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SANGUE ETERNO
img img SANGUE ETERNO img Capítulo 3 O Predador na Penumbra
3 Capítulo
Capítulo 6 O Rugido e o Espinho img
Capítulo 7 O Despertar das Cinzas img
Capítulo 8 Penas e Cinzas img
Capítulo 9 Ruínas e Veludo img
Capítulo 10 O Reflexo do Passado img
Capítulo 11 O Pacto de Escarlate e Ouro img
Capítulo 12 O Sangue que Clama img
Capítulo 13 O Altar das Sombras img
Capítulo 14 O Gosto do Abismo img
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Capítulo 3 O Predador na Penumbra

O ar na lanchonete parecia ter se transformado em estática. Mesmo após o sino da porta silenciar com a partida de Dorian, a sensação de que algo gélido havia tocado minha espinha permanecia. Eu olhei para minhas mãos; elas tremiam levemente. Não era medo comum. Era uma reação instintiva, como se cada célula do meu corpo tivesse reconhecido um predador antes mesmo do meu cérebro processar a ameaça.

- Ayla. - A voz de Kai saiu como um estalo, quebrando o transe. - O balcão. Limpe o balcão.

Sua voz estava estranha, carregada de uma urgência que ele tentava, sem sucesso, mascarar. Kai Blackwood sempre foi um homem de poucas palavras, um rochedo de estabilidade na minha vida caótica desde o incêndio. Mas agora, ele parecia uma corda esticada ao limite, prestes a arrebentar.

Peguei o pano úmido e comecei a esfregar a madeira onde Dorian estivera apoiado. Onde ele tocou, o balcão parecia estranhamente frio, como se o calor ambiente tivesse sido drenado por sua mera presença.

- Quem é ele, Kai? - perguntei, sem desviar os olhos da tarefa. - Ele sabia meu nome. Ninguém novo na cidade sabe meu nome a menos que eu diga.

Kai não respondeu de imediato. Ele se moveu para a janela, observando a névoa lá fora com uma intensidade que beirava a paranoia. Suas costas largas bloqueavam a luz, projetando uma sombra imensa sobre mim.

- Ele é um Valecliff, Ayla. Uma linhagem que... não deveria ter voltado para Ravenmoor - ele finalmente disse, as palavras saindo pesadas. - Eles são perigosos. Não de um jeito que a polícia possa resolver. É um perigo que corre mais fundo, entende?

- Não, eu não entendo - retruquei, largando o pano. - Você age como se eu fosse feita de vidro. Eu tenho dezoito anos daqui a pouco, Kai. Não pode continuar me escondendo o que acontece nesta cidade.

Ele se virou bruscamente. Por um segundo, vi algo diferente em seus olhos. Não eram os olhos castanhos reconfortantes de sempre; havia um lampejo amarelado, uma chama selvagem que sumiu tão rápido quanto apareceu.

- Justamente por você estar perto dos dezoito é que o perigo é maior - ele rosnou, aproximando-se. - Ravenmoor tem dentes, Ayla. E pessoas como Dorian não vêm aqui para tomar café. Eles vêm para reivindicar o que acham que lhes pertence.

O resto do turno passou como um borrão cinzento. Cada vez que o sino da porta tocava, meu coração saltava na garganta, esperando ver aquele sobretudo escuro e os olhos âmbar novamente. Mas Dorian não voltou. Em seu lugar, apenas os clientes habituais, reclamando do frio e da colheita ruim.

Quando finalmente chegou a hora de fechar, Kai insistiu em me levar até a porta de casa, algo que ele raramente fazia. O trajeto foi silencioso. A floresta que cercava a estrada parecia mais densa naquela noite, os galhos das árvores se contorcendo como dedos esqueléticos contra o céu nublado.

- Entre e tranque tudo - ordenou Kai assim que paramos em frente ao meu pequeno chalé. - Não abra para ninguém. Nem para mim, a menos que eu use o sinal.

- O sinal? Kai, você está me assustando.

Ele apenas colocou a mão no meu ombro, um aperto firme que transmitia uma proteção quase possessiva.

- Só confie em mim, Ayla. O mundo não é o que você pensa.

Entrei e fiz exatamente o que ele pediu. Tranquei a porta, as janelas e fechei as cortinas. No entanto, o silêncio da casa parecia amplificar o barulho lá fora. O vento uivava nas frestas, e por um momento, jurei ouvir um som diferente. Não era o vento. Era um uivo longo, profundo e arrepiante que parecia vir do coração da floresta.

E, logo em seguida, um riso baixo, como veludo sobre pedra, ecoou bem atrás de mim.

- O lobo é muito zeloso, não acha?

Girei nos calcanhares, o coração martelando contra as costelas. No canto mais escuro da minha sala, onde a luz da lua mal chegava, Dorian estava parado. Ele não tinha arrombado a porta. Ele simplesmente estava lá, como se tivesse se materializado das próprias sombras.

- Como você entrou aqui? - minha voz falhou.

Ele deu um passo à frente, a luz pálida revelando seu sorriso enigmático. Ele não parecia um invasor; parecia um dono voltando para casa.

- Portas e trincas são para aqueles que pertencem ao mundo físico, Ayla - ele sussurrou, a distância entre nós diminuindo perigosamente. - Mas você... você não pertence totalmente a ele, não é? Eu sinto isso. O santuário na sua mente está vibrando.

Ele estendeu a mão, não para me tocar, mas para sentir o ar perto do meu rosto.

- O que você quer? - consegui perguntar, sentindo o calor do meu próprio sangue subir à pele, contrastando com o gelo que emanava dele.

Dorian inclinou a cabeça, seus olhos dourados brilhando com uma curiosidade predatória.

- Quero saber por que, em dois séculos de existência, você é a única criatura cujo destino eu não consigo ler. E quero saber o que vai acontecer quando o seu sangue finalmente despertar.

Antes que eu pudesse gritar ou fugir, ele desapareceu. Não houve movimento, apenas um piscar de olhos e a sala estava vazia novamente. Mas o cheiro dele - sândalo e chuva - ficou impregnado no ar.

Eu corri para a janela e a abri, procurando por qualquer rastro. Lá fora, na borda da floresta, vi dois pontos brilhantes nos observando. Não eram âmbar como os de Dorian. Eram de um verde esmeralda intenso, selvagens e alertas.

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