A porta se abriu. Gael me encarava de homem para homem, algo que nunca havia feito, com os olhos inchados de tanto chorar.
- O que mais o senhor vai fazer, além de arrombar a porta? Vai me agredir? O senhor só se importa comigo quando acontece o pior.
- Deixe de drama, Gael. Na sua idade, eu já era homem o suficiente e nunca fui chamado a atenção por agredir ninguém.
- Eu fui insultado da pior forma que alguém pode ser! Queria que eu ficasse calado e simplesmente ouvisse que sou órfão por nunca ter meus pais presentes na escola? - Gael desabafou.
Por um momento, fiquei sem voz e sem força para respondê-lo. As lembranças do passado voltaram com tudo: minha ex-esposa com Gael nos braços e eu todo feliz, pois ele era a realização do meu sonho de ser pai. Mas não era o sonho de Cíntia.
- Gael, você não é órfão. Para que tanto mimimi? Nada justifica sua agressividade. Eu vou te avisar só esta vez: se acontecer de novo, você irá para uma escola pública - Falei, saindo da frente dele.
O telefone da escola ligava incessantemente. Atendi a diretora, que me informou que Gael estava expulso e precisava de outra instituição. Pedi desculpas a ela em nome dele e prestei meu apoio ao garoto machucado que, segundo ela, fraturou o nariz.
Pus as mãos na cabeça, vermelho de raiva. Mandei Anita chamar Raquel, que logo veio ao meu escritório.
- Raquel, achou mesmo que ia conseguir esconder de mim que Gael foi expulso? Ele fraturou o nariz de um colega.
- Senhor, me perdoe, mas eu amo essas crianças.
- Raquel, desse jeito você está estragando eles. Gael é um adolescente que precisa acordar para a vida. E tem mais: mais uma mentira e você será demitida - Falei. Raquel saiu do meu escritório.
Minha vida desmorona dia após dia. Nenhum dinheiro é o suficiente para endireitar as coisas.
Gael foi transferido para outra escola. Mais uma vez, o alertei: mais um vacilo e ele irá para uma escola pública.
Minha tia Leide insiste em me visitar, e eu sempre adio, pois sei que a vinda dela será outro problema. Não quero ser ignorante com ninguém, mas odeio pessoas se metendo na minha vida, e ela é uma delas. O aniversário dela se aproxima, e ela quer que as crianças me acompanhem. Já falei com Gael e Talita sobre irmos, e, mesmo contra a vontade deles, meus filhos não têm escolha. Eles odeiam essas reuniões familiares; acho que puxaram a mim nesse quesito. Já a mãe deles adora festas. Eu ia contra a minha vontade acompanhá-la. No entanto, há comemorações imperdíveis, e esta é uma delas.
A semana passou rápido. Não recebi reclamações de Gael, o que mostra que ele está gostando da nova escola.
Quando cheguei do trabalho, o vi conversando com uma garota no jardim. Desci do carro e, ao entrar na sala, Anita abriu a porta para mim.
- Senhor Haniel, seja bem-vindo. O almoço está quase pronto - Anita falou.
- Quem é a garota que está no jardim? - perguntei imediatamente.
- Neta da senhora Raquel! Se eu fosse o senhor, não deixaria ela trazer familiares para a mansão - Anita comentou.
Eu a encarei por tamanha audácia.
- Quem manda aqui ainda sou eu. Não preciso dos seus conselhos para ditar regras do que pode ou não acontecer. Retire-se, por favor - Falei, ríspido, pois detesto palpites de funcionários.
Sentei sozinho na mesa, Raquel serviu meu almoço e, quando ficamos a sós, perguntei o que a garota fazia ali àquela hora.
- Quem é a garota que estava no jardim conversando com Gael? - perguntei, e Raquel me olhou nervosa.
- Senhor, eu posso explicar por que trouxe minha neta hoje para o trabalho.
- Não precisa se explicar. Ela estuda?
- Sim, estuda, mas está passando por um problema psicológico. Me perdoe por tê-la trazido comigo. Eu não tinha saída - Raquel falou, emocionada.
- Tudo bem, Raquel. Agora, vá chamar Talita e Gael para almoçar comigo - peço mais calmo.
Não entendi de primeira essa aproximação de Gael com a neta de Raquel. Passei a mão nos cabelos. Não posso negar assistência a quem praticamente criou meus filhos. Enfim, pretendo não me envolver nos problemas emocionais dos outros; os meus eu curei trabalhando.
Ainda ao redor da mesa, Gael chegou primeiro e, em seguida, Talita, ambos de cara fechada. Eu logo tratei de lembrá-los que no final de semana conto com a companhia deles para ir ao aniversário da tia Leide. Não responderam sim, nem não. Afinal, eles não têm escolha. Terão que ir na marra.