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A Noiva da Alvorada e o Lobo de Prata - Crônicas de Aethelgard
img img A Noiva da Alvorada e o Lobo de Prata - Crônicas de Aethelgard img Capítulo 2 O Banquete Final
2 Capítulo
Capítulo 6 O Gosto da Cinza e da Verdade img
Capítulo 7 O Sangue dos Reis e o Desafio das Sombras img
Capítulo 8 O Brilho que Cega e o Sangue que Salva img
Capítulo 9 A Tactilidade da Escuridão img
Capítulo 10 O Pó dos Séculos e a Morte da Fé img
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Capítulo 2 O Banquete Final

Capítulo 2 - O Banquete Final

O Salão das Mil Chamas não recebia esse nome apenas por metáfora. O teto abobadado, sustentado por pilares de ouro maciço, era cravejado com cristais solares que capturavam a luz do meio-dia e a multiplicavam até que o ambiente se tornasse um forno de opulência e brilho insuportável. Para os nobres de Aethelgard, aquilo era a glória. Para mim, com os olhos ardendo e a pele latejando sob o peso da Coroa de Vidro, era uma antecâmara do inferno.

Eu estava posicionada em um estrado elevado, ao lado do trono vazio do Rei Solar. Eu não era uma convidada, eu era a peça central. O banquete final não era para me alimentar, eu não tocava em comida sólida há três dias, parte da "purificação", mas para que a elite do reino pudesse se banquetear enquanto admirava o cordeiro que seria levado ao matadouro.

O cheiro de carne assada com especiarias caras, vinhos doces e perfumes florais densos misturava-se ao odor constante do meu incenso ritual, criando uma névoa nauseante. Abaixo de mim, mesas quilométricas transbordavam com iguarias que poderiam alimentar vilas inteiras do cinturão de pobreza por um ano. Cisnes de açúcar, frutas vindas de estufas aquecidas por magia e pães tão brancos que pareciam feitos de nuvens.

- Sorria, Aurora - sibilou a Irmã Vesper, parada logo atrás de mim, fundida às sombras da tapeçaria. - O povo precisa ver a alegria do martírio.

Eu forcei os cantos da boca para cima. O movimento fez a ponta da coroa cravar ainda mais fundo na minha têmpora esquerda. Eu sentia um filete quente de suor descer lentamente pela lateral do meu rosto, mas não podia erguer a mão para limpar.

Foi então que as portas se abriram e o barulho de risadas e talheres de prata silenciou-se por um breve, porém pesado instante.

O Príncipe Kael entrou.

Ele não caminhava, ele possuía o espaço. Vestido em um uniforme de seda branca com dragonas de ouro que pareciam chamas esculpidas, ele era a personificação de tudo o que a Igreja pregava como perfeição. Seus cabelos eram claros como o sol da manhã e seus olhos, de um azul gélido e cortante, varreram o salão com um desdém que ele nem se dava ao trabalho de esconder.

Ele era belo, de uma beleza que machucava, como olhar diretamente para um eclipse.

Kael ignorou os nobres que se curvaram à sua passagem e subiu os degraus do estrado com uma elegância predatória. Ele parou a poucos centímetros de mim. O cheiro dele era diferente do resto do salão, cheirava a ozônio e a algo metálico, como uma espada recém-afiada.

- Nossa pequena salvadora - disse ele. Sua voz era aveludada, mas sob a superfície havia uma vibração de escárnio. - Você parece ainda mais frágil de perto, Aurora. Como um passarinho de vidro prestes a estraçalhar.

Eu inclinei a cabeça minimamente, o máximo que o peso permitia.

- É meu dever servir ao reino, Alteza.

Kael soltou uma risada curta, um som seco. Ele estendeu a mão e, com uma audácia que fez a Irmã Vesper prender a respiração, tocou uma das pontas afiadas da minha coroa. Ele pressionou o dedo contra o vidro até que sua própria pele ficasse branca.

- Dever. Uma palavra tão útil para manter os fracos na linha - ele sussurrou, aproximando-se tanto que eu podia sentir o calor que emanava dele. - Diga-me, você realmente acredita que seu sangue vai segurar a escuridão? Ou você é apenas inteligente o suficiente para saber que não tem escolha?

Eu não respondi. Meus olhos se fixaram nos dele, buscando qualquer traço de humanidade, mas encontrei apenas uma ambição vasta e fria.

Nesse momento, um jovem criado, tremendo visivelmente, aproximou-se para servir vinho ao príncipe. No nervosismo de estar tão perto da "Noiva" e do herdeiro, sua mão vacilou. Uma única gota de vinho tinto caiu sobre a bota impecável de Kael.

O silêncio que se seguiu foi absoluto.

O garoto caiu de joelhos instantaneamente, o rosto colado ao mármore.

- Perdão, Alteza! Por favor, a luz me perdoe, eu...

Kael nem sequer olhou para baixo. Ele continuou encarando meus olhos, mantendo o sorriso gélido enquanto falava com o capitão da guarda que estava na base do estrado.

- Capitão, este rapaz parece não ter o equilíbrio necessário para servir na luz. Leve-o para as masmorras externas. Talvez a escuridão o ensine a ser mais cuidadoso com o que toca.

- Alteza, foi apenas uma gota! - o grito do rapaz foi sufocado quando dois guardas o agarraram pelos braços, arrastando-o para fora. O vinho derramado no chão brilhava como sangue sob a luz dos cristais.

Os nobres nas mesas voltaram a rir e beber um segundo depois, como se nada tivesse acontecido. Para eles, a vida de um servo era tão descartável quanto a casca de uma fruta.

- Viu só, Aurora? - Kael voltou sua atenção para mim, sua mão agora descendo para o meu queixo, forçando-me a encará-lo. - A luz é exigente. Ela não tolera manchas, nem gotas de vinho, nem dúvidas... e certamente não tolera fraqueza.

Ele se inclinou, seus lábios roçando minha orelha em um gesto que, de longe, pareceria uma benção íntima, mas que era uma ameaça pura.

- Amanhã, quando você estiver naquele precipício, lembre-se de que você está morrendo por um mundo que nem sequer se lembrará do seu nome em uma semana. Eles não amam você. Eles amam a segurança que o seu cadáver proporciona.

Ele se afastou, deixando um rastro de frio onde seus dedos haviam tocado minha pele. Ele desceu para o salão, pegando uma taça de vinho e brindando ao nada, o centro de um universo que ele mesmo pretendia queimar se isso lhe desse mais poder.

Eu olhei para a mancha de vinho no chão. Olhei para as centenas de bocas mastigando, rindo e celebrando minha morte iminente.

A "Luz" não era calor. A Luz era um incêndio que consumia tudo o que fosse pequeno demais para se defender. E, pela primeira vez, eu senti que a escuridão que vinha do sul talvez não fosse o monstro que eu deveria temer. Talvez o verdadeiro monstro estivesse bem aqui, vestindo seda branca e sorrindo com dentes de pérola.

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