Assim que sua SUV saiu da garagem, eu não fui para a cama. Fui para a garagem e descobri minha velha motocicleta. Eu não a pilotava há anos, não desde que me tornei a Luna "respeitável".
Vesti um moletom preto e um capacete. Meu cheiro era naturalmente fraco - um efeito colateral da minha condição - mas borrifei um neutralizador de odor por segurança.
Eu o segui. Não para as florestas do norte, mas direto para a cidade.
Ele parou no Hotel Luar da Montanha. Era um estabelecimento boutique de propriedade da alcateia, reservado para membros de alto escalão.
Estacionei a duas quadras de distância e me movi pelas sombras.
Eu não precisei de poderes sobrenaturais para entrar. Eu gerenciava a logística da alcateia. Eu conhecia os horários dos turnos, os pontos cegos nas câmeras que eu mesma paguei para instalar e o código mestre da entrada de serviço.
Cheguei à entrada dos fundos do hotel. Uma porta de serviço. Digitei o código: 0412. O aniversário de Tiago. Antônio era previsível.
Lá dentro, me concentrei. Eu não podia usar a Conexão Mental para encontrá-lo - ele sentiria minha sondagem. Em vez disso, estendi meu vínculo, tentando senti-lo.
Era fraco. Uma estática abafada e maçante. Os Bloqueadores de Vínculo estavam funcionando.
Mas eu ainda podia sentir o cheiro dele. E dela.
Subi as escadas até o andar da cobertura. Minhas pernas queimavam, minha constituição fraca protestando contra o esforço, mas eu continuei.
No final do corredor, quarto 505. Ouvi risadas.
Pressionei meu ouvido contra a porta.
"Para, Antônio!", uma voz feminina riu. "Você vai estragar minha maquiagem."
"Você não precisa de maquiagem, Kátia. Você precisa ser marcada."
Kátia.
O nome me atingiu como um golpe físico. Kátia Sampaio. A psicóloga da escola da alcateia. A mulher que estava "ajudando" meu filho Tiago com sua ansiedade pré-transformação nos últimos seis meses.
Peguei meu celular, deslizei-o pela fresta na parte inferior da porta e ativei a câmera.
O ângulo era baixo, mas claro.
Eles entraram no enquadramento. Antônio estava sem camisa. Kátia usava um robe de seda que definitivamente não pertencia a ela.
Ela se virou, e eu vi.
Na junção de seu pescoço e ombro, a pele estava em carne viva e vermelha. Uma marca de mordida fresca.
Uma Marcação.
Na cultura dos lobos, uma mordida no pescoço é uma reivindicação. Diz a todos os outros machos: "Ela é minha". Um Alfa não pode Marcar duas fêmeas. Ao Marcá-la, ele estava efetivamente sobrepondo nosso vínculo. Ele estava declarando nosso casamento nulo aos olhos da biologia, se não da lei.
Kátia estendeu a mão e traçou a mordida, sorrindo com desdém. Ela se inclinou e mordiscou a mandíbula de Antônio.
"Ela suspeita?", perguntou Kátia.
"Alessandra?", Antônio riu, um som cruel e desdenhoso. "Ela não suspeita de nada. Está ocupada demais assando biscoitos e tirando o pó dos móveis. Ela é... domesticada. Fraca."
"E o Tiago?"
"O Tiago está do nosso lado", disse Antônio.
Quase deixei o celular cair.
"Ele acha você o máximo", continuou Antônio. "Ele me disse ontem que gostaria que você fosse a mãe dele. Diz que a Alessandra é constrangedora. Uma Luna sem cheiro de loba? Ele a chama de um defeito."
O corredor pareceu inclinar.
Meu filho. Meu menino. O menino por quem eu sacrifiquei minha própria alma para salvar.
Ele sabia. Ele não estava sendo aliciado. Ele era um cúmplice.
Lágrimas arderam em meus olhos, quentes e picantes. Mas não as deixei cair. Eu não podia. Se eu desmoronasse agora, eles me ouviriam.
Puxei o celular de volta com cuidado. Salvei o vídeo.
Eu tinha a prova do caso. Eu tinha a prova da Marcação.
Virei-me para sair, mas meu pé roçou em um vaso decorativo no corredor. Ele balançou.
Eu o segurei pouco antes de atingir o chão, mas a cerâmica raspou na parede. *Scrrrtch*.
"Você ouviu isso?", a voz de Kátia era aguda.
"Provavelmente o serviço de quarto", resmungou Antônio.
Eu não esperei. Movi-me com o silêncio praticado de uma mulher que passou duas décadas tentando não ser notada. Deslizei para a escadaria no momento em que a porta se abriu com um clique.
"Olá?", a voz de Antônio ecoou.
Eu já estava dois andares abaixo, meu coração batendo um ritmo de guerra.
Eles achavam que eu era fraca. Eles achavam que eu era um defeito.
Toquei meu peito, sentindo a cicatriz irregular sob minha blusa.
Eles estavam prestes a descobrir exatamente para onde minha força tinha ido.