só almoça bolacha com café - Suyane fala rindo.
Quando ela fala isso, é como se uma faca atingisse o meu peito, porque só Deus sabe o porquê de tanto sacrifício, e eu fechava os olhos em silêncio.
- O que você tem a ver com isso? Você não gosta de mim, então me deixa em paz - Falo com a voz embargada.
- Você é uma morta de fome - Suyane fala, saindo.
A minha vontade era de falar umas verdades na cara dela, mas tive que engolir o meu choro e a vontade de voar no pescoço dela por estar num lugar público. Pedi logo uma xícara de chá, em vez de café, para acalmar os meus nervos.
- Por que eu sofro tanto? - Pergunto-me.
Sou uma pessoa que agradece muito a Deus por simplesmente existir, mas tem horas que, sozinha, eu me faço essa pergunta: "Por que sofro tanto? Qual o intuito de tanta dificuldade?". Tomei o meu chá e, em seguida, voltei para a loja. Atendi alguns clientes sorrindo, com vontade de chorar. Hoje é um dos dias que, se eu fosse despedida, não faria diferença.
No final do expediente, não consegui bater a meta. Lógico, a Suyane foi a melhor do dia e eu tive que aplaudi-la. Na hora de ir embora, fui chamada à atenção da minha chefe com as demais vendedoras.
- Eu vim hoje chamar a atenção de vocês, as que não bateram a meta. Precisamos alcançar mais vendas - a nossa chefe fala.
Em silêncio, ouço o que ela fala. Desde que entrei nessa loja para trabalhar, só ouço que preciso vender mais e mais. Ninguém nunca nos perguntou se estamos bem. Isso tem me enlouquecido e o pior é que não consigo desabafar com ninguém. Fui embora do shopping a pé e chorando.
Quando cheguei no meu pequeno apartamento, titia me manda uma mensagem avisando que vovó foi internada novamente, mesmo após tantos tratamentos. Comecei a chorar porque tenho a sensação de que nada do que eu fiz adiantou. Liguei imediatamente para a tia Zita, que se encontra no hospital, e, infelizmente, ela falou que a minha vó teve outro AVC e os médicos disseram que só um milagre agora pode salvar a vida dela. Eu me vejo de mãos atadas por não poder ir ver as duas, a não ser que eu peça demissão ou um verdadeiro milagre aconteça.