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SANGUE ETERNO
img img SANGUE ETERNO img Capítulo 2 O Silêncio de Ravenmoor
2 Capítulo
Capítulo 6 O Rugido e o Espinho img
Capítulo 7 O Despertar das Cinzas img
Capítulo 8 Penas e Cinzas img
Capítulo 9 Ruínas e Veludo img
Capítulo 10 O Reflexo do Passado img
Capítulo 11 O Pacto de Escarlate e Ouro img
Capítulo 12 O Sangue que Clama img
Capítulo 13 O Altar das Sombras img
Capítulo 14 O Gosto do Abismo img
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Capítulo 2 O Silêncio de Ravenmoor

A névoa em Ravenmoor não era como a de outras cidades; ela parecia ter peso, deslizando sobre o asfalto úmido como se estivesse escondendo algo que não queria ser encontrado. Para a maioria, era apenas o clima típico do norte, mas para mim, Ayla, parecia um aviso.

Eu caminhava em direção à lanchonete onde trabalhava, sentindo o frio morder a ponta do meu nariz. Desde os sete anos, quando o mundo se tornou um borrão de luzes de sirene e o cheiro de metal queimado, eu aprendi que o silêncio era meu único amigo fiel. Minha mente era um lugar trancado, um cofre que nem eu mesma possuía a chave. Enquanto as outras garotas da escola deixavam transparecer cada emoção em seus rostos, eu era um lago congelado.

- Ayla! Você está atrasada cinco minutos - a voz de Kai Blackwood ecoou assim que empurrei a porta de vidro pesado.

Kai era meu protetor de longa data, um homem de ombros largos e olhos que pareciam carregar o peso de mil segredos. Ele me acolheu quando ninguém mais quis, mas havia algo na forma como ele me olhava - uma vigilância constante, como se eu fosse uma granada prestes a explodir - que sempre me deixou intrigada.

- O ônibus quebrou de novo, Kai. O habitual - respondi, pendurando meu casaco surrado no gancho atrás do balcão.

- Fique longe da estrada principal ao voltar. Estão acontecendo coisas estranhas na floresta ultimamente. Animais mortos, trilhas que somem... você conhece as histórias.

Eu apenas assenti. Ravenmoor vivia de lendas de lobos e sombras, mas eu nunca dei importância. Até aquele momento.

O sino da porta tocou, anunciando um novo cliente. Não foi o som que me fez parar, mas a mudança súbita na pressão do ar. O calor da lanchonete pareceu ser sugado para fora. Ergui os olhos e congelei.

Um estranho estava parado ali. Ele usava um sobretudo escuro que parecia absorver a luz fraca das lâmpadas fluorescentes. Sua pele era pálida, quase como mármore sob a lua, e os traços de seu rosto possuíam uma perfeição aristocrática que incomodava. Mas foram os olhos dele que me prenderam - um âmbar profundo, quase dourado, que parecia atravessar as camadas da minha alma.

Ele não pediu um café. Ele nem olhou para o cardápio. Simplesmente me encarou.

Pela primeira vez na vida, senti um tremor que não vinha do frio. Era uma faísca de reconhecimento, ou talvez de perigo iminente. Ao meu lado, percebi que Kai tensionou os músculos, a mão apertando o balcão com tanta força que as juntas ficaram brancas.

- Você é nova por aqui? - a voz do estranho era baixa, como o som de veludo sendo arrastado sobre pedra.

- Moro aqui há anos - consegui dizer, minha voz soando mais firme do que eu me sentia. - E você?

Ele deu um passo à frente, e o cheiro de chuva e algo antigo, como pergaminho e sândalo, me atingiu.

- Apenas de passagem. Meu nome é Dorian. E acredito que temos muito o que conversar, Ayla Morgan.

Meu coração disparou. Como ele sabia o meu nome? Eu nunca o tinha visto antes, e Ravenmoor era pequena demais para que um rosto como o dele passasse despercebido por um único dia. Antes que eu pudesse perguntar, ele se virou e saiu, desaparecendo na névoa tão rapidamente quanto havia surgido.

Kai me segurou pelo pulso, seu olhar ardendo de uma forma que eu nunca tinha visto.

- Fique longe dele, Ayla. Prometa-me.

- Você o conhece, Kai?

Ele desviou o olhar, mas o tremor em sua mão o traiu.

- Existem nomes que nunca deveriam ser pronunciados em voz alta nesta cidade. E Valecliff é um deles.

Naquela noite, enquanto eu tentava dormir, a imagem dos olhos de Dorian não saía da minha mente. Eu não sabia quem ele era, nem por que Kai parecia aterrorizado. Mas eu sentia, no fundo do meu sangue, que a trégua silenciosa da minha vida tinha acabado de ser quebrada.

E o pior? Eu não conseguia parar de pensar que, de alguma forma, eu pertencia àquela escuridão tanto quanto ele.

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