O Forte de Erebus não era apenas um castelo, era uma cicatriz de obsidiana cravada no coração da noite. Diferente da arquitetura do Reino Solar, que se erguia para o alto em colunas finas de mármore que pareciam suplicar pela atenção do céu, o castelo de Caspian era robusto, angular e parecia emergir da própria montanha. As paredes eram feitas de um vidro negro tão polido que, às vezes, eu via meu próprio reflexo pálido e fantasmagórico me seguindo pelos corredores, como se a Aurora do convento estivesse tentando me avisar para fugir.
O silêncio do lugar era interrompido apenas pelo som dos meus próprios passos e pelo crepitar ocasional de tochas que emanavam uma luz violeta fria. Caspian caminhava à minha frente com uma pressa que ignorava meu cansaço.
- Mantenha-se perto - ordenou ele, sem olhar para trás. - Minha gente não costuma receber bem quem carrega o cheiro do incenso solar.
Antes que eu pudesse perguntar o que ele queria dizer, as portas duplas do Grande Salão de Guerra se abriram. O ar ali dentro era pesado, saturado com o cheiro de metal, couro velho e o suor de soldados que não conheciam o luxo do descanso. No centro da sala, debruçado sobre um mapa que parecia feito de sombras líquidas, estava um homem que parecia ter sido esculpido em granito.
Ele era mais velho que Caspian, com cabelos grisalhos cortados rentes e uma cicatriz que atravessava o olho esquerdo, tornando-o uma massa de tecido esbranquiçado. Sua armadura era funcional, cheia de mossas de batalhas reais, longe do brilho ornamental dos guardas de Kael.
- Você só pode estar louco, Caspian - a voz do homem era um rosnado baixo que reverberou nas vigas do teto.
- Thorne - Caspian cumprimentou, a voz neutra. - Vejo que já soube da notícia.
O General Thorne ergueu-se, e sua presença parecia diminuir o espaço ao redor. Ele ignorou o rei e cravou o olho bom em mim. Foi como ser examinada por um carrasco decidindo onde posicionar o machado.
- Soube que você trouxe a praga para dentro das nossas muralhas - Thorne deu um passo em minha direção, a mão descansando pesadamente no punho de uma espada larga. - Essa... coisa... é o motivo de nossos filhos morrerem de frio. Ela é o símbolo de tudo o que nos odeia. Por que ela ainda respira?
O medo, que eu pensava ter esgotado no precipício, voltou com uma força renovada. Recuei, mas bati contra o peito sólido de Caspian. Ele não se moveu.
- Ela é a Noiva da Alvorada, Thorne - disse Caspian, sua mão pousando no meu ombro. O toque era possessivo, um aviso silencioso. - Ela tem o sangue que precisamos.
- O sangue dela seria mais útil em uma bacia de sacrifício no nosso próprio altar - retrucou o General, desembainhando dez centímetros de aço negro. O som do metal deslizando foi como um grito no silêncio. - Mate-a agora, Caspian. Acabe com o ciclo. Se Kael vier buscá-la e encontrar apenas um cadáver, ele perderá o motivo para a guerra. Se ela ficar viva, ela é um farol para os exércitos da luz.
- Ela não é um farol. Ela é uma chave - a voz de Caspian subiu um tom, tornando-se tão afiada quanto a lâmina de Thorne. - O Véu está matando este reino, você sabe disso. Nossas colheitas falham, nosso povo está enfraquecendo. O sangue real da Luz, quando misturado à nossa magia, pode estabilizar a barreira sem precisar de um cadáver a cada cem anos. Eu não a trouxe para ser um troféu, Thorne, trouxe-a para ser uma ferramenta.
"Ferramenta". A palavra doeu mais do que a ameaça de morte do General. Eu não passava de uma troca de mercadoria, da Igreja para o Rei das Sombras.
Thorne rosnou, aproximando-se tanto que eu podia sentir o cheiro de metal frio que emanava dele.
- Uma ferramenta que pode nos trair enquanto dormimos. Olhe para ela, Caspian! Ela nos olha como se fôssemos demônios. No momento em que ela tiver chance, ela abrirá os portões para o Príncipe Solar.
- Ela não vai - Caspian se colocou entre mim e o General, protegendo-me com seu próprio corpo. - Porque se ela tentar, eu mesmo cortarei sua garganta. Mas, até lá, ela está sob minha proteção. Se você tocar em um único fio de cabelo dela sem minha ordem, Thorne, esquecerei nossas décadas de amizade.
O General Thorne apertou o maxilar. O ódio em seu olhar era palpável, uma promessa de que ele estaria observando cada erro meu. Ele guardou a espada com um golpe seco.
- Você está jogando com fogo, meu Rei e o fogo da Luz costuma queimar tudo o que toca.
Thorne virou as costas e saiu do salão, seus passos pesados ecoando como tambores de guerra. O silêncio que ficou para trás era carregado de uma eletricidade perigosa.
Caspian se virou para mim, seus olhos cinzentos estavam sombrios.
- Não saia desta torre sem mim. Thorne não é o único que quer ver seu fim. Para o meu povo, você é a personificação da fome e da dor deles.
- E para você? - perguntei, minha voz tremendo de indignação. - Eu sou apenas a "chave"? A ferramenta que vai consertar o mundo que você diz que meu povo quebrou?
Caspian deu um passo à frente, estreitando o espaço entre nós até que eu pudesse ver as nuances prateadas em sua íris.
- Neste momento, Aurora, você é a única coisa que impede este reino de se tornar um cemitério gelado. Tente não morrer, seria um desperdício de esforço ter te resgatado daquele penhasco.
Ele se afastou, deixando-me sozinha no vasto salão de vidro negro. Eu estava cercada por inimigos, protegida por um homem que me via como um objeto útil, e em um mundo que não deveria existir.
Mas, enquanto olhava para minhas mãos, percebi que o General Thorne tinha razão em uma coisa, eu não era mais a garota do convento. A faísca de raiva que Caspian acendera em mim era a única luz que eu tinha agora. E, se eu fosse uma ferramenta, eu aprenderia a ser uma que corta quem tenta me manusear.