Fiquei deitada alguns segundos, encarando a luz fraca entrando pela cortina, repetindo para mim mesma que aquele homem não mudava nada. Lorenzo Ferraz era uma complicação irritante, inconveniente e passageira. Um desvio. Um excesso. Um erro bonito demais, só isso.
Nada na minha vida tinha espaço para ele.
Foi pensando nisso que me levantei, tomei banho e me arrumei em tempo recorde, como se correr contra o relógio fosse me impedir de pensar. Escolhi uma blusa azul de mangas longas, uma calça preta e prendi o cabelo em um rabo de cavalo mais alinhado do que o meu humor merecia. Passei café forte, tomei duas xícaras e saí de casa com a firme decisão de sobreviver ao dia sem olhar para o celular a cada cinco minutos como uma adolescente impressionável.
Obviamente, fracassei antes das nove da manhã.
Eu já estava sentada à minha mesa quando o celular vibrou ao lado do teclado.
Número desconhecido.
Meu coração fez uma coisa ridícula e irritante dentro do peito. Peguei o aparelho tentando parecer indiferente, embora ninguém ali estivesse prestando atenção em mim além de Clara, que parecia ter desenvolvido um radar especial para qualquer alteração mínima na minha expressão.
Abri a mensagem.
Bom dia, Aurora. Espero que tenha dormido melhor do que eu. - Lorenzo
Fiquei olhando para a tela por um segundo inteiro, sentindo uma mistura de indignação e calor subir pelo meu corpo.
- Foi ele, não foi? - Clara sussurrou do outro lado da divisória.
Travei o celular.
- Você realmente precisa de um hobby.
Ela se levantou da cadeira e veio até a minha mesa, se apoiando na borda com a audácia de sempre.
- Foi ele.
Não respondi, o que para Clara equivalia a uma confissão assinada em cartório. Ela sorriu daquele jeito insuportável de quem estava se divertindo muito às minhas custas.
- Esse homem está completamente obcecado.
- Não use essa palavra tão casualmente.
- Por quê? Porque é forte demais ou porque é exatamente a certa?
Lancei um olhar afiado para ela.
- Porque você está romantizando um comportamento claramente problemático.
- Eu não estou romantizando. Estou observando. É diferente.
Soltei um suspiro e destravei o celular de novo, mais por impulso do que por decisão. Reli a mensagem, odiando o quanto ela parecia simples e eficaz ao mesmo tempo. Nada de ordens. Nada de arrogância escancarada. Só aquela frase curta, como se fôssemos pessoas que já tinham passado desse ponto e naturalmente trocassem mensagens pela manhã.
Não éramos.
E era justamente isso que me deixava tão inquieta.
Guardei o celular na gaveta sem responder.
Tentei voltar ao trabalho. Tentei focar em contratos, prazos, assinaturas pendentes e e-mails acumulados. Tentei convencer meu cérebro de que eu era uma mulher adulta, plenamente funcional, que não precisava gastar energia pensando em um CEO controlando o impulso de me transformar em prioridade.
Tudo inútil.
Porque meia hora depois meu celular vibrou de novo.
Dessa vez, a mensagem foi ainda pior.
Você sempre ignora quem pensa em você antes das oito da manhã?
Fechei os olhos devagar.
Clara nem fingiu discrição.
- Ah, meu Deus, ele mandou outra.
- Você precisa trabalhar - murmurei.
- Você também. E claramente não está conseguindo.
Peguei o celular e, antes que meu bom senso pudesse interferir, respondi:
Você sempre invade a paz alheia tão cedo?
A resposta veio quase imediata.
Só quando vale a pena.
Meu estômago apertou.
Eu odiei aquele homem.
Odiei o fato de ele ser rápido, preciso e perigosamente bom em soar como um problema que valia a pena ter.
Travei o celular com força.
- Você respondeu - Clara falou, com a solenidade de quem testemunhava um evento histórico.
- Foi um erro.
- Foi o começo.
- Clara.
Ela riu e se afastou, me deixando sozinha com a tela apagada e um turbilhão ridículo dentro de mim.
Passei o restante da manhã evitando olhar para o aparelho. Funcionou por aproximadamente quarenta minutos. Depois disso, comecei a checar se havia novas mensagens com a mesma frequência humilhante de quem já estava emocionalmente envolvida em uma situação que jurava desprezar.
Não havia mais nada.
