O cansaço pesava no meu corpo, mas Hugo parecia funcionar com uma energia própria, quase irritante de tão inesgotável. Enquanto eu só queria me jogar na cama e esquecer o mundo, ele já tinha outros planos.
- Você vai gostar... vai me agradecer no final da noite.
Fiquei em silêncio, apenas o observando, desconfiada. Depois de tudo o que ele tinha feito naquele dia, era óbvio que aquilo também fazia parte de algum plano maior.
Suspirei e entrei no apartamento.
Como esperado, Hugo não me deu escolha. Ele invadiu meu closet como se fosse dono, escolhendo um vestido e um par de saltos que, só de olhar, já faziam meus pés doerem.
Troquei-me.
E, quando saí do quarto, minha expressão dizia tudo.
- Hugo... você tem certeza disso? Esses saltos são... desumanos.
Ele se levantou lentamente, me analisando com aquele olhar crítico que eu já conhecia tão bem.
- Querida... você precisa se acostumar. - deu de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. - Seus pés vão doer. Muito. Todos os dias. Esse é o preço.
Fechei os olhos por um segundo, deixando os braços caírem ao lado do corpo.
- Eu estou cansada...
- Hanna - ele me interrompeu, firme -, você precisa sair. Precisa ser vista. Precisa entender o que acontece quando entram em um ambiente... e os olhos se voltam para você.
Franzi o cenho.
- Que olhos, Hugo?
Ele sorriu.
E aquilo... me deixou nervosa.
- Os olhos certos... e os errados também.
Meu coração acelerou.
Eu não queria isso.
Não queria que ninguém me olhasse daquela forma.
Ninguém além dele.
Ian.
- Vamos - Hugo insistiu, pegando minha mão. - Ou eu desisto de você.
Revirei os olhos, mas o segui.
Descemos pelo elevador, e pouco depois estávamos no carro conversível dele, cortando as ruas de Nova York. O vento batia no meu rosto, mas não conseguia acalmar meus pensamentos.
Meu plano...
Era ridículo.
Ingênuo.
Eu realmente achei que bastaria aparecer, sorrir... e tudo aconteceria.
Mas não era assim.
Nunca foi.
O carro parou diante de um hotel imponente, gigantesco, com uma presença que parecia esmagar qualquer um que ousasse se sentir pequeno.
E eu me senti.
Muito.
- Hugo... - murmurei, olhando para cima - onde você me trouxe?
Ele apenas sorriu.
Subimos.
O silêncio no elevador era pesado. Eu não sabia o que esperar... e isso me deixava ainda mais nervosa.
Quando as portas se abriram, o impacto foi imediato.
Seguranças.
Uma entrada grandiosa.
Portas duplas de madeira escura, esculpidas com um detalhe quase artístico.
- Como você conseguiu isso? - perguntei, ainda tentando entender.
Ele não respondeu.
Apenas me guiou até a entrada, entregou os convites e, segundos depois...
As portas se abriram.
E o mundo mudou.
O ambiente era luxuoso, sofisticado, envolto em tons escuros e elegantes. Um lustre de cristal dominava o teto, refletindo a luz em milhares de fragmentos brilhantes. Pessoas bem vestidas circulavam com naturalidade, rindo, conversando, segurando taças como se aquele fosse o habitat natural delas.
E talvez fosse.
Mas não o meu.
Olhei ao redor, completamente deslocada... e fascinada.
- De quem é essa festa? - perguntei, ainda em choque.
Hugo parou.
Sorriu.
E então disse, com calma:
- Ian Novak comprou esse prédio inteiro na semana passada.
Meu coração falhou uma batida.
- Então...
- Então sim - ele completou. - Esse é o seu segundo presente.
Meu estômago revirou.
Ian estava ali?
Ou poderia estar?
Minhas mãos começaram a tremer.
- Respira - Hugo murmurou, ao meu lado. - Você não é mais aquela garota.
Mas eu me sentia exatamente como antes.
Pequena.
Insegura.
Invisível.
- Eu não estou pronta... - sussurrei.
Ele segurou minha mão com firmeza.
- Você vai saber o que fazer quando o vir.
Queria acreditar nisso.
Mas não acreditava.
Peguei o drink que ele pediu e, antes que pudesse pensar, virei tudo de uma vez.
- Hanna! - ele me olhou, assustado. - Vai com calma.
- Eu não estou preparada pra isso...
Ele suspirou, mas não insistiu.
- Então começa observando - disse. - Você não percebe?
Franzi o cenho.
- O quê?
- Os olhares.
Meu corpo ficou rígido.
Lentamente, olhei ao redor.
E vi.
Homens.
Me olhando.
Mas não como antes.
Não com estranheza.
Com interesse.
Com desejo.
Meu rosto queimou.
- Por que eles estão olhando assim? - perguntei, quase desesperada.
Hugo riu, tomando um gole do seu uísque.
- Porque você está... irresistível.
Engoli seco.
- Eu não quero isso...
- Mas precisa disso - ele respondeu. - Nem que seja só pra entender o seu poder.
Balancei a cabeça.
- Quem eu quero que me olhe assim... é o Ian.
Hugo suspirou.
- E eu não sei se ele está aqui.
Aquilo me desanimou por um segundo.
Mas então...
Respirei fundo.
Ajustei a postura.
Ergui o queixo.
- Está na hora de mudar...
E foi quando eu o vi.
Ian.
Meu corpo inteiro travou.
Ele descia alguns degraus com a mesma presença dominante de sempre. Terno escuro, camisa levemente aberta, aquele sorriso... aquele maldito sorriso que parecia iluminar tudo ao redor.
Mas não estava sozinho.
Ela estava com ele.
Vestido vermelho.
Perfeita.
Confiante.
Intocável.
Ela segurava o braço dele como se fosse natural.
Como se fosse... dela.
Meu peito queimou.
Raiva.
Ciúmes.
Frustração.
Eles passaram por nós.
E, mais uma vez...
Ele não me viu.
Hugo estalou os dedos na minha frente.
- Foco.
Respirei fundo, mas meus olhos ainda estavam presos neles.
- Ela não é qualquer uma... - murmurei.
- Então quem é? - ele perguntou.
Cerrei os dentes.
- Caterina.
O nome saiu carregado.
- Eles se conhecem há anos... e, de todas... ela é a única que sempre volta.
Minha voz falhou por um segundo.
- Por isso eu a odeio.
Engoli seco.
- E por isso... eu tenho medo de perdê-lo... antes mesmo de tê-lo.