- Olha, não dá! - disse o moreno afastando o computador de sua frente, estava cansado e sem nenhuma ideia. - Eu agradeço a sua ajuda, Shin, mas não posso falar sobre casamento se nunca fui casado antes.
- Cada casamento é diferente um do outro, não existe nenhum padrão entre eles, você só vai saber como funciona a cabeça de uma esposa se tiver a sua - o asiático respondeu meio distante, ainda estava pensando no que sua esposa tinha dito antes dele sair de casa, algo como "traz leite" ou coisa do tipo.
Shin era descendente de japoneses que vieram para o Brasil em meados de 1970, seu nome de batismo era Joel Yuzuyu, mas sempre detestou esse nome mais do que qualquer coisa, Shin era seu nome de guerra. Era amigo de Rafael desde a infância, quando foram vizinhos de porta e sempre compartilhara dos desejos de Rafael se tornar um escritor, enquanto o mesmo ainda estava na faculdade.
- Tem razão, não posso escrever nada enquanto não for um homem casado. Tenho que resolver esse detalhe logo!
- Do jeito que você falou, parece até que vai se casar só pra saber como é estar casado. - Shin até riu do que ele mesmo havia dito, era loucura demais só de pensar nisso.
Os olhos do moreno estavam brilhando de tão animado que havia ficado, ele até se levantou da cadeira e olhou para o japonês com aquela cara que ele fazia antes de meter a ele mesmo em alguma confusão, daquelas grandes, inclusive.
- Ótima ideia! - o moreno disse. - Se eu me casar vou finalmente poder entender tudo, claro, por que não pensei nisso antes?
- Você é maluco!
- Mas isso é perfeito, Shin, se eu me casar agora, em um ano já terei o suficiente para concluir o meu livro, 12 meses é tempo suficiente para estudar o que se passa na cabeça delas e descobrir a forma certa de lidar com a esposa, eu devo isso a todos os homens casados dessa cidade! - Ele parecia mais animado ainda com a ideia, estava quase subindo em cima da mesa.
- É sério que vai mesmo fazer isso? - O japonês ainda não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
- Claro que vou, é perfeito, vou finalmente dar ao homem a receita certa para um casamento perfeito! - Ele era assim mesmo, muito positivo, mal sabia o que realmente iria acabar acontecendo, Shin olhava pra ele imaginando a furada que o amigo estava se metendo.
- Com a sorte que você tem, vai acabar se casando com uma maluca, escreve o que eu tô te dizendo.
[...]
Os dias se passaram, mas a ideia maluca de se casar não saiu da cabeça de Rafael, Shin já estava começando a pensar na ideia de internar o amigo, pois ele não podia estar em sã consciência, não mesmo. Rafael estava preparando tudo, já tinha até falado com o juiz que realizaria seu casamento, ele queria fazer tudo nos conformes, com direito até a viajem de Lua de Mel, já tinha até mesmo escolhido que bufê contrataria para a festa após o casamento.
- Vai mesmo fazer isso, Rafa? - já era a décima vez que o japonês fazia a mesma pergunta, mas ele ainda tinha esperanças de que a resposta do amigo mudasse.
Quem sabe um "Claro que não, era só brincadeira", ou talvez um "Tinha perdido o juízo, obrigado por me trazer a luz da sabedoria, jovem mestre sábio".
- Eu já disse que vou! - o moreno repetiu mais uma vez a sua resposta, ele estava mais inabalável do que uma montanha, dessas que as pessoas morrem quando tentam subir nela, parecia que nada no mundo o faria mudar de ideia.
O jovem Yuzuyu soltou o ar dos pulmões e se sentou em um sofá qualquer da sala, enquanto esperava Rafael arrumar a gravata, estavam ambos se aprontando para um jantar beneficente, muitos escritores famosos estariam presentes naquela noite e, Rafael apareceria na esperança de conhecer alguma mulher interessante e tão dedicada pela escrita de bons livros quanto ele, que o ajudasse a resolver seu bloqueio quanto a essa questão.
Ou simplesmente encontrar uma mulher maluca o suficiente para aceitar essa loucura.
- Vamos nessa? - chamou, ele estava muito animado, chegava a assustar.
- Tem certeza de que não quer desistir dessa loucura? - Shin podia até ser insistente, mas o escritor era ainda mais teimoso.
- Não vou desistir! - o moreno cantarolou sua resposta enquanto tomava rumo à porta de saída.
O Yuzuyu já estava pensando em ligar para algum sanatório e pedirem para trazer uma camisa de força, porque pelo visto, o mundo tinha perdido Rafael Rocha e toda a sanidade que lhe restava, ele já tinha tudo pronto para se casar, só faltava agora a noiva.
E não teve conversa no caminho que mudasse a opinião do rapaz, nada nem ninguém o fazia tirar isso da cabeça, ele estava tão entusiasmado que nem disfarçava o seu olhar em todas as mulheres que entravam e saiam no salão de festas.
Ambos estavam sentados em uma das mesas do lugar, era um espaço muito amplo, onde centenas de escritores, de grandes e pequenos nomes, se uniam com o intuito de angariar fundos para a compra de novos livros para a biblioteca municipal e para as escolas de todo o estado. Além dos escritores, também estavam ali professores, bibliotecários e diretores, juntos enchiam o salão com a sua diversidade de cores.
- Olha, aquela ali parece ser bastante interessante - Rafael dizia, sem disfarçar, apontando para uma mulher de cabelo laranja que passava acompanhada de um homem careca. O amigo quase jogou um copo de água no outro.
- Aquela é a esposa dele, idiota!
- Será que é tão difícil assim encontrar uma mulher solteira nesse lugar? Nesse ritmo não vou encontrar uma esposa nunca!
E ele não tinha ideia de como o mais velho torcia para que ele não arranjasse mesmo. Rafael parecia uma criança escolhendo o brinquedo novo que vai levar para casa, ele parecia não entender como um casamento era algo sério e, se feito de forma errada com a pessoa errada, poderia acarretar completa infelicidade para os dois.
Mas o especialista em mulher ali era ele, o que um pobre japonês poderia fazer em uma situação como aquela? Rafael não era um homem que costumava se aproveitar das mulheres, ele era legal, mesmo que fosse um tanto sem limites quanto as suas obras literárias. Rafael Rocha era formado em sociologia e dedicava seus dias a entender o sexo oposto, escrevia livros, além disso também dava palestras para homens sobre como deveriam tratar as mulheres, seu lema era "Ela não é sua, ela pertence a si mesma".
Ele era o tipo de cara que assistia Cidade Alerta e ficava horrorizado com casos de feminicídio, até chorava diante do que chamava de "a degradação do homem", onde uma parcela dos seres de sexo masculino se achava no direito de se sentir dono de alguém, mulher não era objeto para pertencer a alguma pessoa.