Cinco anos depois...
Entrei no restaurante com o coração acelerado, como se cada passo meu ecoasse mais alto do que deveria. Havia algo diferente naquele dia - não era apenas nervosismo. Era expectativa. Era o peso silencioso de tudo o que eu havia construído até ali... e do que estava prestes a começar.
Hugo já me esperava.
Assim que meus olhos o encontraram, impecável como sempre em seu terno Armani, senti um pequeno alívio. Cinco anos tinham sido generosos comigo. Eu já não era mais a garota invisível do corredor. Ganhei disciplina, confiança... coragem. Mas, ainda assim, havia partes minhas que pareciam presas no passado.
Principalmente quando se tratava dele.
Ian Novak.
Meu coração deu um salto discreto só de pensar.
Aproximei-me de Hugo, ignorando os olhares ao meu redor - ou tentando ignorar. Algumas pessoas cochichavam, outras me analisavam de forma rápida, quase avaliativa. Eu estava bem vestida, sim. Roupas caras, discretas... mas, de alguma forma, eu ainda sentia que não pertencia completamente àquele ambiente.
Talvez Hugo estivesse certo.
- Hanna, você sabe que eu te amo... mas esse seu modelo me dá dor de cabeça - ele disse, assim que me abraçou e se afastou o suficiente para me analisar dos pés à cabeça.
Soltei uma risada baixa, já esperando.
- Eu também senti sua falta, Hugo.
Sentei-me à sua frente, cruzando as mãos sobre a mesa para conter a leve inquietação que sempre surgia quando ele começava com suas críticas.
- Estou animada - confessei, sem conseguir esconder o brilho nos olhos. - Consegui o estágio nas Empresas Novak... você sabe o quanto isso significa pra mim.
Ele levou o copo de água aos lábios, observando-me por cima da borda, como se estivesse avaliando não apenas minhas palavras... mas minhas intenções.
- Sei - respondeu, seco. - Mas você e eu sabemos que isso vai muito além de um estágio.
Sorri.
Não neguei.
- Eu vou conseguir conquistar esse homem, Hugo.
Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços, como se já estivesse esperando por aquela resposta.
- Certo. Então vamos falar dos seus problemas.
Revirei os olhos.
- Eu sei.
- Não, você não sabe - ele rebateu, direto. - Primeiro: você precisa manter esse emprego. Segundo: você não pode continuar se vestindo como se tivesse herdado o guarda-roupa da sua avó.
- Hugo!
Ele ignorou completamente minha indignação.
- Você já viu as mulheres com quem ele sai?
Suspirei.
Claro que tinha visto.
Fotos, eventos, capas de revistas... mulheres impecáveis, confiantes, deslumbrantes.
- Eu sei - repeti, mais baixo dessa vez.
- Então você precisa fazer compras.
Aquilo me atingiu mais do que deveria.
Balancei a perna sob a mesa, inquieta. Não era apenas sobre roupas. Nunca foi. Era sobre sair da minha zona de conforto... sobre me expor... sobre me transformar em algo que eu nunca fui.
Mas, ainda assim...
- Por isso eu preciso da sua ajuda.
Hugo me observou com mais atenção dessa vez. E, por um breve instante, senti um frio na barriga. Ele não estava mais sendo apenas sarcástico... estava sendo honesto.
- Ele é Ian Novak - disse, sem rodeios. - E você é linda, Hanna... mas o seu estilo... e, principalmente, a forma como você se esconde... isso não vai chamar a atenção dele.
Meu coração apertou.
Desviei o olhar, sentindo aquele velho incômodo voltar - aquele que eu achava que tinha deixado para trás.
- Eu... eu mudei um pouco - murmurei.
Hugo suavizou a expressão. Segurou minha mão.
- Eu sei. Mas você precisa mostrar isso.
Respirei fundo.
Antes que eu pudesse responder, o ambiente mudou.
Foi sutil no início. Um burburinho. Um movimento diferente. Olhares se voltando para a entrada.
E então...
Eu o vi.
Ian Novak.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
O tempo... desacelerou.
Ele entrou no restaurante como se aquele espaço fosse apenas mais um território sob seu domínio. Terno escuro, perfeitamente ajustado, postura firme, olhar seguro. Ao lado dele, uma mulher alta, elegante, deslumbrante em um vestido preto que parecia ter sido feito sob medida para destacar cada curva.
Mas ainda assim...
Nada se comparava a ele.
O poder que ele carregava não era apenas sobre aparência. Era presença. Era controle. Era... inevitável.
As pessoas paravam.
Observavam.
E eu...
Eu não conseguia desviar o olhar.
Era como estar de volta àquele corredor da universidade. A mesma sensação de inferioridade me atingiu, crua, direta. As risadas do passado ecoaram na minha mente, e por um instante... eu fui novamente aquela garota invisível.
- Isso só pode ser o destino brincando comigo... - sussurrei.
- Hanna - Hugo respondeu, tranquilo -, nós escolhemos esse lugar por causa dele.
Virei para ele, irritada.
- Eu sei! Mas eu não sabia que seria hoje... olha pra mim.
Ele sorriu.
- Eu avisei que devíamos ter ido às compras primeiro.
Voltei o olhar para Ian.
Ele passou por nós.
Sem olhar.
Sem perceber.
Sem sequer saber que eu existia.
Meu peito apertou.
- Eu não tenho como competir com isso... - murmurei, observando a mulher ao lado dele.
Hugo riu baixo.
- Então pare de competir... e comece a jogar.
Franzi a testa, confusa.
- Se você o quer tanto assim, Hanna... então faça algo sobre isso. Você sabe o que precisa fazer.
Suas palavras ficaram no ar.
E, pela primeira vez... fizeram sentido.
Talvez não fosse apenas sobre aparência.
Mas... talvez fosse o começo.
Respirei fundo, sentindo algo dentro de mim mudar. Como uma peça se encaixando, finalmente.
- Está bem... - disse, olhando para ele. - Você venceu.
O sorriso de Hugo se abriu imediatamente, satisfeito.
- Ah, minha querida... agora sim. Temos muito trabalho pela frente.
Ele segurou minhas mãos com entusiasmo.
- Esse final de semana é nosso. Vamos transformar você.
Soltei uma pequena risada, nervosa.
- Espero não me arrepender disso...
- Você não vai - ele garantiu. - Em breve, Ian Novak vai conhecer a sua nova funcionária... e ele não vai conseguir ignorar você.
Olhei novamente na direção onde Ian havia desaparecido.
Meu coração ainda batia forte.
Mas agora...
Não era só nervosismo.
Era determinação.
E, dessa vez...
Eu não seria invisível.