O cheiro dela estava impregnado em cada centímetro daquela biblioteca. Chuva, terra molhada e algo doce, como flores silvestres que só crescem no auge da primavera. Era um aroma que eu nunca deveria ter sentido, um aroma que meu lobo reconheceu no instante em que ela cruzou o batente da porta.
COMPANHEIRA.
A voz do meu lobo rugiu dentro da minha mente, uma força selvagem tentando romper as correntes do meu autocontrole.
Eu queria ignorar. Eu precisava ignorar. Eu passei trinta e dois anos construindo um império baseado na lógica e no sangue, acreditando que o "laço de alma" era uma lenda para lobos fracos que precisavam de uma desculpa para serem guiados pelas fêmeas.
E agora, o destino, ou o azar de um apostador desgraçado como o pai dela, jogava Aurora Frost no meu colo.
Eu a observei enquanto ela subia as escadas com Kael. Ela tentava manter a postura, a cabeça erguida, mas eu via o tremor sutil nos seus ombros. Ela estava com medo. E o pior: o cheiro do medo dela me dava vontade de destruir qualquer coisa que a fizesse se sentir assim, inclusive a mim mesmo.
- Você está perdendo o controle, Dom - a voz de Kael me trouxe de volta à realidade enquanto ele descia as escadas, alguns minutos depois. - O seu rastro está tão pesado que até os humanos lá fora devem estar sentindo.
- Cale a boca, Kael - rosnei, sem olhar para ele. Eu estava parado no pé da escada, minhas mãos fechadas em punhos tão apertados que minhas garras cortavam a palma da minha pele. - É apenas o contrato. Eu preciso de um herdeiro e ela é a ferramenta. Nada mais.
- Uma ferramenta que cheira a parceira de alma? - Ele parou ao meu lado, a voz baixa e séria. - Você sabe o que isso significa. Se você não a marcar, se você tentar lutar contra isso, o seu lobo vai acabar enlouquecendo. E ela... ela é uma Ômega, Dom. Ela não vai aguentar a pressão de um Alfa Supremo se você não der a ela a proteção do laço.
- Ela não terá marca nenhuma - sentenciei, voltando para a sala de jantar onde Sasha me esperava. - Eu não vou me tornar escravo de um instinto. Ela cumpre o contrato e vai embora. É o melhor para ela e para a alcateia.
Mas a teoria era muito mais fácil que a prática.
Durante o jantar, ver Sasha destilar veneno sobre Aurora me deu uma náusea que eu mal conseguia esconder. Sasha era a escolha lógica. Poderosa, filha de um aliado, uma loba que sabia lutar. Mas quando ela encostou no meu braço, eu senti uma repulsa imediata. Minha pele queimava para ser tocada pelas mãos trêmulas da Ômega sentada à minha frente, não pelas unhas afiadas de Sasha.
Quando Aurora respondeu à altura, um lampejo de orgulho atravessou meu peito. Ela tinha fogo. Debaixo daquela fachada de fragilidade, havia uma mulher que não se dobrava facilmente. E foi ali, vendo o brilho de desafio nos olhos dela sob a luz do lustre, que eu soube que estava perdido.
Expulsei Sasha com uma fúria que até eu desconhecia. Eu precisava que ela saísse antes que meu lobo decidisse que o desrespeito dela com a nossa companheira merecia uma punição sangrenta.
Agora, eu arrastava Aurora pelo corredor em direção ao meu quarto. O pulso dela era fino sob meus dedos, a pele macia como seda. O toque enviava descargas elétricas pelo meu braço, fazendo meu sangue ferver. Eu estava agindo como um bruto, eu sabia, mas era a única forma que eu conhecia de esconder o fato de que eu queria cair de joelhos e esconder o rosto no pescoço dela.
Abri a porta do meu quarto com um chute e a puxei para dentro, depois a fechei com força excessiva.
Aurora se soltou do meu aperto, cambaleando para trás. Ela me olhava com uma mistura de pavor e indignação.
