Voltei para dentro da mansão, o frasco de vidro queimando um buraco fantasma no meu bolso.
Eu precisava escondê-lo.
Eu estava indo em direção ao meu quarto quando Valeria saiu das sombras.
Ela segurava uma taça de vinho tinto, girando o líquido escuro casualmente.
Ela sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos.
"Onde você esteve, mudinha?", ela perguntou.
Tentei contorná-la.
Ela bloqueou meu caminho.
"Dante está no banho", disse ela, encostando-se na parede com uma facilidade ensaiada. "Ele me contou como você implorou por seus pais. Patético."
Trinquei o maxilar.
Levantei as mãos e gesticulei: *Saia do meu caminho.*
Ela riu.
"Senão o quê? Vai abanar as mãos para mim?"
Seus olhos se voltaram para o corredor, escutando.
De repente, ela jogou o vinho.
Não em mim.
Ela o arremessou na parede atrás dela.
O vidro se estilhaçou com o impacto. O líquido vermelho espirrou por toda parte, parecendo terrivelmente uma cena de crime.
Então ela gritou.
"Socorro! Dante! Ela está louca!"
Ela se jogou no chão em meio aos cacos de vidro, cortando deliberadamente a palma da mão em um estilhaço.
Passos pesados ecoaram pelo corredor.
Dante apareceu, uma toalha enrolada na cintura, a água ainda pingando de seu peito.
Ele viu o vinho. O vidro. Valeria sangrando no chão.
"Ela me trancou!", Valeria soluçou, apontando um dedo trêmulo para mim. "Ela tentou me empurrar para a adega e trancar a porta! Ela está com ciúmes, Dante! Ela está louca!"
Dante se virou para mim.
Seu rosto era uma máscara de calma aterrorizante.
Eu balancei a cabeça violentamente.
*Mentira*, gesticulei freneticamente. *Ela está mentindo.*
Dante nem sequer olhou para minhas mãos.
Ele olhou apenas para o sangue na palma de Valeria.
"Eu te disse para aceitá-la", ele disse, sua voz baixa e perigosa. "Eu te disse para se comportar."
Ele agarrou meu braço.
Ele não me arrastou para o quarto.
Ele me puxou pela cozinha, passando pelas bancadas de aço inoxidável, até a pesada porta industrial nos fundos.
A câmara frigorífica.
O negócio de fachada dos Vitiello era distribuição de frutos do mar.
A cozinha da mansão estava sempre abastecida.
Dante abriu a porta com um puxão.
Uma rajada de ar abaixo de zero me atingiu como um golpe físico.
Cheirava a ozônio e peixe morto.
Meu estômago revirou.
O cheiro me levou de volta ao cais. Às facas de escamar. Ao sangue sob minhas unhas que eu nunca conseguia limpar.
"Você gosta de agir como uma rata de esgoto?", Dante rosnou, me empurrando para dentro. "Então pode se refrescar com o resto do estoque."
Eu tropecei para trás, caindo sobre uma caixa de pescada congelada.
O frio atravessou meu fino vestido de seda instantaneamente, penetrando em meus ossos.
"Dante!", tentei gritar, mas apenas um soluço engasgado saiu.
Corri para a porta, batendo no metal.
Ele ficou do outro lado, imóvel.
"Pense em respeito, Sienna", ele disse.
Então ele bateu a porta pesada.
A trava clicou.
A escuridão me engoliu.
A única luz vinha do pequeno medidor de temperatura na parede.
Marcava -10 graus.
Encolhi-me em uma bola no chão de metal, tremendo violentamente.
O cheiro de peixe era sufocante.
Cobria minha língua.
Enchia meus pulmões.
Aqui dentro, eu não era a esposa do Chefão.
Eu era apenas a filha do pescador novamente.
Inútil.
Descartável.
Toquei o frasco no meu bolso.
Era a única coisa quente que restava no meu mundo.