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SANGUE ETERNO
img img SANGUE ETERNO img Capítulo 5 Um ser inesperado
5 Capítulo
Capítulo 6 O Rugido e o Espinho img
Capítulo 7 O Despertar das Cinzas img
Capítulo 8 Penas e Cinzas img
Capítulo 9 Ruínas e Veludo img
Capítulo 10 O Reflexo do Passado img
Capítulo 11 O Pacto de Escarlate e Ouro img
Capítulo 12 O Sangue que Clama img
Capítulo 13 O Altar das Sombras img
Capítulo 14 O Gosto do Abismo img
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Capítulo 5 Um ser inesperado

O silêncio daquela noite em Ravenmoor era uma tortura. Trancada no meu quarto, com a cômoda barrando a porta, eu ouvia cada rangido da madeira da casa como se fosse um aviso de morte. Lá embaixo, Kai - ou a coisa que habitava o corpo de Kai - permanecia em guarda. Eu conseguia ouvir sua respiração pesada, um som rítmico que não parecia humano.

Eu não era mais a Ayla Morgan que servia café e reclamava do frio. Eu era uma prisioneira em minha própria história.

Olhei para a palavra "Desperte" escrita no vidro. Meus dedos tocaram a superfície gelada, e por um segundo, senti um formigamento que subiu pelo meu braço, uma vibração elétrica que fez meus pelos se arrepiarem. Se Dorian era um monstro, por que ele parecia ser o único a não tentar me prender? E se Kai era meu protetor, por que ele escondia o fato de que meus pais foram assassinados?

O medo me paralisava, mas a náusea da mentira me impulsionava. Eu precisava sair dali. Se eu ficasse, eu sufocaria nas verdades distorcidas do Kai.

Com movimentos lentos e silenciosos, abri a janela. O ar frio da madrugada me atingiu como um tapa, trazendo o cheiro de terra úmida e pinheiros. A névoa lá fora estava tão espessa que eu mal conseguia ver o chão. Usei a velha videira que subia pela lateral da casa, descendo com o coração na boca, esperando a qualquer momento ouvir o rosnado do Kai lá dentro.

Meus pés tocaram a grama molhada. Não olhei para trás. Corri em direção à floresta, o único lugar que Kai me proibira terminantemente de entrar.

A mata de Ravenmoor à noite era um lugar de pesadelos. As árvores pareciam se mover, mudando de posição para me confundir. O som dos meus próprios passos esmagando folhas secas parecia um trovão no silêncio absoluto. Eu não tinha um plano, apenas a necessidade visceral de distância.

- Ayla...

O sussurro não veio do vento. Veio de todos os lados ao mesmo tempo. Parei, girando o corpo, sentindo o suor frio escorrer pelas minhas costas.

- Quem está aí? - Minha voz saiu aguda, desprovida de qualquer coragem.

Um vulto se moveu entre os troncos acinzentados. Não era Dorian. Era algo menor, mais curvado. De trás de uma árvore centenária, uma figura surgiu. Era uma mulher, ou o que restara de uma. Suas roupas eram trapos antigos, e sua pele tinha a cor de pergaminho queimado. Mas o que me fez querer gritar foram seus olhos: eles eram completamente negros, sem íris, sem alma.

- O sangue dela... - a coisa sibilou, mostrando dentes amarelados. - Tão doce. Tão puro. A chave para a porta que nunca fecha.

- Fique longe de mim! - gritei, tropeçando em uma raiz e caindo de costas na lama.

Ela avançou com uma velocidade inumana, os dedos longos e curvados como garras se estendendo para o meu pescoço. Fechei os olhos, esperando a dor, mas o que ouvi foi um impacto surdo e um grito de agonia.

Quando abri os olhos, Dorian estava parado à minha frente. Ele não usava mais o sobretudo; apenas uma camisa branca fina que parecia brilhar sob a luz da lua. Ele segurava a criatura pelo pescoço, levantando-a do chão como se ela não pesasse nada.

- Eu disse para não tocarem nela - Dorian disse, sua voz desprovida de qualquer emoção humana. Era um som de julgamento final.

Com um movimento seco, ele lançou a criatura contra uma rocha. O som de ossos quebrando ecoou pela clareira, e a coisa se dissolveu em uma fumaça negra antes mesmo de tocar o chão.

Dorian se virou para mim. Seus olhos não eram mais âmbar; estavam escuros, as pupilas dilatadas pela adrenalina da caça. Ele estendeu a mão, mas não se aproximou.

- Você é muito imprudente, Ayla. Fugir de um lobo para cair nos braços de uma Banshee não é a escolha mais inteligente.

- O que era aquilo? - perguntei, minha voz falhando enquanto eu tentava me levantar.

- Um resto. Um verme que se alimenta de migalhas de poder - ele respondeu, sua expressão suavizando levemente ao ver meu estado. - Existem coisas muito piores que eu e o seu guardião caçador nesta floresta.

Ele deu um passo, e dessa vez eu não recuei. O terror de ser devorada por aquela mulher negra tinha quebrado algo em mim. Perto dele, apesar do frio que ele emanava, eu me sentia estranhamente segura. Era uma lógica distorcida, mas era a única que eu tinha.

- O Kai disse que você é um vampiro - eu disse, encarando-o. - E que você só quer o meu sangue.

Dorian soltou um riso baixo, aproximando-se o suficiente para que eu pudesse ver as veias finas sob sua pele pálida.

- Kai Blackwood vê o mundo em preto e branco. Ele vê dentes e garras. Eu vejo potencial. Sim, eu sou o que ele diz, Ayla. Eu matei mais do que você pode imaginar. Mas eu não estou aqui pelo seu sangue.

Ele tocou meu rosto. Seus dedos eram frios como mármore, mas onde eles encostavam, minha pele queimava.

- Estou aqui porque você é o único mistério que me resta. E porque, em breve, você terá que escolher entre o lobo que te prende em uma mentira e o monstro que te oferece a verdade.

Um uivo ensurdecedor rasgou a noite, vindo de muito perto. A floresta pareceu estremecer.

- Ele está vindo - Dorian sussurrou, seus olhos brilhando com uma antecipação perigosa. - E ele não vai gostar de ver você comigo.

Eu olhei para a direção do som. Entre as árvores, uma silhueta imensa e peluda surgiu, olhos verdes brilhando com um ódio assassino. O lobo era real. E ele estava vindo para a guerra.

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