Parei por um segundo na entrada lateral, segurando a alça da minha pequena bolsa dourada contra o corpo enquanto observava o reflexo das luzes nos enormes painéis de vidro da casa. Tudo naquela festa parecia caro demais, brilhante demais, distante demais da minha realidade. Os carros importados alinhados na entrada, a música elegante escapando do interior da mansão, as mulheres em vestidos que provavelmente custavam mais do que vários meses do meu aluguel. Até o ar parecia ter cheiro de riqueza.
- Você ainda pode ir embora - murmurei para mim mesma, mesmo sabendo que não iria.
A mensagem da minha amiga ainda estava aberta na tela do celular.
Para de drama e entra. É só um evento corporativo chique, não um casamento real. Você vai entregar os documentos, sorrir se alguém falar com você e sair. E, pelo amor de Deus, não derruba nada.
Soltei um suspiro, travei a tela e ergui o queixo. Aquilo devia ser simples. Entrar, encontrar a coordenadora do evento, entregar a pasta com os contratos que o escritório tinha mandado às pressas e ir embora antes que alguém percebesse que eu não pertencia àquele lugar.
O plano teria dado certo se, cinco minutos depois, eu não tivesse derramado champanhe em um homem que parecia ter saído da capa de uma revista de negócios e pecado.
- Meu Deus.
As palavras escaparam da minha boca em um sussurro horrorizado enquanto eu observava a mancha dourada escorrer pela frente impecável do terno escuro dele. O mundo ao redor pareceu congelar por um segundo. A taça vazia ainda tremia entre os meus dedos, e o garçom ao lado deu um passo discreto para trás, como se não quisesse ser associado ao desastre.
Levantei os olhos devagar.
Erro.
Grande erro.
O homem à minha frente era alto de um jeito quase ofensivo, com ombros largos o bastante para fazer o corte caro do paletó parecer ainda mais impecável. O maxilar era firme, bonito demais para inspirar qualquer confiança, e os cabelos escuros estavam penteados para trás com uma elegância sem esforço. Mas foram os olhos que me prenderam. Frios. Precisos. Perigosos. Olhos de quem estava acostumado a mandar, decidir e ser obedecido sem precisar elevar a voz.
Ele me encarava em silêncio.
Não com raiva descontrolada. O que teria sido melhor.
Era pior.
Era uma calma glacial.
- Eu sinto muito - consegui dizer, finalmente. - Foi sem querer.
O olhar dele desceu para a camisa molhada e depois voltou para o meu rosto com uma lentidão que me deixou desconfortavelmente consciente da minha própria respiração.
- Imagino que sim - respondeu.
A voz era baixa, firme e tão controlada quanto todo o resto nele.
Limpei a garganta, já sentindo o calor subir pelo meu pescoço.
- Tem algum guardanapo? Ou água com gás? Dizem que ajuda. Não sei se realmente ajuda, mas as pessoas sempre falam isso quando alguma tragédia com tecido acontece.
Por um instante, achei ter visto alguma coisa vacilar na expressão dele. Não exatamente um sorriso, mas algo perto o suficiente para me deixar ainda mais nervosa.
- Tragédia com tecido? - ele repetiu.
- Eu ia dizer "acidente", mas pareceu pequeno demais considerando o preço do seu terno.
Dessa vez, o canto da boca dele realmente se moveu.
Foi mínimo.
Mas aconteceu.
- Você costuma avaliar o valor das roupas dos desconhecidos? - perguntou.
- Só quando derramo bebida neles.
O silêncio que se seguiu não foi confortável. Também não foi ruim. Foi o tipo de pausa carregada que me deixou com a estranha sensação de que, apesar de estarmos no meio de um salão lotado, a atenção dele fazia todo o resto desaparecer.
Ele estendeu a mão, e por um segundo eu só fiquei olhando, confusa. Então percebi que ele queria a taça vazia. Entreguei imediatamente.
- Obrigada por não gritar comigo - falei, tentando aliviar a tensão.
- Eu pareço o tipo de homem que grita em público?
Quase respondi você parece o tipo de homem que não precisa gritar para assustar ninguém, mas tive juízo suficiente para manter a frase presa atrás dos dentes.
- Você parece o tipo de homem que demite alguém só com um olhar.
Os olhos dele ficaram fixos nos meus por um segundo mais longo.
- E você parece o tipo de mulher que fala o que pensa mesmo quando seria mais inteligente ficar em silêncio.
Senti meu coração tropeçar de leve.
Aquilo deveria soar como uma crítica. Talvez fosse. Ainda assim, havia algo na forma como ele me observava, atento demais, preciso demais, que transformava cada palavra em outra coisa. Um teste. Um interesse. Um risco.
Cruzei os braços, buscando firmeza.
