O monitor cardíaco gritou - uma nota única e incessante que cortou o ar estéril.
Virei-me bruscamente. A enfermeira na sala de doação deixou cair sua prancheta, o plástico batendo ruidosamente no chão.
"Código Azul!", ela gritou, sua voz falhando. "Estamos perdendo a doadora!"
Corri para a sala. Elena estava deitada na maca, a cabeça pendendo para o lado. Sua pele estava translúcida, cerosa e azulada ao redor dos lábios. Ela parecia uma boneca quebrada que havia sido descartada.
"Parem a coleta!", berrei.
A enfermeira arrancou a agulha do braço de Elena, mas o sangue não fluiu. Seu coração havia parado.
"Desfibrilador!", o médico gritou, entrando apressado.
Eles trabalharam nela. Um choque. Dois. Três. Seu corpo se contorcia com a eletricidade, uma imitação grotesca da vida, levantando-se do colchão antes de desabar com um baque surdo.
Mas o monitor permaneceu uma linha verde e reta.
"Hora da morte, 23:42", disse o médico, sua voz pesada de derrota.
Eu fiquei paralisado. Morta? Assim, do nada? De uma doação de sangue? Não fazia sentido. Ela era jovem. Deveria ter aguentado uma bolsa ou duas.
Caminhei até o balcão onde seu arquivo estava aberto. Eu precisava entender. Peguei o prontuário que a enfermeira da recepção havia impresso às pressas do banco de dados do estado.
Meus olhos percorreram a página. Minha respiração ficou presa na garganta, me sufocando.
*Paciente: Ana Silva (Elena).*
*Diagnóstico: Adenocarcinoma Pancreático. Estágio IV. Metastático.*
*Prognóstico: Terminal.*
O papel tremeu em minhas mãos. Câncer. Ela estava morrendo. Ela esteve morrendo o tempo todo. E ainda assim, ela deu as últimas gotas de sua vida para salvar a mulher que tomou seu lugar.
"Matteo?"
A voz de Dante veio da porta. O instinto assumiu; escondi o arquivo atrás das costas. Ele estava lá, parecendo exausto, mas aliviado.
"O médico diz que Sofia está se estabilizando", disse Dante. "A transfusão funcionou."
Ele olhou por cima de mim para a figura na maca. A enfermeira havia puxado um lençol, cobrindo o rosto de Elena.
"Ela já terminou?", Dante perguntou.
Ele não perguntou como ela estava. Ele perguntou se a transação estava concluída.
Olhei para o lençol. Debaixo dele jazia a garota com quem crescemos. A garota que costumava perseguir vaga-lumes no jardim. A garota que acabara de sacrificar tudo por um homem que a odiava.
Se eu contasse a ele agora... se eu contasse que ele acabara de ordenar a execução de uma mulher em estado terminal que o amava... isso o quebraria. E tínhamos uma guerra para vencer. Tínhamos uma família para administrar.
"Sim, Chefe", eu disse, minha voz soando estranha aos meus próprios ouvidos. "Ela terminou. Ela está apenas... descansando. O sedativo a apagou."
Dante assentiu, já se virando. "Ótimo. Pague o dobro a ela. Certifique-se de que ela esteja em um avião amanhã. Não quero vê-la no casamento."
Ele saiu.
Esperei até que seus passos desaparecessem pelo corredor. Então me virei para o médico.
"Processe a certidão de óbito", sussurrei. "Causa da morte: Parada cardíaca devido a complicações de... apenas coloque parada cardíaca. E mantenha este arquivo fechado. Ninguém o vê. Ninguém."
Puxei o lençol para baixo. O rosto de Elena estava pacífico pela primeira vez em anos. Enfiei a mão no bolso de seu jeans descartado na cadeira. Encontrei um folheto amassado.
*Santuário do Céu de Campos do Jordão. Retorne ao vento.*
Fechei meus olhos. Eu te levarei, Elena. Eu te levarei para sua montanha.