Fechei os olhos com força e puxei o cobertor até a cintura, irritada comigo mesma por ainda conseguir ouvir a voz dele tão claramente. Baixa, firme, controlada. Como se cada palavra tivesse sido escolhida com cuidado. Como se ele soubesse exatamente o efeito que causava nas pessoas.
O pior era que sabia mesmo.
Na manhã seguinte, acordei atrasada, com a cabeça pesada e o mau humor de quem tinha dormido pouco e pensado demais. Meu apartamento parecia menor quando eu estava cansada. A sala e a cozinha dividiam o mesmo espaço apertado, o corredor estreito levava ao quarto e ao banheiro, e a bancada perto da janela estava coberta por papéis, um copo esquecido da noite anterior e a minha bolsa ainda jogada onde eu a tinha deixado ao chegar.
Era um lugar simples. Pequeno. Meu.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti uma necessidade estranha de me agarrar ainda mais àquela normalidade.
Tomei banho correndo, prendi o cabelo num coque torto e escolhi a primeira roupa minimamente decente que encontrei. Uma calça social escura, uma blusa de tecido leve em tom claro e um blazer que já tinha visto dias melhores. Passei corretivo nas olheiras, peguei minha bolsa e saí quase tropeçando na pressa.
O escritório onde eu trabalhava ficava no terceiro andar de um prédio comercial antigo no centro, espremido entre uma contabilidade e uma pequena agência de seguros. Nada ali tinha glamour. O elevador travava quando queria, a recepção era apertada e a máquina de café fazia um líquido duvidoso que todos fingiam gostar porque era grátis.
Eu gostava daquilo.
Gostava da vida possível, concreta, sem excessos.
Talvez por isso Lorenzo Ferraz parecesse tão deslocado na minha cabeça. Ele não combinava com nenhuma parte da minha rotina. Era grande demais, caro demais, intenso demais. Um homem como aquele existia em outro universo.
E era exatamente por isso que eu precisava esquecê-lo.
- Você está péssima - disse Clara, assim que me viu entrar.
Larguei a bolsa sobre a minha mesa e lancei um olhar cansado para ela.
- Bom dia para você também.
Clara girou a cadeira na minha direção e cruzou os braços, me examinando com a intimidade impiedosa de quem me conhecia há anos.
- Não, sério. Você está com cara de quem ou chorou por macho ou matou alguém no pensamento.
- Nenhuma das duas opções.
- Então foi ressaca?
- Também não.
Clara estreitou os olhos.
- Foi o evento de ontem, não foi?
Eu devia ter sabido que não escaparia daquilo. Clara tinha sido a mesma pessoa que me mandou entrar na festa sem drama, e agora me olhava com a curiosidade de uma jornalista farejando escândalo.
Sentei na cadeira, liguei o computador e fingi concentração.
- Não aconteceu nada.
- Aurora.
- Eu só derramei champanhe em um homem.
- Isso, vindo de você, já conta como alguma coisa. E pela sua cara, não foi em qualquer homem.
Suspirei e virei o rosto para encará-la.
- Foi em Lorenzo Ferraz.
Clara ficou em silêncio.
Piscou uma vez.
Depois se inclinou para frente como se eu tivesse confessado um crime federal.
- Você derramou bebida no Lorenzo Ferraz?
- Sim.
- O Lorenzo Ferraz?
- Quantos Lorenzos Ferraz você conhece?
Ela arregalou os olhos.
- Meu Deus. E você ainda está viva.
- Eu também achei surpreendente.
Clara soltou um ruído incrédulo e depois abriu um sorriso largo demais.
- Me conta tudo.
- Não tem tudo.
- Tem sim. Você está com essa cara porque tem.
Recostei na cadeira, irritada por ela estar certa. Mais irritada ainda por eu mesma estar alimentando aquilo. Contei a versão resumida. O champanhe. A conversa. O jeito como ele me olhou. A frase no portão. O maldito "não vou esquecer você".
Clara ouviu tudo com uma expressão que alternava entre choque, diversão e interesse exagerado.
- Então deixa eu ver se entendi - disse ela, devagar. - Você foi entregar documentos, invadiu o espaço de um dos homens mais ricos do país com champanhe, flertou com ele sem saber quem era, descobriu que ele era Lorenzo Ferraz e mesmo assim continuou respondendo à altura?
