Acordei no meu quarto ainda envolta pelo silêncio confortável do apartamento que meu pai havia alugado para mim. A luz da manhã atravessava as cortinas claras, desenhando sombras suaves nas paredes, e por alguns segundos permaneci ali, deitada, apenas respirando. Ainda era estranho pensar que eu realmente estava em Harvard. Segundo semestre. Meu lugar no mundo... ou pelo menos, o mais próximo disso que eu já havia chegado.
Eu amava tudo ali.
Mesmo com os olhares.
Mesmo com os sussurros.
Mesmo com as risadas que, muitas vezes, eu fingia não ouvir.
Eu sabia que não me encaixava. Meus vestidos largos, discretos, sem graça aos olhos deles... meus óculos grossos demais, minha franja certinha demais. Eu parecia um rascunho mal acabado em meio a pessoas que nasceram prontas. E ainda assim... eu gostava de quem eu era. Gostava do conforto das minhas roupas, da segurança silenciosa que elas me davam.
Naquele dia, porém, nada disso importava.
Era dia de prova.
E eu estava pronta.
Tinha passado a noite inteira revisando, repetindo fórmulas, conceitos, ideias. Minha mente funcionava melhor assim - organizada, focada, disciplinada. Eu não tinha dúvidas: tiraria uma boa nota. Eu sempre dava tudo de mim. Não era apenas sobre estudar... era sobre provar. Provar ao meu pai. Provar ao mundo. Provar a mim mesma que eu era capaz de ir além.
Levantei-me, tomei um banho rápido e me arrumei sem pressa. Escolhi um vestido marrom de botões, simples, confortável, combinado com uma bota escura. Soltei os cabelos, ajustei os óculos no rosto e ignorei completamente a ideia de maquiagem. Nunca gostei. Nunca precisei.
Peguei meus livros, minha bolsa e saí.
O caminho até a universidade era curto, e eu gostava disso. Caminhar me ajudava a pensar, a organizar o dia, a ensaiar mentalmente cada passo. Eu repetia conteúdos na cabeça, planejava horários, revisava tudo como se estivesse me preparando para uma batalha silenciosa.
Quando atravessei o gramado e entrei no corredor principal, fui recebida pelo caos habitual. Alunos por toda parte, vozes, risadas, conversas cruzadas. Um mundo inteiro em movimento.
Mas eu já estava acostumada a passar por ele como um fantasma.
As horas pareceram se arrastar até a aula da prova. Quando entrei na sala, o cenário era o de sempre. Burburinhos, grupos reunidos, e, claro... Scarlett.
Scarlett e seu namorado.
O casal perfeito.
Ela gargalhava alto, contando histórias irrelevantes como se fossem acontecimentos históricos. Ele ria junto, exibindo-se para todos ao redor. E, como sempre, uma pequena plateia se formava ao redor deles.
Revirei os olhos, silenciosamente.
Fui para o meu lugar.
O meu canto.
Sentei-me, ajustei meus materiais e esperei. Fingindo não perceber quando Scarlett elevava a voz propositalmente ao falar de assuntos "femininos", sabendo exatamente para onde os olhares se voltariam. Para mim.
Sempre para mim.
Encostei a mão na carteira, respirei fundo e esperei o dia começar de verdade.
Quando o professor entrou, a sala finalmente se aquietou. A prova foi distribuída, e ali... tudo desapareceu.
Era só eu.
As questões.
E o silêncio confortável da concentração.
Quando terminei, senti aquele alívio conhecido - a certeza tranquila de que tinha feito o meu melhor. Guardei minhas coisas e saí da sala, já me preparando mentalmente para a próxima aula.
E então...
Eu bati em alguém.
O impacto foi rápido, desajeitado o suficiente para que meus livros escapassem das minhas mãos e se espalhassem pelo chão. Meu corpo vacilou, quase caindo, mas consegui me equilibrar. Sem pensar, me agachei imediatamente para recolhê-los.
Eu nem olhei para ele.
Não no início.
Minha única preocupação era juntar tudo rápido, desaparecer rápido, seguir em frente como sempre fazia.
Mas então...
- Você está bem?
A voz.
Eu congelei.
Levantei o olhar.
E o mundo... simplesmente parou.
