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A Noiva da Alvorada e o Lobo de Prata - Crônicas de Aethelgard
img img A Noiva da Alvorada e o Lobo de Prata - Crônicas de Aethelgard img Capítulo 4 A Travessia
4 Capítulo
Capítulo 6 O Gosto da Cinza e da Verdade img
Capítulo 7 O Sangue dos Reis e o Desafio das Sombras img
Capítulo 8 O Brilho que Cega e o Sangue que Salva img
Capítulo 9 A Tactilidade da Escuridão img
Capítulo 10 O Pó dos Séculos e a Morte da Fé img
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Capítulo 4 A Travessia

Capítulo 4 - A Travessia

A transição não foi uma queda, foi uma dissolução.

Acordei com a sensação de que meus pulmões haviam sido preenchidos com pó de estrelas e gelo. Meus olhos se abriram abruptamente, mas a luz cegante a que eu fora submetida toda a minha vida não estava lá para me receber. Em seu lugar, havia um veludo profundo, um azul tão escuro que roçava o violeta, pontilhado por luzes distantes que não queimavam, elas pulsavam.

O choque térmico me atingiu um segundo depois. No Reino Solar, o calor era uma pressão constante, um peso que suava a pele e exauria a alma. Aqui, o ar era afiado. Ele entrava pelas minhas narinas como lâminas de cristal, fazendo meu peito arder e meus dentes baterem.

- Respire devagar. O ar das Terras Sombrias é mais denso. Seus pulmões de sol precisam de tempo para entender que não estão morrendo.

A voz era a dele. Grave, vibrante, vinda de algum lugar à minha direita.

Tentei me levantar, mas minhas pernas falharam. Eu estava deitada sobre uma pele de animal vasta e macia, disposta sobre um chão de pedra negra polida. O ambiente era uma estrutura circular, sem janelas, mas com aberturas no topo que revelavam um céu que parecia uma pintura de óleo em movimento. Não havia sol, havia apenas uma paz cromática que eu nunca imaginei existir.

Caspian estava de pé junto a uma lareira onde chamas azuis dançavam silenciosamente. Ele não usava mais a armadura de fumaça. Vestia uma túnica escura, justa nos ombros largos, e o brilho do fogo azul acentuava a cicatriz em seu rosto e a clareza perigosa de seus olhos cinzentos.

- Onde estou? - Minha voz saiu rouca, um som fragmentado no silêncio daquela torre.

- No centro do que vocês chamam de inferno - ele respondeu, sem olhar para mim. Ele segurava uma adaga, limpando-a com um pano de seda. - Em minha casa, no Forte de Erebus.

A memória do massacre na montanha voltou como uma bofetada. Os guardas atravessados pelas sombras, o rosto distorcido de Kael, a coroa de vidro estilhaçada. A raiva, que estivera dormente sob camadas de doutrinação, subitamente rompeu a superfície.

- Você me sequestrou - eu disse, conseguindo finalmente ficar de pé, embora o mundo girasse. - Você dizimou a guarda real e me arrastou para este lugar... este lugar sem vida!

Ele finalmente se virou. Seu olhar era uma força física que me obrigou a recuar um passo.

- Sem vida? - Ele caminhou em minha direção, cada passo exalando uma autoridade predatória. - Olhe para você, Aurora. Seus pés estão sangrando porque seus "santos" a obrigaram a caminhar sobre rochas afiadas. Sua testa está marcada por um óleo que corrói a pele. Você estava a segundos de ter o pescoço quebrado por uma queda ou o coração parado por uma adaga. E você me acusa de roubar sua vida?

- Eu era a Noiva da Alvorada! - gritei, minha voz ecoando nas paredes de pedra. - Minha morte teria um propósito! Eu salvaria o mundo! Você nos condenou à extinção apenas para satisfazer sua sede de vingança contra a Luz!

Caspian parou a centímetros de mim. Ele era tão alto que eu precisava inclinar a cabeça para trás, o que me irritava profundamente. O calor que emanava dele era a única coisa que me impedia de congelar naquele quarto.

- O propósito que lhe deram era uma mentira - ele sibilou, a voz carregada de um desprezo gelado. - A Luz não precisa de sangue para brilhar, Aurora. Ela precisa de escravos. O seu Reino Solar é um parasita que se alimenta do medo de garotas como você para manter a aristocracia em seus tronos de ouro. Eu não a trouxe por vingança, mas sim porque estou cansado de ver o meu povo morrer de fome enquanto o seu joga comida fora em banquetes para celebrar o assassinato de inocentes.

- Você não sabe nada sobre nós! - avancei, meu dedo apontado para o peito dele. - Vocês são os monstros das sombras! As escrituras dizem que vocês se alimentam de pesadelos, que o Rei das Sombras quer apagar o sol para governar sobre cadáveres!

Caspian soltou uma risada amarga, um som que pareceu rasgar o ar entre nós.

De repente, ele agarrou meu pulso, não com força para machucar, mas com uma firmeza que me impediu de fugir. Ele puxou minha mão e a pressionou contra o lado esquerdo do seu peito.

Sob a seda da túnica, eu senti.

Um batimento cardíaco. Forte, rítmico, quente e... humano.

- Está sentindo? - ele perguntou, os olhos cinzentos faiscando como metal fundido. - Isso parece um pesadelo para você? Eu sangro como você. Eu sinto frio como você. A diferença é que eu não preciso me esconder atrás de uma coroa de vidro e de mentiras divinas para justificar quem eu sou.

Eu tentei puxar meu pulso de volta, mas ele o segurou, forçando-me a encarar a realidade do toque. A tensão entre nós era quase elétrica, um choque de mundos que nunca deveriam ter se tocado.

- Você é um assassino - sussurrei, embora minha convicção estivesse vacilando sob o calor da palma da sua mão.

- Sou - ele admitiu, soltando-me bruscamente. - E se você quiser sobreviver a este "inferno", sugiro que aprenda a ser uma também. Porque o seu Príncipe Kael não vai parar até ter você de volta. Não porque ele te ama, mas porque ele não suporta perder o que julga ser sua propriedade.

Ele se virou para as chamas azuis, me deixando sozinha com o frio e a percepção aterrorizante de que, pela primeira vez em dezoito anos, não havia ninguém para me dizer o que rezar, o que pensar ou como morrer.

- Eu quero ir embora - eu disse, embora soubesse que não havia para onde ir.

- As portas não estão trancadas, Noiva da Alvorada - ele disse, sem olhar para trás. - Tente atravessar o deserto de gelo lá fora descalça e com esse vestido de seda. Se as sombras não te matarem em dez minutos, a solidão o fará. Mas, se decidir ficar e parar de ganir como uma noviça assustada, talvez você descubra por que o sol realmente parou de brilhar.

Eu olhei para minhas mãos. O óleo dourado na minha testa ainda ardia, mas o toque de Caspian no meu pulso parecia queimar muito mais.

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