- Quando você fala assim, parece pior.
- Porque é pior.
Passei a mão pelo rosto.
- Ele é arrogante.
- Ele é bonito?
Fiquei em silêncio por um segundo.
Clara arqueou as sobrancelhas.
- Ah, então é bonito.
- Isso é irrelevante.
- Aurora, homem feio nunca fica morando na cabeça de ninguém no dia seguinte. Pode tentar me enganar com outra.
Abri a boca para responder, mas a voz da recepcionista interrompeu antes.
- Aurora, tem alguém procurando por você.
Franzi a testa.
- Por mim?
A recepcionista apareceu na entrada da sala com uma expressão confusa.
- Disse que veio entregar uma coisa.
Eu me levantei, ainda sem entender, e caminhei até a recepção. Clara veio atrás de mim sem nem fingir discrição.
Assim que virei o corredor, parei.
Um homem de terno escuro estava perto do balcão, segurando uma caixa retangular elegante nas mãos. Devia ter pouco mais de quarenta anos, postura impecável, expressão profissional demais para aquele prédio apertado.
Quando me viu, endireitou-se ainda mais.
- Senhorita Bellini?
- Sim?
Ele estendeu a caixa para mim.
- Isto foi enviado pelo senhor Lorenzo Ferraz.
Senti meu estômago afundar.
Clara soltou um som engasgado atrás de mim, claramente se segurando para não explodir.
- Desculpa... o quê? - perguntei, porque meu cérebro parecia ter desistido de acompanhar.
O homem manteve a serenidade irritante de quem estava acostumado a lidar com surpresas alheias.
- O senhor Ferraz pediu que eu entregasse pessoalmente.
Olhei para a caixa como se ela pudesse morder.
- Deve haver algum engano.
- Não há, senhorita.
Meu nome estava escrito à mão em um pequeno cartão preso à embalagem.
Aurora.
Sem sobrenome. Sem formalidade.
Só aquilo.
Meu coração bateu mais forte, e eu odiei o efeito imediato que aquilo teve em mim.
Peguei a caixa por puro reflexo.
Era mais leve do que eu esperava.
- Ele disse mais alguma coisa?
- Apenas que a senhorita entenderia.
Entenderia?
Eu não estava entendendo absolutamente nada.
O homem fez um breve aceno de cabeça e foi embora antes que eu pudesse insistir. Fiquei parada no meio da recepção, segurando a caixa como uma idiota, enquanto Clara praticamente vibrava ao meu lado.
- Abre isso agora - sussurrou, com urgência.
- Não.
- Aurora.
- Clara, eu estou trabalhando.
- Você está segurando um presente enviado por Lorenzo Ferraz. Ninguém nesta sala vai conseguir voltar ao trabalho enquanto você não abrir isso.
Infelizmente, ela tinha razão. Até a recepcionista estava tentando fingir que não prestava atenção, mas claramente prestava.
Voltei para minha mesa com a caixa nas mãos e me sentei devagar. Minha pulsação estava rápida demais para um simples objeto embalado com fita preta.
Clara se encostou na divisória ao lado da minha mesa, me observando com olhos arregalados.
- Abre.
Soltei o ar e puxei a fita.
Dentro da caixa havia um vestido.
Parei por um segundo, encarando o tecido escuro, macio, sofisticado demais para pertencer ao meu mundo. Debaixo dele, havia outro cartão.
Dessa vez, reconheci a caligrafia firme no mesmo instante.
Para substituir o champanhe derramado pela nossa primeira impressão. Hoje, às oito. - L.F.
Fiquei olhando para as palavras por tempo demais.
Clara arrancou o cartão da minha mão antes que eu reagisse.
- Hoje, às oito? - Ela me olhou como se estivesse prestes a ter um colapso de empolgação. - Ele te chamou para sair.
- Não.
- Aurora.
- Isso não é um convite. É uma ordem disfarçada de elegância.
- E desde quando isso não faz parte do charme de um homem desses?
Virei o rosto para ela com uma expressão seca.
- Em todas as épocas da história.
Clara riu.
Eu não.
Peguei o cartão de volta e li de novo, mais devagar. O vestido. A hora. A assinatura. O tom seguro. Como se ele já esperasse que eu fosse. Como se mandar aquilo para o meu local de trabalho não fosse uma invasão absurda.