- Ótimo. Então estamos empatados em primeiras impressões ruins.
Dessa vez, o sorriso apareceu de verdade. Discreto, rápido e absurdamente transformador. Ele deixou de parecer apenas frio.
Ficou pior.
Ficou atraente.
- Lorenzo Ferraz - disse ele, como se estivesse me concedendo uma informação rara. - E você é a única pessoa nesta casa que falou comigo sem tentar conseguir alguma coisa em troca.
Franzi a testa.
O nome bateu em mim com atraso.
Lorenzo Ferraz.
Não só o dono da mansão.
Não só o CEO do grupo que patrocinava metade dos eventos empresariais da cidade.
O Lorenzo Ferraz.
O homem que aparecia em revistas, entrevistas e manchetes econômicas com a mesma frequência com que pessoas comuns apareciam em filas de banco. O bilionário reservado. O executivo conhecido por comprar empresas inteiras e esmagar concorrentes com a elegância de quem escolhia gravatas.
Fiquei imóvel.
- Você tem cara de quem gostaria de voltar no tempo e agir de forma diferente - disse ele.
Soltei uma risada incrédula.
- Eu teria começado não jogando bebida em você. Parece um bom ponto de partida.
- E depois?
- Depois eu teria fingido que sabia quem você era antes de abrir a boca daquele jeito.
- Então teria mentido.
- Teria sido estratégica.
Lorenzo inclinou levemente a cabeça, me estudando com um interesse crescente que me deixou mais alerta do que confortável.
- Qual é o seu nome?
- Aurora Bellini.
- Aurora - ele repetiu, como se experimentasse o som na boca. - Combina com você.
Eu deveria agradecer. Ou ignorar. Ou sair dali imediatamente, porque já estava envolvida naquela conversa muito mais do que era seguro.
Em vez disso, perguntei:
- Isso costuma funcionar?
- O quê?
- O olhar, a voz baixa, o comentário calculado. Esse pacote completo de homem perigosamente bem-vestido.
O brilho nos olhos dele mudou. Escureceu. Ficou mais atento.
- Você sempre provoca desconhecidos em festas onde claramente não queria estar?
- Só os que merecem.
- E eu mereço?
Abri a boca, mas hesitei. Porque aquela era a primeira pergunta de verdade desde que nos encontramos. Não era sobre educação nem sobre flerte. Era um convite discreto, quase invisível, para ver até onde eu iria.
Sustentei o olhar dele.
- Ainda não decidi.
Por um segundo, alguma coisa pesada se instalou entre nós. Não era só atração. Atração eu conhecia. Já tinha visto, já tinha sentido, já tinha recusado. Aquilo era diferente. Mais afiado. Mais direto. Como se a presença dele me puxasse para perto enquanto meu instinto mandava manter distância.
Uma mulher de vestido vinho se aproximou naquele momento e tocou de leve o braço dele.
- Estão procurando você na sala de reuniões menor - disse ela, sem esconder o incômodo ao me olhar. - Os investidores já chegaram.
Lorenzo não desviou os olhos de mim imediatamente, e aquilo, por alguma razão absurda, fez minha pele se arrepiar.
- Diga que já vou - respondeu.
A mulher apertou os lábios antes de se afastar.
Soltei o ar devagar.
- Investidores, então. Agora tudo faz mais sentido. Eu realmente deveria ir antes de causar um prejuízo internacional.
- Você não causou prejuízo algum.
- Seu terno talvez discorde.
- Meu terno é substituível.
A resposta veio simples, mas havia alguma coisa por trás dela. Uma intenção baixa, firme, quase íntima demais para dois estranhos que se conheciam havia poucos minutos.
Passei a língua pelos lábios, nervosa, e odiei perceber o instante exato em que o olhar dele acompanhou o movimento.
- Eu vim só entregar uns documentos - expliquei, porque precisava lembrar a mim mesma o que estava fazendo ali. - Já cumpri minha cota de constrangimento da noite.
- Você trabalha para quem?
Hesitei por um segundo.
- Para um escritório terceirizado que presta serviço jurídico para eventos e contratos empresariais. Hoje eu só estava cobrindo um favor.
- Então você não pertence a esse círculo.
Não foi dito com crueldade. Também não foi dito com delicadeza. Era só uma constatação.
Ergui o queixo.
- Nem todo mundo aqui nasceu em berço de ouro.
Os olhos dele desceram devagar pelo meu rosto, atentos demais.
- Não. Alguns brilham sem precisar disso.
Odiei o efeito que aquela frase teve em mim.
Porque não pareceu uma cantada qualquer.
Pareceu observação.
E observações, quando vinham de homens como Lorenzo Ferraz, eram perigosas.
Dei um passo para trás.
- Foi... interessante conhecer você, senhor Ferraz.
