- Não preciso de salário, Antonella - ele disse, a voz baixa e rouca, carregada de um magnetismo que a fez estremecer. - Mas não tenho intenção de manter um casamento apenas no papel. Trabalharei para você, mas em troca, você terá que se entregar a mim.
O coração de Antonella saltou. Ela percebeu, naquele instante, que ele não queria apenas um acordo de negócios; ele queria uma união real.
- Informo que você não tem o direito de recusar - completou ele, com uma arrogância dominadora que a deixou sem palavras.
Apesar da audácia, ela percebeu que não sentia repulsa. Havia algo nele que, apesar de perigoso, a atraía.
Os dois retornaram à Clínica Ventura. Assim que cruzaram a porta, foram recebidos pelo som de vidros estraçalhados e pelo rugido furioso de Afrânio Ventura.
- Destruam tudo! Queimem essas ervas inúteis! - gritava Afrânio, fora de si.
A expressão de Antonella mudou drasticamente. Aquela clínica era o legado de sua mãe. Ela fez menção de correr para dentro, mas foi impedida por Fernando, que a segurou firmemente pelo ombro. Sua figura alta e imponente bloqueou o caminho dela como uma muralha.
- Aguarde aqui - ordenou ele.
Antes que ela pudesse protestar contra o tom autoritário, Fernando já havia entrado. Para Antonella, ele parecia vulnerável por causa dos ferimentos, mas o que aconteceu a seguir destruiu essa percepção. Em menos de cinco minutos, os capangas de Afrânio estavam estirados no chão, gemendo de dor, incapazes de revidar.
Afrânio, vendo seus homens derrotados, ficou ainda mais possesso.
- Bando de lixo inútil! - Ele agarrou uma cadeira pesada e avançou contra Fernando, tentando atingi-lo na cabeça.
Antonella gritou e tentou intervir, mas Fernando foi mais rápido. Com um movimento fluido, ele desviou do golpe, empurrou a cadeira para o lado com uma mão e, com a outra, protegeu Antonella, puxando-a para trás de si. Afrânio recuou, chocado com o olhar gélido e letal que emanava de Fernando.
- Quem é você?! Vim buscar minha filha, saia da frente! - praguejou Afrânio, apontando o dedo trêmulo.
A aura de Fernando era sombria e perigosa, emanando um poder que assustava até mesmo Antonella. Ao notar que o ferimento no braço dele havia se aberto com o esforço, ela segurou a mão dele.
- Pare com isso! - ela pediu, vendo o sangue manchar as mãos dele. O rosto dela empalideceu, mas ela se colocou à frente de Fernando, encarando o próprio pai. - Pai, ele é meu marido! Nós já somos casados!
Ela tirou a certidão de casamento e a atirou contra o peito de Afrânio.
- Se você encostar nele ou em mim de novo, eu te processo!
Afrânio pegou o documento, os olhos saltando das órbitas. Ele achou que ela estava blefando ao telefone, mas a prova estava ali, em papel e tinta. Os dez milhões de Mario Jansen estavam escapando por entre seus dedos.
- O que estão fazendo aí parados? - gritou Afrânio para os capangas. - Matem esse homem!
Mas ninguém se mexeu. Os bandidos já tinham sentido a força de Fernando e não estavam dispostos a morrer por aquele dote. Sem saída, Afrânio apontou para a filha.
- Se você ainda me considera seu pai, vá se divorciar agora!
Antonella observou o comportamento repugnante do homem que a criou. Seu coração, antes cheio de esperança, tornou-se gélido. Desde a morte de sua mãe, há um ano, quando Afrânio trouxe sua amante e a filha ilegítima para dentro de casa, tudo havia mudado.
- Você ainda pode se arrepender - disse Fernando suavemente, observando a dor nos olhos dela.
- Não me arrependo - ela respondeu com firmeza. Voltando-se para o pai, completou: - Eu não vou deserdar você, mas se não aceitar meu marido, não voltaremos a nos ver. Siga sua vida e nos deixe em paz.
- Sua filha rebelde! Você vai se arrepender disso! - ameaçou Afrânio antes de sair, bufando.
O silêncio caiu sobre a clínica. Antonella sentiu as pernas fraquejarem; a adrenalina estava desaparecendo, deixando apenas o cansaço e a tristeza. Fernando a amparou com calma.
Ao ver o sangue no braço dele, ela recobrou os sentidos e o fez sentar para tratar o ferimento novamente.
- Parece que você está muito relutante em ser minha esposa - comentou ele, usando a mão ilesa para erguer o queixo dela.
- Eu já disse que não me arrependo - rebateu ela, tentando desviar o olhar, mas ele era dominador demais.
O olhar de Fernando se intensificou. Ele entendia a dor dela; ele também tinha um pai que só sabia usá-lo e que chegara a envenená-lo para manter o controle. Uma malícia cruzou seus olhos por um segundo, mas logo foi substituída por uma gentileza rara.
- De agora em diante, se você não tem uma casa para onde voltar, eu serei a sua casa, ok?
A voz dele era fria, mas as palavras eram o que ela mais precisava ouvir.
- Agora que estamos casados, somos uma família - respondeu ela, timidamente, sentindo as bochechas corarem.
Aquele lampejo de doçura nela despertou algo em Fernando. Ele acariciou o rosto dela com um sorriso preguiçoso.
- Querida... me chame de marido mais uma vez.
Antonella ficou completamente vermelha. Ela só tinha gritado aquilo para afastar o pai, mas agora, a sós com ele, a palavra parecia pesada demais.
- Nem pense nisso! - bufou, irritada.
Ela terminou de aplicar o remédio, mas notou que Fernando começou a suar frio. Ele estava tentando se conter, mas a dor parecia insuportável.
- Adicionei analgésicos fortes, ainda dói tanto assim? - perguntou ela, preocupada.
Ele franziu a testa, recuperando a expressão intimidante.
- Não estou sentindo dor - mentiu ele, secamente.
- Se dói, eu posso receitar algo mais forte - insistiu ela, mas ele agarrou seu pulso.
- Não adianta. Desde criança, eu sinto a dor com muito mais intensidade do que uma pessoa comum.