Porque era.
Era exatamente isso.
E ainda assim, havia alguma coisa naquele gesto que me deixava inquieta de um jeito difícil de nomear. Não era romantismo. Não era delicadeza. Era intenção. Lorenzo Ferraz não fazia nada pela metade. Nem mesmo quando decidia aparecer na vida de alguém.
Fechei a caixa com mais força do que o necessário.
- Eu não vou.
Clara soltou uma gargalhada curta.
- Vai, sim.
- Não vou.
- Vai porque está ofendida, curiosa e atraída. E essa combinação sempre termina mal.
- Obrigada pela confiança.
Ela sorriu, sem o menor sinal de arrependimento.
- Eu te conheço.
Passei o restante da manhã tentando trabalhar, mas foi inútil. O vestido parecia ocupar espaço demais mesmo fechado dentro da caixa. O cartão estava guardado na gaveta, e ainda assim eu conseguia sentir o peso das palavras como se estivesse com ele nas mãos.
Hoje, às oito.
Nenhum pedido. Nenhuma pergunta. Nenhum talvez.
Só certeza.
No horário do almoço, peguei o celular mais vezes do que gostaria de admitir, como se em algum momento fosse encontrar uma explicação razoável para tudo aquilo. Não encontrei.
Também não encontrei mensagem nenhuma.
O que, de alguma forma, era pior.
Porque significava que Lorenzo não achava necessário insistir. Ele tinha enviado o vestido e isso bastava. Como se o gesto falasse por si. Como se ele já tivesse deixado claro que, quando decidisse algo, o mundo ao redor simplesmente se ajustaria.
Aquilo deveria me irritar.
E irritava.
Mas também mexia comigo de um jeito perigoso.
No fim do expediente, eu ainda estava repetindo para mim mesma que não iria.
Levei a caixa comigo porque não queria deixá-la no escritório e alimentar a fofoca por mais um dia. O céu já estava escurecendo quando saí do prédio, e o movimento da rua seguia apressado, barulhento, comum. Gente atravessando fora da faixa, vendedores gritando ofertas, buzinas, cheiro de asfalto quente.
Minha vida.
Meu mundo.
Segurei a alça da bolsa em um ombro e a caixa contra o corpo no outro braço, decidida a entrar no metrô, ir para casa, tomar banho e esquecer aquilo. Talvez comer qualquer coisa gordurosa. Talvez assistir alguma série ruim. Talvez recuperar o resto da sanidade que perdi desde a noite anterior.
- Senhorita Bellini.
Parei no meio da calçada.
Fechei os olhos por um segundo antes de me virar.
Não era Lorenzo.
Era o mesmo homem que havia levado a caixa ao escritório, agora parado ao lado de um carro preto estacionado próximo à calçada. Elegante, discreto e completamente deslocado no caos do centro.
- O senhor Ferraz está aguardando.
Meu coração bateu forte demais.
- O quê?
- Estou aqui para levá-la.
Soltei uma risada sem humor.
- Eu não confirmei nada.
- Fui instruído a buscá-la às dezenove horas.
Olhei para o carro, depois para ele, e senti uma mistura de indignação e incredulidade subir pelo meu peito.
Aquilo era um absurdo.
Um completo e arrogante absurdo.
- Ele sempre acha que pode decidir pelos outros?
O motorista não respondeu. Provavelmente porque era inteligente.
Apertei a caixa contra o corpo.
- Pois diga ao seu chefe que eu não entro em carros enviados por homens controladores que se acham donos da situação.
O homem apenas inclinou a cabeça.
- Posso transmitir suas palavras exatamente como foram ditas, se a senhorita preferir.
Abri a boca.
Fechei.
Respirei fundo.
- Ótimo. Transmita.
Dei meia-volta antes que ele pudesse responder e continuei andando com o coração disparado. Meu passo estava rápido demais, duro demais, e eu mal sentia o peso da caixa nos braços.
Eu devia me sentir aliviada.
Devia.
Mas a verdade era que uma parte minha estava quente, elétrica, viva demais.
Como se dizer não a Lorenzo Ferraz não tivesse encerrado nada.
Como se tivesse apenas dado início ao jogo.
E, por algum motivo idiota, perigoso e completamente fora do meu controle, eu já começava a suspeitar que ele não era o tipo de homem que aceitava recusas com facilidade.