A toxina agia de forma perversa: ela amplificava os receptores de dor, tornando qualquer lesão, por menor que fosse, uma tortura insuportável. Mesmo que Fernando permanecesse em silêncio, Antonella sentia-se inexplicavelmente angustiada ao vê-lo sofrer. Quem o envenenou queria torturá-lo até a morte.
Será que ele se envolveu com pessoas perigosas?, pensou ela. Lembrando-se da frieza com que ele lutou momentos antes, ela imediatamente imaginou uma história digna de filmes sobre o submundo.
- Você não teria... se envolvido com o crime organizado antes, teria? - Antonella perguntou, desconfortável, engasgando com a própria saliva.
Se fosse esse o caso, o envenenamento faria sentido; homens naquele mundo acumulavam inimigos implacáveis. O silêncio profundo de Fernando foi interpretado por ela como uma confirmação silenciosa.
- Na verdade, você não precisa esconder isso. Contanto que tenha se regenerado, está tudo bem. Comigo aqui, não vou deixar você se desviar do caminho novamente.
Fernando esboçou um sorriso zombeteiro, o olhar brilhando com uma diversão fria.
- Eu sou um cara mau, Antonella. Você não tem medo de mim?
Ela o encarou calmamente, com uma coragem que nem sabia que possuía.
- Você acha que eu tenho medo do meu pai?
.....
Enquanto isso, na mansão da família Ventura, o clima era de tempestade. Após o confronto na clínica, a expressão de Afrânio permanecia sombria. Marieta , sua companheira, desceu as escadas vestindo um robe de renda luxuoso.
Apesar de ter quase quarenta anos, sua pele era impecável. Dez anos atrás, ela fora uma estrela de primeira linha na indústria do entretenimento, colecionando prêmios e sendo a deusa de muitos homens. Porém, um escândalo envolvendo a sedução de um homem casado a fez cair em desgraça, forçando seu desaparecimento por uma década. Agora, com Afrânio a levando frequentemente à alta sociedade, ela estava de volta aos holofotes.
- Afrânio, a Antonella ainda está emburrada com você? - perguntou ela, com uma voz falsamente doce. - Ela foi tão indelicada no casamento ontem com o Sr. Jansen. Como pôde escolher um marido qualquer na rua?
O plano original era perfeito: o casamento com Mario Jansen salvaria as finanças da família e consolidar o poder de Afrânio em Almere.
- Quem me dera fosse apenas birra! - Afrânio bateu com o punho na mesa. - Ela se casou com um vagabundo qualquer e disse na minha cara que não me reconhece como pai!
Marieta sorriu internamente, embora fingisse decepção. Ela era mestre em semear discórdia.
- Talvez ela tenha seus próprios planos... É uma pena. O projeto que a empresa pretendia desenvolver estava prestes a começar, mas sem os fundos do Sr. Jansen...
Ela fez uma pausa dramática, sabendo que isso irritaria Afrânio ainda mais.
- Mas não se preocupe, eu já tranquilizei o Sr. Jansen. Ele concordou em vir aqui amanhã, contanto que Antonella apareça.
Marieta baixou a voz, seus olhos brilhando com malícia.
- O Sr. Jansen disse que, se ela passar apenas uma noite com ele, ele poderá perdoar o vexame e ainda fornecer cinco milhões em financiamento.
Afrânio hesitou por um segundo, mas a ganância falou mais alto. A moralidade não tinha espaço diante de cinco milhões.
- Você tem certeza?
- Claro. Só precisa garantir que ela volte amanhã à noite.
Afrânio estreitou os olhos, lembrando-se da rebeldia da filha. Ele chamou os criados com um comando seco:
- Liguem para a Antonella. Digam para ela vir amanhã buscar o resto das tralhas dela. Não quero o lixo dela bagunçando minha casa.
....
Nesse momento, Antonella e Fernando chegavam à residência próxima à clínica. Era o apartamento que a mãe dela preparara como "presente de casamento" antes de falecer. O lugar era acolhedor, mas estava coberto de poeira.
Assim que entraram, Fernando sentou-se no sofá com a imponência de um rei em seu trono. Antonella pensou em pedir ajuda na limpeza, mas parou ao observá-lo. Ele usava uma camisa preta, pernas longas cruzadas, e seu rosto exalava um charme fatal e uma nobreza inata.
Se ela não soubesse que ele era um "desempregado", juraria que ele era o CEO de uma multinacional.
- Tudo bem, você está machucado, eu limpo tudo - disse ela, suspirando.
A paz durou pouco. O telefone tocou com a mensagem da governanta de Afrânio: ela deveria voltar para retirar seus pertences. Antonella sentiu uma onda de fúria. Seu pai estava agindo como se ela fosse um estorvo a ser descartado.
Será que ele esqueceu que aquela casa pertencia à minha mãe e, por direito, ao meu avô Felicio Ventura?, pensou ela, apertando o celular com força.
- Diga a Afrânio que aquela casa é da minha mãe! Se alguém deve se mudar de lá, são ele e Marieta!
Geralmente amena, Antonella estava no seu limite. Seu avô já havia lhe contado: Afrânio não tinha nada quando conheceu sua mãe. Foi a família Ventura que o acolheu e deu a ele o império que ele agora usava para torturá-la. Por isso, ela nunca adotou o sobrenome dele, mantendo o da mãe.
Ao receber a resposta desaforada da filha, Afrânio explodiu na mansão:
- Absurdo! Este território é meu! Joguem tudo dela na rua!
Marieta sorriu vitoriosa e instruiu a governanta:
- Diga a ela para recolher o lixo dela amanhã à tarde.
Antonella fechou a clínica às pressas e chamou um táxi, desesperada para salvar suas memórias antes que fossem destruídas. No meio do caminho, Fernando ligou.
- Estou com fome - disse ele, de forma curta e grossa.
- Tem macarrão instantâneo no armário - respondeu ela, distraída com o trânsito.
- Quero comida quente - rebateu ele, como se soubesse exatamente o que ela ia dizer.
Antonella bufou. Ela era péssima na cozinha; suas mãos só serviam para medicina.
- Meu pai jogou minhas coisas na rua, eu preciso ir lá agora! Vá comprar algo para comer, eu te mando o dinheiro.
Ela desligou e, imediatamente, transferiu 100 reais para ele. Mal sabia ela que estava mandando "trocados" para um homem que costumava movimentar bilhões com um clique.