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Capítulo 5 *5

O hotel era lindo. Renata me havia mostrado as fotos nas redes sociais, mas elas não chegavam nem perto da estrutura real.

A cidade estava cheia de prédios assim: uma mistura de estilos arquitetônicos, texturas e épocas. Se alguém caminhasse pelo centro, pelo coração da cidade, prestando atenção de verdade, o lugar virava um labirinto temporal e espacial.

Felipe estava na porta, recebendo a equipe. Cheguei cedo para me instalar com calma, para não entrar em pânico quando as pessoas já estivessem lá dentro.

-Vou te mostrar onde você pode se acomodar -disse Felipe, indicando o interior de uma sala.

-Tudo bem -respondi.

A sala não era muito grande; funcionava como sala de espera ao lado da recepção. Obviamente, tinham reformado parte do interior. Alguns móveis da época tinham sido recuperados ou garimpados e combinados com esculturas minimalistas e quadros modernos.

Felipe ia e vinha, e de vez em quando parava para perguntar se eu precisava de alguma coisa. Vendo-o assim, no seu elemento, com aquela segurança toda, bem vestido e sorrindo com graça, deu para entender por que Renata tinha caído de cabeça por ele. As aparências enganavam.

-Tira fotos dele e me manda -ele havia pedido mais cedo, numa mensagem no WhatsApp. Eu já tinha uma galeria com fotos dele que parecia um catálogo de revista adulta.

Em vinte minutos, o lugar estava lotado. Mulheres com vestidos sofisticados, homens de gala: um desfile de carteiras. Quando alguém se aproximava da mesa, eu me transformava em duas coisas ao mesmo tempo: numa mágica e, de novo, na vendedora de loja de cosméticos. Movia as mãos como se fosse mostrar um truque antes de executá-lo e, em seguida, passava o resultado para que sentissem o cheiro.

Ouvi uma agitação vindo do saguão e me distraí. Ao esticar o pescoço para espiar, derrubei um frasco de óleo essencial de néroli sobre a madeira. Ia ficar mancha. Corri para absorvê-la com um pano de algodão. Entre o aroma intenso do óleo derramado e minha preocupação com a mesa, quase não percebi os saltos que se aproximavam. Quase.

Quando ele me disse quem era, fiquei parada, com o frasco na mão. Não sabia onde me enfiar. Olhei para ele: cabelo preto, fios grisalhos nas têmporas. Mais de quarenta anos. A voz era grave, me dava palpitações. Os olhos escuros me atravessavam, como se pudessem enxergar além. Ele era atraente. Demais. Meu Deus.

"Para de olhar assim pra ele, idiota", disse a mim mesma.

Qualquer mulher no meu lugar, quando um homem assim chegasse perto, estaria pegando fogo por dentro - eu já estava em chamas. Foi a sensação mais estranha de toda a minha vida: um homem que eu mal conhecia me deixava com tesão só de olhar.

Na cozinha, ele foi gentil. Dizer que estava com frio serviu para confirmar o que eu suspeitava. Ele estava ficando duro, e vê-lo ali, tão perto, fez com que eu ficasse um pouco molhada. Ele também me olhava.

-Você vai achar que eu tô maluca -disse eu, sorrindo, tentando me justificar pelo suposto frio.

-Todo mundo tá um pouco maluco. Talvez seja o prédio...

-O prédio?

-Aconteceu algo parecido comigo quando começaram a reformá-lo, a recuperá-lo.

-Frio?

-Sim, foi uma sensação meio estranha. Até angustiante.

-Tá assombrado?

-Não! Não deixa eles ouvirem isso, senão vou ficar sem hóspedes.

-Tenho uma amiga que é toda espiritual; segundo ela, existem lugares, casas, onde as "energias" ficam e ficam abrindo armário de madrugada.

-A Renata?

-Sim, você a conhece?

-Ela trabalha na empresa e...

-Sim, ela anda com o Felipe. É ela mesmo, a Renata.

-Peço desculpas de novo pelo que aconteceu com a Rosária. Eu não tinha percebido -disse ele, enfiando as mãos nos bolsos da calça. Estava com vergonha alheia.

-O Felipe deveria ter percebido. Mas ele não tem cérebro. Só usa o de baixo... Ai, desculpa! Ele é seu amigo.

Peguei-o de surpresa com isso e ele soltou uma gargalhada.

-A verdade não ofende. Gosto muito dele, mas tem coisas em que a gente não se entende.

Ele tinha o casaco sobre os ombros e cruzava as mãos para fechá-lo sobre o peito, amassando as lapelas. Falar de Felipe e Renata nos tirou do eixo - a mim, pelo menos, tirou. Hesitei. Talvez eu tivesse interpretado mal a intenção no olhar dele, ou me enganado achando que era a Angelina Jolie. Mesmo assim, ele continuava me olhando com aqueles olhos...

-Obrigada pelo vinho e pelo casaco, mas acho que já está na hora de ir -disse, me levantando e tirando o casaco.

Ele me surpreendeu com o que disse a seguir:

-Quero o perfume -ele se apressou em falar quando devolvi a peça. Fiquei surpresa, e um sorrisinho se abriu nos meus lábios.

-Sério?

-Sim. Mas vou pagar.

-Claro que vai.

-Onde fica a sua loja? Quando posso ir? -ele parecia uma criança ansiosa.

-Deixei os cartões na mesa, lá fora. Vou te dar um, e você pode vir quando quiser. Mas avisa antes - o processo leva um tempinho.

Saímos da cozinha e tudo parecia normal. Os convidados circulavam, conversavam com os copos na mão. Ele cumprimentou alguns pelo caminho enquanto íamos até o canto dos perfumes. O cartão que lhe dei era o de sempre: papel texturizado, letras douradas, filigranas - e tinha fragrância.

-Essenza -leu em voz alta.

-Esse é o meu mundo.

Guardou o cartão no bolso interno do paletó enquanto Felipe, do outro lado do salão, fazia sinais para ele. Era a hora do show do anfitrião perfeito.

-Me desculpa, Lívia, mas preciso circular.

-Claro, eu entendo. Foi um prazer te conhecer.

-Você já vai embora?

-Não, por quê?

-Pareceu.

-Se eu for agora, vou ter que te dar o perfume de presente.

-Tudo pelo negócio -respondeu ele, sorrindo.

-Exatamente!

A noite finalmente terminou. Saí com a bolsa e uma mala de metal até a porta, e lá estava Felipe.

-Obrigado por tudo, Lívia -disse Felipe. Mas eu só olhei para ele, e ele se encolheu. Foi engraçado ver o super-homem se intimidar.

-Como você vai voltar? Posso te dar uma carona? -perguntou Dário, se aproximando. Ele queria que ela dissesse que sim.

-Não, obrigado. Já chamei um carro pelo app, tá a duas quadras. Fora que não entro em carro de estranho.

-O motorista do app também é estranho.

-É diferente.

Felipe entrou no carro dele. No minuto em que o carro demorou para chegar, ficamos parados lado a lado, em silêncio. O ar estava fresquinho, e a agitação típica de um sábado de madrugada chegava distante, amortecida. Ele me olhou de canto.

O carro parou. Ele abriu a porta para mim e eu me acomodei no banco de trás.

-Obrigado por ter vindo, Lívia.

-Obrigada pelo convite.

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