Aquilo, de alguma forma, me incomodou ainda mais.
No horário do almoço, decidi sair sozinha. Eu precisava andar, respirar, comer qualquer coisa longe do escritório e, principalmente, longe do olhar analítico de Clara. Escolhi um café pequeno a duas quadras dali, um lugar simples com mesas na calçada e comida honesta, onde ninguém me conhecia além do suficiente para perguntar se eu queria o de sempre.
Pedi uma salada, um suco e sentei perto da janela, tentando aproveitar a rara sensação de anonimato.
Funcionou pelos primeiros três minutos.
No quarto, eu senti.
Não vi primeiro.
Senti.
Aquela consciência estranha, elétrica, de estar sendo observada por alguém cuja presença mexia com o ar antes mesmo de chegar perto. Levantei os olhos devagar.
E lá estava ele.
Lorenzo Ferraz estava do outro lado da rua, parado ao lado de um carro escuro, sem pressa nenhuma, como se o centro barulhento da cidade tivesse sido desenhado para recebê-lo. O terno cinza escuro parecia feito sob medida para irritar a minha paz. A gravata preta, o relógio discreto, a postura impecável, tudo nele gritava controle. Poder. Dinheiro. Perigo.
Meu coração bateu forte.
Muito forte.
Ele me viu no mesmo instante em que eu o vi.
Ou talvez já estivesse me vendo antes.
Atravessou a rua sem hesitar, desviando das pessoas com a facilidade arrogante de quem nunca precisou pedir espaço. Quando entrou no café, o ambiente inteiro pareceu encolher um pouco. Não porque ele fizesse algum esforço para chamar atenção. Era pior. Lorenzo simplesmente era o tipo de homem que atraía olhares por existir.
Parou diante da minha mesa.
- Bom almoço - disse.
Fiquei olhando para ele, incrédula.
- Você está me seguindo?
Lorenzo puxou a cadeira à minha frente e se sentou como se tivesse sido convidado.
- Não.
- Isso é uma resposta falsa com muita confiança.
- Eu tinha uma reunião a duas ruas daqui.
- E por alguma coincidência sobrenatural decidiu almoçar exatamente onde eu estou?
- Não. Eu vi você entrar e achei mais inteligente vir até aqui do que fingir que não vi.
A honestidade me pegou desprevenida pelo segundo dia seguido.
Meu peito subiu e desceu devagar.
- Você tem uma relação muito peculiar com limites.
- E você tem uma relação muito peculiar com a ideia de que pode me ignorar e isso vai me fazer desistir.
A garçonete apareceu ao lado da mesa nesse momento, com um bloco nas mãos e olhos levemente arregalados ao reconhecer quem estava sentado ali. Lorenzo pediu um café sem sequer abrir o cardápio. Quando ela saiu, voltei a encará-lo.
- Isso não é normal.
- Já me disse isso.
- Porque você continua me dando motivos.
Ele apoiou os antebraços na mesa e me observou com aquela atenção firme demais, como se tudo em mim merecesse ser registrado.
- E você continua reagindo como se estivesse surpresa.
Respirei fundo.
- Talvez porque eu nunca tenha conhecido alguém tão insistente.
- Insistente?
- Invasivo.
- Melhorou um pouco.
- Não era um elogio.
O canto da boca dele se curvou de leve.
Aquele quase sorriso estava começando a me irritar por razões que eu não queria analisar muito de perto.
- Por que está fazendo isso? - perguntei.
Lorenzo não respondeu imediatamente. Os olhos dele percorreram meu rosto com uma calma que me deixou consciente demais da minha própria pele, da minha postura, da forma como meus dedos apertavam o copo de suco.
- Porque você me interessa - disse, por fim. - E eu não costumo ignorar o que me interessa.
- Pessoas não são contratos, Lorenzo.
- Eu sei.
- Sabe mesmo?
- Sim. É justamente por isso que estou aqui e não mandando alguém resolver por mim.
Pisquei, surpresa de novo.
Havia arrogância nele. Muita. Mas havia também algo mais difícil de nomear. Um esforço torto, talvez. Como se Lorenzo realmente estivesse se movendo fora do terreno em que se sentia confortável e, por isso, compensasse tudo com ainda mais controle.
A garçonete voltou com o café. Lorenzo agradeceu sem desviar os olhos de mim.
Aquela atenção constante deveria me sufocar.