Ele arqueou uma sobrancelha.
- Agora é senhor Ferraz?
- Acho mais apropriado do que continuar agindo como se eu não tivesse acabado de constranger um dos homens mais ricos do país.
- Eu prefiro Lorenzo.
A familiaridade inesperada atingiu meu peito de um jeito estranho. Quente. Incômodo. Sedutor.
Apertei a pasta de documentos contra o corpo.
- Boa noite, então.
Virei antes que ele respondesse. Antes que eu perdesse o juízo de vez e continuasse ali parada, alimentando aquela tensão absurda. Atravessei o salão tentando manter o passo firme e o rosto neutro, mas sentia o peso do olhar dele entre as minhas omoplatas como se fosse um toque real.
Só consegui respirar direito quando alcancei o corredor lateral que levava à área administrativa da mansão.
- Idiota - sussurrei para mim mesma.
Eu não sabia se estava falando dele ou de mim.
Entreguei a pasta à coordenadora, ouvi instruções rápidas, assinei um protocolo e saí pelos jardins laterais numa pressa silenciosa, como se deixar aquela propriedade encerrasse o efeito que Lorenzo Ferraz tinha causado em mim em menos de quinze minutos.
Mas, ao chegar ao portão, percebi que o carro de aplicativo ainda demoraria nove minutos.
Nove.
Soltei um resmungo impaciente e abracei os próprios braços quando o vento da noite passou frio pela minha pele descoberta.
- Seu carro só chega em nove minutos.
Virei tão rápido que quase perdi o equilíbrio.
Lorenzo estava a poucos passos de mim.
Sem os convidados ao redor, sem a música elegante, sem a multidão para suavizar sua presença, ele parecia ainda maior. Mais duro. Mais errado para mim.
- Você me seguiu? - perguntei, antes de pensar melhor.
- Eu vim até a entrada principal e vi você esperando sozinha.
- Isso não respondeu exatamente à pergunta.
Os olhos dele desceram até a tela do celular na minha mão, onde o tempo do aplicativo ainda corria, e depois voltaram para o meu rosto.
- Minha motorista pode levar você.
Soltei uma risada curta, mais nervosa do que divertida.
- Sua motorista?
- Sim.
- Claro. Porque aceitar carona de um bilionário que acabei de conhecer parece uma decisão excelente e equilibrada.
Lorenzo deu mais um passo.
Não o suficiente para invadir meu espaço.
Só o bastante para mexer com o ar entre nós.
- Você me acha perigoso, Aurora?
A pergunta veio baixa, sem pressa.
Eu deveria responder com ironia. Com leveza. Com qualquer coisa menos a verdade.
Mas havia alguma coisa na forma como ele me olhava que arrancava honestidade de mim com uma facilidade irritante.
- Acho - respondi.
A expressão dele não mudou.
- E mesmo assim ainda está aqui conversando comigo.
Engoli em seco.
- Meu carro ainda não chegou.
- Não foi isso que eu quis dizer.
O silêncio caiu de novo, denso, quente, vivo.
Eu podia ouvir o som distante da festa atrás dos muros, o farfalhar das árvores com o vento e o meu próprio coração insistindo em bater forte demais. Havia homens bonitos no mundo. Havia homens ricos, arrogantes, charmosos e inacessíveis. Eu sabia disso. Mas nenhum jamais tinha me olhado como Lorenzo olhava.
Como se já tivesse me escolhido.
Como se a decisão não dependesse inteiramente de mim.
E aquilo deveria me assustar muito mais do que estava assustando.
- Eu realmente preciso ir - falei, ainda que minha voz tivesse saído mais baixa do que eu queria.
Lorenzo manteve os olhos presos nos meus por mais um instante antes de assentir.
- Então vá.
Franzi a testa, surpresa pela facilidade.
Mas antes que eu pudesse me mover, ele completou:
- Só não cometa o erro de achar que vou esquecer você depois de hoje.
O ar pareceu desaparecer por um segundo.
Fiquei imóvel.
Lorenzo recuou, a postura novamente impecável, o rosto voltando àquela calma elegante e indecifrável que o tornava ainda mais difícil de ler.
- Boa noite, Aurora.
Então virou as costas e foi embora, me deixando sozinha no portão, com o vento bagunçando meu cabelo e uma sensação inquieta percorrendo cada centímetro do meu corpo.
Meu carro chegou dois minutos depois.
Entrei sem olhar para trás.
Mas, durante todo o caminho até em casa, as palavras dele continuaram ecoando na minha cabeça como uma promessa e uma ameaça ao mesmo tempo.
Só não cometa o erro de achar que vou esquecer você depois de hoje.
E, pela primeira vez em muito tempo, tive a nítida sensação de que minha vida estava prestes a sair dos trilhos.