O som do tiro ecoou pelas paredes de mármore como um trovão, fazendo meus ouvidos zumbirem. Eu estava paralisada no meio do quarto, com o vestido verde esmeralda desalinhado e o coração batendo tão forte que parecia que ia rasgar minhas costelas.
- Tranque a porta! - o grito de Dominic foi uma ordem absoluta, carregada com o poder de um Alfa que não aceitava desobediência.
Eu tropecei até a porta e girei a chave, minhas mãos tremendo tanto que o metal da fechadura rangeu. Encostei as costas na madeira fria e escorreguei até o chão, abraçando meus joelhos. O silêncio que se seguiu ao tiro foi pior do que o barulho. Então, o caos estourou do outro lado.
Rosnados profundos, o som de carne sendo rasgada e vidros se estilhaçando. Eu nunca tinha ouvido um lobo lutar de verdade. Na minha alcateia de origem, as coisas eram resolvidas com discussões e dívidas, mas aqui... aqui era o mundo selvagem dos Volkov.
- Maya... - sussurrei, lembrando-me da garota caída.
A culpa me atingiu como um soco. Ela estava lá fora, ferida, talvez morrendo, enquanto eu estava trancada em uma gaiola de luxo. Eu não podia ser aquela Ômega inútil que todos diziam que eu era. Não hoje.
Olhei ao redor do quarto, procurando qualquer coisa que servisse de arma. Meus olhos pararam em um pesado atiçador de ferro ao lado da lareira. Levantei-me, ignorando o tremor nas pernas, e o empunhei.
Um estrondo violento sacudiu a porta atrás de mim. Algo ou alguém tinha sido arremessado contra ela.
- Dominic? - chamei, a voz embargada.
Não houve resposta, apenas o som de um rosnado que não parecia humano. A maçaneta começou a girar. Primeiro lentamente, depois com fúria. Quem quer que estivesse do outro lado estava tentando forçar a entrada.
A madeira da porta começou a estalar sob a pressão. Eu recuei, segurando o atiçador com as duas mãos. Eu não tinha uma loba para me defender, não tinha garras ou presas, mas tinha o puro desespero de quem não aceitaria ser uma vítima duas vezes no mesmo dia.
A porta cedeu com um estondo, as dobradiças saltando. Um homem enorme, com o rosto coberto por uma máscara de couro e os olhos brilhando em um amarelo doentio, entrou no quarto.
Ele exalava um cheiro podre, de carne estragada e magia negra. Um lobo renegado.
Ele parou, olhando para mim com um desprezo evidente.
- Então é você a pequena noiva de papel? - a voz dele era um arrasto áspero. - O Alfa Supremo tem um gosto bem... frágil.
- Saia daqui - eu disse, tentando manter a voz firme, embora o atiçador pesasse toneladas nas minhas mãos.
Ele riu, um som seco que me deu náuseas. Ele deu um passo à frente, e eu não pensei. Eu avancei. Girei o ferro com toda a força que tinha, mirando na cabeça dele. Ele desviou com uma agilidade sobrenatural, segurando o atiçador no ar e o arrancando da minha mão como se fosse um brinquedo.
Ele me empurrou contra a parede, sua mão enorme apertando meu pescoço. O ar começou a faltar. Meus pés saíram do chão e eu lutei, arranhando os braços dele, mas era como arranhar rocha.
- Você vai ser uma ótima moeda de troca, gracinha. Se o Volkov não quiser pagar, eu vou adorar ver que gosto você tem.
As bordas da minha visão começaram a escurecer. Meus pulmões ardiam. Foi então que um som que eu nunca esquecerei rasgou o ar. Não era um rosnado, era um rugido de guerra que fez o próprio chão tremer.
O vulto que atravessou a porta era uma massa de fúria e músculos pretos. Dominic não estava mais em sua forma humana. O lobo dele era gigante, maior do que qualquer livro já descreveu, com pelos negros como a noite e olhos que brilhavam em um cinza incandescente.
Antes que o invasor pudesse reagir, o lobo de Dominic saltou. As mandíbulas se fecharam em volta do ombro do renegado, arremessando-o para o outro lado do quarto como se ele fosse um boneco de pano.