Em parte, sufocava.
Na outra, aquecia alguma coisa perigosa.
- Você sempre consegue o que quer? - perguntei, antes de beber um gole do suco para me dar alguma ocupação além de encará-lo.
- Quase sempre.
- E quando não consegue?
Ele inclinou a cabeça de leve.
- Insisto até entender se vale a pena continuar.
Meu estômago apertou.
- E eu valho?
A pergunta escapou antes que eu pudesse engolir de volta.
Os olhos dele escureceram de um jeito sutil, mas nítido.
- Mais do que deveria.
O silêncio entre nós ficou mais pesado.
O barulho dos carros na rua, o som da máquina de café atrás do balcão, as conversas dispersas das outras mesas - tudo isso pareceu se afastar por um instante. Eu odiava a facilidade com que Lorenzo fazia o mundo perder nitidez.
Passei a língua pelos lábios, nervosa, e imediatamente vi o olhar dele descer para minha boca. Uma onda de calor percorreu meu corpo inteiro.
- Você faz isso de propósito - murmurei.
- O quê?
- Esse jeito de olhar.
- E esse jeito te incomoda?
Eu devia responder sim.
Devia.
Mas alguma coisa na firmeza calma da voz dele me puxava para um lugar mais honesto do que seguro.
- Mais do que deveria - repeti, usando as palavras dele.
Lorenzo segurou meu olhar por um segundo longo demais.
Então recostou na cadeira, como se precisasse colocar um pouco de distância antes de fazer alguma coisa impulsiva.
Foi a primeira vez que percebi isso com clareza: o controle dele não era natural naquela situação. Era necessário.
Aquilo mexeu comigo de um jeito estranho.
- Você tem medo de mim? - ele perguntou de novo.
Soltei um suspiro pequeno, quase uma risada sem humor.
- Acho que a pergunta certa é se eu tenho medo de mim perto de você.
Os olhos dele ficaram ainda mais atentos.
Mais escuros.
Mais perigosos.
- Essa resposta me agrada mais do que deveria.
Baixei o olhar para o prato, tentando ignorar a pulsação acelerada. Era ridículo sentir meu corpo reagindo daquela forma no meio de um almoço comum, em um café simples, cercada por pessoas comuns e ruídos comuns. Tudo ali dizia que eu devia estar ancorada no real.
Mas Lorenzo não parecia pertencer ao real.
Ele parecia pertencer ao tipo de erro que muda o rumo de uma vida inteira.
- Você está me olhando desse jeito de novo - falei, sem erguer os olhos.
- Porque você está pensando demais.
- E você acha que isso é um defeito?
- Acho que, no seu caso, é uma tentativa de manter controle.
Levantei o rosto imediatamente.
- E no seu caso não é?
A pergunta o fez ficar em silêncio por um instante.
- No meu caso - respondeu ele, devagar - é sobrevivência.
Aquilo me pegou desprevenida.
Havia verdade demais naquela frase para que eu a tratasse como charme. Pela primeira vez desde que o conheci, vi alguma coisa que não era só domínio ou confiança. Era estrutura. Muralha. Um homem acostumado a se manter de pé porque relaxar não era uma opção confortável.
Meu peito apertou de leve.
Odiei sentir empatia naquele momento.
- Você fala como se estivesse em guerra o tempo todo.
- Talvez eu esteja.
- Com quem?
Lorenzo pegou a xícara de café, bebeu um gole e só depois respondeu:
- Hoje? Com você.
Meu coração tropeçou.
Revirei os olhos, mas tarde demais. O efeito já tinha vindo.
- Você transforma tudo em uma tensão desnecessária.
- Não acho desnecessária.
- Claro que não.
Ele colocou a xícara de volta no pires com uma calma irritante.
- Aurora, eu passei anos cercado de pessoas que diziam exatamente o que eu esperava ouvir. Pessoas treinadas, interessadas ou intimidadas demais para serem reais comigo. Você não faz nada disso. Então, sim, eu vou até você. Eu insisto. Eu apareço. Porque, desde o momento em que jogou champanhe em mim e ainda teve coragem de me encarar, eu soube que você não se curvaria fácil.
A força daquelas palavras me atingiu em cheio.
Fiquei imóvel, presa naquele olhar escuro, sentindo meu corpo inteiro reagir ao peso brutal da atenção dele.
- Isso não é saudável - falei, mas minha voz saiu baixa.
