- Ayla! - O grito de Kai lá fora, seguido por uma batida violenta que fez a porta de madeira estalar, quase me fez desmaiar de pavor.
Eu me arrastei para trás, batendo as costas contra a mesa de centro. Eu estava cercada. Um estranho dentro de casa, e agora o homem que eu chamava de família parecia querer derrubar a casa.
- Ayla, abra essa porta agora ou eu vou derrubá-la! - A voz de Kai estava deformada, mais grossa, como se algo estivesse lutando para sair da sua garganta.
Com dedos trêmulos e suados, eu me levantei e destranquei a porta. Quando Kai entrou, eu recuei até a parede da cozinha, segurando uma faca de pão com uma força que fazia meus nós dos dedos ficarem brancos.
- Afaste-se! - eu gritei, minha voz falhando. - Fica longe de mim, Kai!
Ele parou no meio da sala. O rosto de Kai estava vermelho, o suor escorrendo pelas têmporas, e suas narinas dilatavam como se ele estivesse farejando o ar. Ele olhou para a faca na minha mão e depois para os meus olhos.
- O que você... - Ele parou, farejando o ambiente com uma agressividade assustadora. - Ele esteve aqui. Eu sinto o rastro dele. Aquele desgraçado tocou em você?
- Como você sabe? - Eu comecei a chorar, o medo transbordando. - Como você sabia que ele estava aqui? E o que há de errado com você? Seus olhos... eles estavam brilhando lá fora! Você é um deles? Você é um monstro também?
Kai deu um passo à frente, e eu apontei a faca na direção dele, soluçando.
- Não dê mais um passo! Eu vou gritar, eu vou chamar a polícia!
- A polícia não pode ajudar aqui, Ayla - ele disse, tentando suavizar a voz, mas o som ainda era animalesco. - Ouça-me. Eu sei que você está assustada. Você tem todo o direito de achar que enlouqueceu, mas eu juro que estou aqui para te proteger. Dorian Valecliff é um vampiro. Ele é um parasita que vive de sangue e mentiras.
- Vampiro? - Eu soltei uma risada histérica, que logo morreu na garganta. - Você está me dizendo que monstros de livros existem? E o que você é, então? Porque eu vi você na floresta, Kai. Eu vi você rosnar. Humanos não rosnam daquele jeito!
Kai fechou os olhos por um segundo, e quando os abriu, a íris estava em um tom de verde musgo profundo, quase sobrenatural. Ele apertou os punhos e as veias do seu braço saltaram como cordas.
- Eu sou o que Ravenmoor precisa que eu seja para manter você viva. Eu sou um lobisomem, Ayla. Um guardião.
A faca escorregou da minha mão e caiu no chão com um baque metálico. O mundo girou. Eu me apoiei na bancada, sentindo o vômito subir. Meu protetor era um lobo. O estranho era um vampiro. Minha vida inteira tinha sido uma mentira construída por um homem que eu achava que conhecia.
- Você mentiu para mim... - eu sussurrei, sentindo uma náusea insuportável. - Todos esses anos. Você me viu crescer, você me abraçou quando eu tive pesadelos com o incêndio... e você era um monstro o tempo todo?
- Eu fiz isso pelos seus pais! - Ele rugiu, perdendo o controle por um segundo. - Eles morreram para que você não fosse encontrada! Se eu tivesse contado a verdade, você teria fugido, e Dorian teria te encontrado anos atrás.
- Meus pais não morreram num acidente, não é? - A pergunta saiu fria, cortando o pânico.
- Não. - Kai baixou a cabeça, a fúria dando lugar a uma tristeza pesada. - Eles foram caçados. E agora que você vai fazer dezoito anos, o cheiro do seu sangue está mudando. A trégua entre nós e os Valecliff é um fio de cabelo, Ayla. E você é a tesoura que vai cortá-lo.
Eu não conseguia mais olhar para ele. Corri para o andar de cima, trancando a porta do meu quarto e empurrando a cômoda contra ela. Eu tremia tanto que meus dentes batiam. Sentei-me no chão, abraçando meus joelhos, esperando acordar a qualquer momento.
Mas o frio que vinha da janela era real demais.
Olhei para o vidro. A névoa estava colada na vidraça, mas havia algo escrito ali, por dentro do embaçado, como se alguém tivesse desenhado com um dedo invisível.
Uma rosa perfeita. E uma única palavra:
*"Desperte."*
Eu soltei um grito abafado, cobrindo a boca com as mãos. Ele ainda estava ali. Ou podia entrar quando quisesse. Entre o lobo que dormia no meu sofá e o vampiro que assombrava meu quarto, eu percebi que não havia lugar seguro no mundo.