- Você não pode simplesmente me arrastar assim! - ela gritou, a voz falhando. - Eu assinei um contrato, não uma sentença de escravidão!
- Você assinou um contrato para me dar um herdeiro, Aurora - eu disse, minha voz saindo mais rouca do que o normal. Eu comecei a caminhar em direção a ela, desabotoando os botões da minha camisa branca. - E eu não tenho paciência para jogos. Se vamos fazer isso, faremos agora.
- Agora? - Ela recuou até bater as costas na parede. - Eu acabei de chegar! Eu nem conheço você!
- Você não precisa me conhecer para engravidar - retruquei, parando a centímetros dela. O cheiro dela aqui, no meu território, era uma tortura. Eu podia ouvir o coração dela batendo rápido, como o de um pássaro enjaulado. - O contrato começa no momento em que a tinta seca. E o meu tempo é caro demais para ser desperdiçado com preliminares que não significam nada.
Eu apoiei as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a. Eu podia ver o brilho das lágrimas nos olhos dela, e aquilo cortou meu peito como uma faca. Mas eu não podia recuar. Se eu fosse gentil, se eu mostrasse a ela um pingo de humanidade, eu acabaria contando a verdade. E se eu contasse que ela era minha companheira, eu a condenaria a uma vida de ser o alvo número um de todos os meus inimigos.
Eu preferia que ela me odiasse e estivesse segura, do que me amasse e morresse por causa disso.
- Olhe para mim - ordenei.
Ela hesitou, mas acabou erguendo o rosto. Aqueles olhos... eles me despiam de toda a minha autoridade.
- Você me odeia tanto assim? - ela sussurrou, uma única lágrima escorrendo pelo seu rosto.
Aquela pergunta quase me destruiu. Eu não odeio você, Aurora. Eu odeio o fato de que eu morreria por você sem pensar duas vezes.
Em vez de responder, eu me inclinei e capturei os lábios dela em um beijo que não tinha nada de carinhoso. Era faminto, desesperado, uma explosão de necessidade reprimida. Eu esperava que ela lutasse, que me empurrasse, mas o que aconteceu foi pior.
No momento em que nossas bocas se tocaram, um uivo mudo ecoou por todo o meu ser. A conexão foi instantânea e devastadora. Aurora soltou um gemido baixo contra a minha boca e, por um segundo, suas mãos subiram para o meu peito, agarrando o tecido da minha camisa.
Eu a peguei no colo, sem quebrar o beijo, e a joguei sobre a cama. O vestido verde-esmeralda subiu pelas suas coxas, e a visão daquela pele pálida contra os meus lençóis escuros quase me fez perder a razão.
Eu me posicionei sobre ela, a vendo ofegar sob mim. Eu queria marcá-la. Meus caninos latejavam, implorando para perfurar a pele macia do seu pescoço e selar o que o destino já tinha decidido.
- Lembre-se, Aurora - eu disse, minha voz sendo apenas um rosnado animal enquanto eu enterrava meu rosto na curva do seu pescoço, sentindo o pulso dela acelerado. - Isso é apenas um negócio.
Eu puxei a alça do vestido dela para baixo, mas antes que eu pudesse avançar, um grito agudo de dor ecoou do lado de fora do quarto, seguido pelo som de algo pesado quebrando no corredor.
Eu parei instantaneamente, meus sentidos de Alfa entrando em alerta máximo. Aurora se encolheu, cobrindo-se com os braços.
- Fique aqui - ordenei, me levantando da cama e sacando a arma com bala de prata que sempre mantinha na gaveta da mesa de cabeceira.
Abri a porta do quarto com um solavanco e vi Maya caída no chão, com o rosto ensanguentado, enquanto dois homens encapuzados tentavam arrombar a porta do final do corredor.
- Dominic! - Aurora gritou atrás de mim, tentando sair do quarto.
Eu a empurrei de volta e apontei para o chão.
- Tranque a porta e não saia por nada! - gritei, antes de disparar contra o primeiro invasor.