- Talvez não.
- E mesmo assim você continua.
- Sim.
Simples assim.
Sem desculpas.
Sem recuo.
A verdade nua e seca daquele homem era o que mais me desarmava. Eu sabia lidar com joguinhos. Sabia lidar com homens que fingiam desinteresse, com arrogância vazia, com charme fabricado. Mas Lorenzo não fingia nada. Nem mesmo as partes erradas.
Eu me apoiei na cadeira, tentando buscar ar.
- Você percebe como isso soa?
- Como obsessão?
Meu peito apertou.
Ele tinha dito a palavra com naturalidade demais.
- Você fala como se não visse problema.
- Eu vejo. Só não estou particularmente inclinado a me afastar por causa dele.
Um arrepio percorreu meus braços.
Aquele homem era um desastre anunciado.
E eu já sabia disso cedo demais.
A pergunta que começou a latejar dentro de mim não era mais se ele era perigoso.
Era se eu conseguiria ficar longe mesmo sabendo que era.
Lorenzo inclinou-se um pouco para a frente, a voz mais baixa do que o normal.
- Jante comigo hoje.
Soltei o ar pelo nariz.
- Você transforma convites em ordens com muita facilidade.
- Estou tentando ser mais educado.
- Isso é você sendo educado?
- Bem mais do que no primeiro dia.
Infelizmente, eu quase sorri.
Quase.
- Não posso.
- Não quer ou não pode?
- Os dois.
- Mentirosa.
Arqueei uma sobrancelha.
- Cuidado com a confiança.
- Cuidado com esse brilho no seu olhar quando tenta me contrariar.
Meu coração bateu forte de novo.
Eu ia enlouquecer.
- Eu tenho trabalho.
- Jante comigo depois.
- Lorenzo.
- Aurora.
Fechei os olhos por um instante.
Quando abri, ele ainda estava ali, firme, paciente, irritantemente seguro de que mais cedo ou mais tarde eu cederia alguma coisa. Talvez não tudo. Talvez nem muito. Mas alguma coisa.
E o pior é que ele talvez estivesse certo.
- Uma hora - falei, antes que a prudência pudesse me deter.
Os olhos dele se fixaram nos meus.
- O quê?
- Uma hora. Jantar. Em local público. Sem motorista me buscando, sem aparecer no meu prédio depois e sem agir como se eu já pertencesse à sua agenda.
Lorenzo me observou em silêncio por um segundo tão longo que comecei a me arrepender. Então, muito devagar, assentiu.
- Oito horas.
- Sete e meia.
O canto da boca dele se moveu.
- Sete e meia.
- E eu escolho o lugar.
- Não.
Franzi a testa.
- Acabou de concordar.
- Concordei com o horário.
- Você é impossível.
- E você está aceitando jantar comigo mesmo assim.
Tive vontade de jogar o suco na cara dele só para resgatar um pouco da minha dignidade.
- Eu ainda posso desistir.
- Pode.
- E talvez eu desista.
- Talvez.
O problema é que a maneira como ele disse aquilo deixava claro que não acreditava nem por um segundo nessa possibilidade.
Lorenzo se levantou da cadeira, ajustando o paletó com aquele gesto simples que, por algum motivo, conseguiu ser indecentemente atraente.
- Me manda o endereço - disse.
- Você é muito mandão para alguém que acabou de conseguir o que queria.
Ele se inclinou ligeiramente na minha direção, perto o suficiente para bagunçar a minha respiração, longe o bastante para que ninguém ali pudesse dizer que tinha havido qualquer intimidade.
- Ainda não consegui tudo o que quero, Aurora.
Meu corpo inteiro reagiu.
Antes que eu pudesse responder alguma coisa minimamente inteligente, ele se endireitou, deixou dinheiro demais sobre a mesa para pagar o próprio café e o meu almoço inteiro, e saiu do café como se não tivesse acabado de desorganizar meu dia inteiro em menos de meia hora.
Fiquei olhando para a porta depois que ele foi embora.
Só voltei a mim quando a garçonete passou perto e me lançou um olhar curioso demais.
Baixei os olhos para o prato quase intocado e soltei o ar devagar.
Eu tinha acabado de aceitar jantar com Lorenzo Ferraz.
E, por mais que quisesse fingir o contrário, o medo que senti naquele instante não era de estar cometendo um erro.
Era de querer cometê-lo.