Ele estava ali.
Os olhos azuis, claros demais para serem reais, como o céu de um dia perfeito. A pele clara, o rosto bem desenhado, a barba rala que parecia calculada, os cabelos negros levemente desalinhados. Ombros largos. Postura firme. Um casaco vermelho com traços pretos - o time.
Claro.
Um jogador.
Mas, naquele momento... nada disso importava.
Tudo o que eu conseguia pensar era em como ele parecia... impossível.
- Desculpa ter entrado na sua frente - ele continuou, ainda com aquele sorriso.
Eu não conseguia responder.
Minha língua parecia presa.
Minha mente... vazia.
- Eu... estou bem - consegui dizer, finalmente, em um fio de voz. - Não foi nada.
Afastei uma mecha do meu cabelo loiro atrás da orelha, um gesto automático, nervoso demais. Peguei meus livros, levantei... e por alguns segundos, ficamos ali.
Ele me olhou.
E naquele instante, um pensamento atravessou minha mente como uma lâmina:
Ele está vendo tudo.
Minha roupa.
Meus óculos.
Meu jeito.
Eu quis desaparecer.
Quis, por um segundo, ser outra pessoa. Alguém como Scarlett. Bonita, confiante, perfeita. Alguém que soubesse exatamente o que dizer.
Mas eu não era.
Nunca fui.
E, talvez por isso, fiz o que sempre fazia.
Fugi.
Saí andando rápido, sem sequer perguntar o nome dele, sem olhar para trás.
Mas era tarde demais.
Porque algo dentro de mim... já tinha mudado.
O restante do dia passou como um borrão. Aulas, vozes, palavras... nada fazia sentido. Minha mente estava presa naquele momento, repetindo cada detalhe, cada expressão, cada segundo.
Quem era ele?
De onde vinha?
Qual curso?
Qual ano?
As perguntas começaram a se acumular, inquietas, insistentes.
E então, pela primeira vez desde que cheguei ali...
Eu fiz algo diferente.
Falei com alguém.
Nina.
Ela não era exatamente minha amiga, mas também não era cruel como a maioria. Parecia... neutra. E naquele momento, era o suficiente.
Descrevi cada detalhe que lembrava, meio sem jeito, tropeçando nas palavras.
Ela riu.
- Querida... olha em volta. Metade desses caras são iguais.
Corei.
Mas insisti.
Descrevi melhor.
E então...
Como se o universo estivesse brincando comigo...
Ele passou.
Ali.
Bem na nossa frente.
Meu corpo paralisou.
O tempo desacelerou.
Ele conversava com outros caras, rindo, completamente alheio à minha existência. Cada movimento dele parecia... hipnotizante.
Ele não olhou para mim.
Nem por um segundo.
Para ele, eu fui só um esbarrão.
Um acidente.
Nada mais.
Engoli seco, apontando discretamente.
Nina seguiu meu olhar e então sorriu, reconhecendo imediatamente.
- Ah... esse é o Ian Novak. Filho de um dos homens mais poderosos de Nova York.
Ian Novak.
O nome ecoou dentro de mim.
Gravou-se.
Marcou.
E, a partir daquele momento... tudo mudou.
Quando o dia terminou, voltei para o apartamento em silêncio. Tomei banho, vesti meu pijama confortável e me sentei na cama, deixando os livros de lado pela primeira vez sem culpa.
Peguei o celular.
E procurei por ele.
Ian Novak.
Era como se aquele nome tivesse se tornado... o centro de tudo.
Homens nunca me interessaram.
Nunca.
Meu mundo sempre foi feito de páginas, metas, conquistas. Eu queria crescer, construir uma carreira, me tornar alguém. Harvard era só o começo.
Mas agora...
Minha mente insistia em voltar àquele momento.
Àquele olhar.
Àquele sorriso.
Era como se algo tivesse sido despertado dentro de mim... algo que eu não entendia, que eu nunca tinha sentido.
Uma inquietação.
Um desejo.
Uma curiosidade quase perigosa.
Deitei na cama, olhando para o teto, sentindo meu coração bater um pouco mais rápido do que deveria.
E, pela primeira vez...
Eu não estava pensando no meu futuro.
Estava pensando nele.