A luz refratava em enormes lustres de cristal, dançando sobre torres de champanhe.
Para onde quer que eu olhasse, havia homens que matavam por dinheiro usando smokings que custavam trinta mil reais.
Dante prendeu a mão na minha cintura quando entramos.
Seu toque era quente, possessivo.
"Sorria", ele sussurrou no meu ouvido, seu hálito quente contra minha pele congelada. "Você está pálida."
Eu queria vomitar.
Valeria estava lá, é claro.
Ela estava envolta em seda vermelho-sangue.
Ela estava ao lado de seu pai, um Capo que controlava o porto do Rio, parecendo a realeza.
O leilão começou uma hora depois.
Era um "Leilão de Encontros de Caridade".
Homens ricos dando lances por danças com as mulheres elegíveis da Família.
Era tudo fachada. Lavagem de dinheiro com um sorriso.
Quando Valeria subiu ao palco, a sala ficou em silêncio total.
Ela sorriu, mandando um beijo para a multidão.
"Lance inicial de cinco mil", anunciou o leiloeiro.
"Dez mil", gritou uma voz.
"Vinte", disse outra.
Dante deu um passo à frente, se afastando do meu lado.
Ele levantou a mão.
"Cinco milhões."
A sala ofegou.
O silêncio se estendeu, pesado e sufocante.
O sorriso de Valeria se alargou em um sorriso vitorioso. Ela olhou diretamente para mim.
Dante não olhou para ela. Ele olhou para a multidão, desafiando qualquer um a desafiá-lo.
Ele estava marcando seu território.
E eu era apenas a mobília.
De repente, senti uma vibração na minha bolsa.
Depois outra.
Pela sala, os celulares começaram a acender como vaga-lumes.
Murmúrios se espalharam pela multidão, crescendo como uma maré que se aproxima.
As pessoas olhavam para suas telas, depois olhavam para mim.
Algumas estavam rindo.
Vi uma mulher perto de mim sussurrar para o marido, cobrindo a boca, mas não os olhos. Seus olhos eram zombeteiros.
Com os dedos trêmulos, peguei meu próprio celular.
Eu tinha uma notificação. Uma mensagem em massa enviada para todos na lista de convidados.
*A Pesca do Dia do Chefão.*
Abri o anexo.
Era uma foto minha de cinco anos atrás.
Eu usava um macacão de borracha, coberta de tripas de peixe, segurando uma faca de escamar. Meu cabelo estava emaranhado com sangue e lodo. Eu parecia selvagem. Pobre. Suja.
Abaixo, uma legenda: *Você pode tirar a garota da favela, mas não pode tirar o cheiro de peixe da garota.*
Deixei o celular cair.
A tela rachou no chão de mármore.
Eu olhei para cima.
Dante estava acompanhando Valeria para fora do palco.
Ele tinha a mão na base das costas dela.
Ele ainda não tinha visto os celulares.
Ou talvez tivesse.
E talvez não se importasse.
Eu estava ali, no meu vestido branco, cercada por diamantes e seda, e nunca me senti tão imunda em toda a minha vida.