Eu caí no chão, tossindo e tentando recuperar o fôlego. Dominic não parou. Ele estava em cima do homem, um borrão de dentes e garras. Não era uma luta, era uma execução.
O som da coluna do invasor se partindo ecoou pelo quarto, e logo o silêncio retornou, interrompido apenas pela respiração pesada e animal do lobo.
Eu me encolhi contra a parede, observando a criatura magnífica e aterrorizante à minha frente. O lobo se virou para mim, o focinho sujo de sangue. Por um segundo, o terror me dominou. Ele parecia ter perdido a consciência humana, entregue totalmente à fera.
Ele caminhou em minha direção, os passos pesados fazendo as tábuas do chão rangerem. Ele parou a poucos centímetros de mim. Eu conseguia sentir o calor imenso que emanava de seu corpo. Ele baixou a cabeça, o nariz úmido tocando o meu pescoço, exatamente onde o renegado tinha me apertado.
Ele soltou um som baixo, um lamento que vibrou dentro do meu peito. E então, ele começou a lamber o local machucado, um gesto de cuidado tão primitivo e intenso que minhas lágrimas finalmente caíram.
- Dominic... - sussurrei, encostando minha mão na pelagem densa do seu pescoço.
A pelagem começou a retrair, os ossos estalaram e voltaram ao lugar em uma transformação rápida e dolorosa. Em segundos, Dominic estava ali, nu, coberto de sangue que não era dele, ajoelhado entre minhas pernas e segurando meu rosto com as mãos trêmulas.
- Você está ferida? - a voz dele estava rouca, desesperada, sem qualquer traço da frieza de minutos atrás. - Aurora, olhe para mim! Ele te tocou em mais algum lugar?
Eu balancei a cabeça, incapaz de falar. Ele me puxou para um abraço apertado, escondendo o rosto no meu ombro. Eu conseguia sentir o coração dele martelando, tão rápido quanto o meu.
- Eu vou matar todos eles - ele rosnou contra a minha pele. - Vou queimar cada alcateia que ousar respirar o seu nome.
Ele se afastou um pouco, seus olhos ainda oscilando entre o cinza humano e o brilho do lobo. Ele olhou para a porta aberta, onde Kael apareceu, também ensanguentado, mas vivo.
- Maya está bem? - perguntei, minha voz saindo num fio.
- Ela está viva, Luna - Kael respondeu, ofegante. - Levou um golpe feio, mas o médico já está com ela. Limpamos o corredor. Eram renegados do Sul.
Dominic se levantou, a frieza voltando ao seu rosto como uma máscara de ferro, mas ele não soltou minha mão. Ele se virou para Kael com um olhar que prometia morte.
- Avise ao pai da Sasha. Se eu descobrir que ela teve um dedo nisso, eu não vou apenas cancelar o acordo comercial. Eu vou apagar a linhagem Petrov do mapa.
Ele se voltou para mim, a intensidade no olhar me fazendo estremecer.
- O contrato mudou, Aurora.
- Mudou? Como assim? O que isso quer dizer? - perguntei, sentindo que o chão ainda não estava firme.
Dominic se inclinou, sua mão subindo pela minha nuca, me puxando para perto até que seus lábios estivessem a milímetros dos meus.
- Você não vai sair deste quarto sem a minha marca. O mundo acabou de descobrir que você é meu ponto fraco, e a única forma de te manter viva é deixando claro que, se alguém te tocar, estará declarando guerra ao próprio inferno.
Ele me pegou no colo e me levou em direção ao banheiro, mas antes que eu pudesse protestar, o som de um uivo distante e poderoso veio da floresta, um uivo que fez minha pele queimar com um calor que eu nunca tinha sentido antes.
Minha visão oscilou e uma voz feminina, antiga e poderosa, ecoou dentro da minha mente pela primeira vez na vida:
"O Supremo não é o único que eles querem, pequena loba. Eles sentiram o cheiro do ouro nas suas veias."
- Dominic... - eu tentei dizer, mas minha cabeça pendeu para o lado e tudo escureceu.