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Capítulo 6 *6

Dário

Eram quase seis da tarde quando terminei tudo. Depois da inauguração, o trabalho se acumulava sobre a minha mesa e me prendia no escritório mais tempo do que eu precisava.

Romina entrou com mais uma pasta debaixo do braço e eu a mandei embora. Era como eu: não saía dali enquanto não tivesse tudo resolvido. Tinha dois filhos adolescentes e muitos problemas.

Eu também começava a ter problemas com o Caetano. Com dez anos, ele já se comportava e falava como um rapaz, não como uma criança. Às vezes, aquela maturidade me deixava perplexa. Outras vezes, me doía.

Eu ficava olhando para ele enquanto jogava aquele maldito videogame, sentindo como ele ia se afastando. Não me contava mais nada, não perguntava nada sobre mim; se informava de tudo pelas redes sociais e esperava que eu fizesse o mesmo: "O Bruno postou as fotos do aniversário dele no perfil. Tá tudo lá, pai. O que a gente fez e tudo mais." De repente, eu virava um dinossauro.

Prometi a mim mesmo que, se desistisse, ia me tornar o mesmo tipo de pai que eu tive. Por isso insistia, por mais que ele me rejeitasse, por mais que eu levasse um bolo atrás do outro.

O que me levou ao mundo mágico de Lívia naquela tarde foi, justamente, mais uma dessas indiferenças.

- Tô chegando, Caetano. Vinte minutos e estou aí. Acabei de sair do escritório - eu ajustava o viva-voz enquanto trocava de faixa.

- Ah... pai, sobre isso... - Lá vem.

- O que foi?

- Não vai dar. Me chamaram pra jogar uma pelada e... já tô aqui.

- A gente tinha combinado isso desde a semana passada. É a terceira vez que você me deixa na mão, filho.

- Eu sei, mas foi de última hora. Não é nada demais. A gente se vê outro dia, tá?

- Outro dia quando?

- Eu te falo. A minha mãe pode me levar depois do jogo, então pode ficar tranquilo.

Caetano desligou antes que eu pudesse responder. Eu tinha usado o esportivo à toa. Ele tentava ser o "pai legal" e dirigia aquele carro só porque gostava; ficava doido, imaginava que era piloto de Fórmula 1.

Estava na rodovia e precisei dar meia-volta. Parei num posto. Desci para comprar um isotônico - precisava repor energia. Na hora de pagar, encontrei o cartão da Essenza. Tinha tirado da bolsa de propósito para não esquecer.

Uma semana. Fiquei brincando com ele entre os dedos enquanto dirigia de volta. Cheguei a sonhar com a Lívia - com aquela boca, com aqueles seios, ali no Nostalgia. Toda linda, toda quente, toda molhada. Acho que até a ouvi gemer.

Muito real. As emoções foram muito reais. Um daqueles sonhos dos quais eu acordava com os lençóis manchados.

Liguei para ela. Se dissesse não, tentaria de novo no dia seguinte.

"Cliente especial" - ela me fez rir outra vez. Era o tom de voz com que falava, não só o que dizia. Talvez as duas coisas. Percebi que ter me arriscado a seduzi-la não tinha sido de graça. Assim que saí da rodovia, meu corpo inteiro vibrou. Tinha esquecido o que era se sentir magnetizado por uma mulher.

Estacionei logo depois da esquina onde ficava a loja - só um tiquinho, antes que os guardas aparecessem. Assim que pisei na calçada, tive a sensação de estar prestes a entrar num conto de fadas.

Lívia estava atrás do vidro. Minha boca secou. O carrilhão tocou, a madeira rangeu sob meu sapato e aquele sorriso enorme e genuíno me recebeu do outro lado do balcão.

- Dário, seja bem-vindo - ela se aproximou e, de repente, a Essenza me engoliu.

- É incrível - nem cheguei a cumprimentá-la.

- Obrigada. Vindo de um homem como você, vale mais do que um elogio.

- De um homem como eu?

- Imagino que você já tenha visto muita coisa melhor.

- Não como isso. Como surgiu a ideia? - Na verdade, eu estava genuinamente surpreso.

- Não sei - ela respondeu, dando um leve encolher de ombros. - Meu mestre me ensinou do jeito antigo e eu sempre fui apaixonada por coisas de outras épocas, pelo vintage. Me apaixonei pelo piso e o resto foi se encaixando sozinho.

Observei tudo: os tecidos claros, as prateleiras, os objetos antigos espalhados por ali.

- Vamos começar? - perguntou.

- Sim. Desculpe ter vindo em cima da hora.

- Não se preocupe - ela fechou a porta e virou o cartazinho. - Meu estúdio fica lá no fundo - disse, apontando para uma porta escura.

O estúdio era uma porta de entrada para outro nível daquele mundo. Quase medieval, não fosse pelo laptop e pela tela da câmera de segurança. Não sabia se tinha sido pensado assim de propósito: a fachada que atraía, o interior que surpreendia e aquele quartinho que encantava.

Ela apontou para uma cadeira ao lado da mesa e eu me sentei. A vi pegar um caderno, uma caneta, puxar outra cadeira à minha frente - o rosto inteiramente iluminado. Percebi que aquilo não era só uma profissão para a Lívia. Era ela mesma.

- Então - ela abriu o caderno -, o que você busca neste perfume?

- Como assim, o que busco?

- A maioria das pessoas vem com um aroma específico em mente. Quase sempre uma lembrança que querem reviver.

- Você recria lembranças?

- Eu tento. As fragrâncias que crio são personalizadas - não há duas iguais. Então, dependendo do que você precisa reviver, vou fazer algumas perguntas. Tudo bem?

- Sim, claro - uma lembrança engarrafada. Mas de quê?

- Então, que perfume você quer?

- A minha fragrância. O meu próprio cheiro.

Não poderia soar mais egocêntrico.

- Você quer o seu perfume?

- Isso mesmo.

Lívia me devolveu um sorriso entre divertido e cúmplice.

- O quê? - perguntei, sem jeito.

- Nada. Não é a primeira vez que tenho um cliente que... quer saber qual é o seu cheiro. A gente consegue fazer isso. Posso criar o aroma Monteiro - respondeu, confiante.

Nunca tinha me ocorrido que pedir uma fragrância fosse um processo tão elaborado. Na prática, era uma desculpa para vê-la de novo e conversar com ela.

- Me diz: você prefere fragrâncias frescas, doces, amadeiradas ou apimentadas?

- Não sei - menti. Sempre tive preferência pelas amadeiradas com alguma nota oriental. Não era a primeira vez que mandava fazer um perfume. Estava curioso pelo trabalho dela. Pela Lívia.

A vi se levantar e vasculhar o estúdio inteiro. Era como uma bruxa branca escolhendo os ingredientes para a sua poção. Ela já tinha me encantado naquela noite - quando me olhou com aqueles olhos enormes.

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