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Capítulo 4 Capitulo 3

O apartamento era o meu refúgio suspenso acima do caos - no décimo sexto andar, longe o suficiente para que o barulho da cidade se tornasse apenas um murmúrio constante. Assim que entrei, a vista me recebeu como sempre: Nova York brilhando, viva, pulsante, como se nunca permitisse que alguém esquecesse o quanto tudo ali era grandioso... e exigente.

Por um instante, parei diante da janela.

Era impossível não se impressionar.

Mas também era impossível ignorar o peso por trás de tudo aquilo.

Aquele lugar... aquele luxo... não era, de fato, meu.

Suspirei, tirando os sapatos e deixando-os cair perto da porta, enquanto caminhava até o sofá. Joguei a bolsa de qualquer jeito e me deixei afundar no estofado macio, sentindo o cansaço finalmente alcançar meu corpo.

Mas não era o cansaço que me dominava.

Era a imagem dele.

Ian.

E daquela mulher.

Fechei os olhos por um segundo, irritada comigo mesma. Era ridículo. Eu sabia disso. Não tinha direito algum de sentir ciúmes - não dele. Não de algo que nunca foi meu.

Ainda assim... sentia.

- Como eu posso ser como ela...? - murmurei, deixando a cabeça cair para trás.

A pergunta ficou no ar.

Sem resposta.

Levantei-me abruptamente, irritada com meus próprios pensamentos, e liguei a TV, buscando qualquer distração que me arrancasse daquela espiral.

Erro.

O universo parecia se divertir às minhas custas.

Na tela, uma apresentadora comentava exatamente sobre o que eu queria esquecer - Ian Novak e a mulher misteriosa ao seu lado. Fotos, comentários, especulações.

Respirei fundo, com raiva.

Desliguei a TV.

- Essa mulher está me perseguindo... - resmunguei.

Sem paciência para mais nada, segui direto para o banho. A água quente escorria pelo meu corpo, mas não levava embora a inquietação. Pelo menos, silenciava um pouco o barulho dentro da minha cabeça.

Depois, vesti meu pijama mais confortável.

E, inevitavelmente, sorri sozinha.

- Hugo me faria atear fogo nisso... - murmurei.

Mas o sorriso durou pouco.

Porque, assim que me deitei, a verdade voltou a se impor.

Ian Novak.

Cinco anos.

Cinco anos pensando nele.

Planejando.

Sonhando.

Me preparando.

E agora que eu estava mais perto do que nunca...

Eu não fazia ideia do que fazer.

Nunca tive ninguém.

Nunca me interessei por ninguém.

Minha vida sempre foi simples: estudar, crescer, vencer.

Mas ele...

Ele tinha mudado tudo sem sequer tentar.

Virei de lado na cama, abraçando o travesseiro com mais força do que deveria.

- Eu queria ser sua... - sussurrei, quase sem perceber.

Fechei os olhos, mas o sono demorou a vir. E quando veio... não trouxe descanso.

A campainha tocou como um alarme irritante, me arrancando de um sono pesado e bagunçado.

- Santa paciência... - resmunguei, me levantando.

Só podia ser Hugo.

E, claro, era.

Abri a porta ainda de pijama, com uma expressão nada amigável, e ele simplesmente entrou como se fosse dono do lugar, uma bolsa pendurada no braço.

Ele me analisou dos pés à cabeça.

Eu já sabia o que vinha.

- Livre-se disso imediatamente. Parece que você invadiu o armário de alguém sem gosto.

Fechei a porta com força.

- Bom dia pra você também.

Ele ignorou.

Olhou ao redor.

- Seu apartamento está um caos. Isso é um reflexo direto da sua alma no momento.

- Hugo...

- Café. Agora. Temos um dia cheio. Compras, salão... e, honestamente, talvez uma nova personalidade.

Cruzei os braços, ainda irritada.

- Se você não parar de me criticar, eu te jogo do décimo sexto andar.

Ele sorriu.

- Flor, você não viveria sem mim.

E, infelizmente...

Ele estava certo.

Me arrastei até o quarto, lavei o rosto, me arrumei e escolhi algo que, na minha cabeça, parecia aceitável. Quando voltei, Hugo me olhou como se eu tivesse cometido um crime.

- Você parece a versão jovem da minha avó.

Revirei os olhos e me sentei à mesa, encarando o céu cinza lá fora.

Perfeito.

Combinava com o meu humor.

Quinze minutos depois, estávamos no elevador, descendo para enfrentar a cidade.

- Hugo... eu aceitei isso, mas-

- Nada de "mas" - ele interrompeu. - Você viu aquela mulher com ele.

Cerrei os dentes.

- Eu vi.

- Então pronto. É isso que estamos combatendo.

Soltei uma risada fraca.

- Combatendo? Eu nem entro na guerra.

Ele virou o rosto, confiante.

- Depois de hoje, você vai ser a guerra.

Aquilo... arrancou um sorriso de mim.

Pequeno.

Mas verdadeiro.

O táxi chegou, e seguimos em silêncio. Minha mente estava um caos - ansiedade, insegurança, expectativa... tudo misturado.

A loja de lingerie foi o primeiro campo de batalha.

E eu quase fugi.

Hugo, claro, estava no paraíso. Escolhia peças como se estivesse montando uma obra de arte. Rendas, cortes, cores... tudo que me deixava completamente fora da minha zona de conforto.

Mas, aos poucos...

Eu fui cedendo.

Sentindo.

Me permitindo.

Talvez... descobrindo algo novo.

Depois, o salão.

Sentada diante do espelho, observei cada transformação acontecer como se estivesse assistindo outra pessoa surgir. O toque leve nos meus cabelos, a maquiagem sendo construída com cuidado... cada detalhe parecia revelar algo que sempre esteve ali, mas que eu nunca tive coragem de mostrar.

- Confie em mim... - Hugo sussurrou.

E, dessa vez...

Eu confiei.

Quando tudo terminou, me levantei lentamente.

Olhei para o espelho.

E... por um segundo... não me reconheci.

Mas não de um jeito ruim.

Meus olhos ainda eram os mesmos - verdes, atentos - mas agora brilhavam com algo diferente. Meu cabelo caía em ondas suaves, meu rosto parecia mais definido, mais... presente.

Mais eu.

Só que... sem medo.

Hugo se aproximou, orgulhoso.

- Agora sim... - disse, com um sorriso satisfeito. - Essa é a mulher que vai virar o mundo do Ian Novak de cabeça para baixo.

Meu coração acelerou.

Olhei para o meu reflexo mais uma vez.

E, pela primeira vez...

Eu não me senti invisível.

Eu me senti... pronta.

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