Ele não olhou para mim. Ele olhava pela janela para o borrão cinza de São Paulo, sua mandíbula tão cerrada que um músculo pulsava ritmicamente em sua bochecha. O silêncio no carro era sufocante, pesado com cinco anos de palavras não ditas e uma vida inteira de promessas quebradas.
Não fomos para a mansão. Fomos para a Ponte Estaiada.
"Saia."
Tropecei para fora, em meio ao vendaval. Ele chicoteava meu cabelo molhado em meu rosto, ardendo em meus olhos. Dante caminhou à frente, seu longo casaco esvoaçando atrás dele como uma asa escura.
Ele parou em uma seção do parapeito cheia de cadeados enferrujados.
Amantes os trancavam ali. Escreviam suas iniciais, fechavam o cadeado e jogavam a chave no rio abaixo. Era uma promessa de para sempre.
Nós tínhamos feito isso. Dez anos atrás. Antes do sangue. Antes das mentiras.
Dante enfiou a mão no casaco e tirou um alicate de corte pesado. O metal brilhava opacamente sob as luzes da rua.
"Você está vendo?", ele perguntou, sua voz plana.
Eu olhei. Estava lá. Um pequeno cadeado de latão, manchado pelo tempo e pelo clima. *D & E*. Arranhado no metal com um canivete.
"Estou vendo", sussurrei.
Ele não hesitou. Ele prendeu as mandíbulas do alicate em volta do cadeado. Ele não olhou para mim. Ele olhou para o cadeado com um ódio tão puro que me aterrorizou.
"Isto é o que sua promessa vale", ele disse.
_Estalo._
O som foi mais alto que um tiro no ar vazio. O cadeado caiu em sua mão. Ele não olhou para ele. Ele armou o braço e o arremessou por cima do parapeito, na água escura e agitada abaixo.
Ele se foi. Assim como nós.
Ele se virou para mim então. Ele enfiou a mão no bolso novamente, mas desta vez tirou um pedaço de papel dobrado. Ele o empurrou contra meu peito.
"Pegue."
Eu peguei. Era um cheque. A quantia era impressionante. O suficiente para comprar uma casa. O suficiente para comprar uma nova vida. O suficiente para enterrar um corpo nas montanhas.
"Este é o seu acerto de contas", ele disse, seus olhos frios e mortos. "O casamento é em três dias. Depois disso, nunca mais quero ver seu rosto. Se você estiver nesta cidade quando eu voltar da minha lua de mel, eu mesmo te mato. E desta vez, não vou impedir meu pai."
Agarrei o cheque. Parecia leve, frágil. Era o preço da minha alma.
"Eu entendo", eu disse.
Ele me encarou por um longo momento, procurando por algo em meu rosto. Talvez ele quisesse que eu implorasse. Talvez ele quisesse que eu chorasse. Mas eu não tinha mais nada para lhe dar.
"Adeus, Elena."
Ele me deu as costas e foi embora. Ele entrou no carro e partiu, me deixando sozinha na chuva em uma ponte cheia de promessas de outras pessoas.
Olhei para a água onde nosso cadeado havia desaparecido.
"Adeus, Dante", sussurrei ao vento.