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The Storm
img img The Storm img Capítulo 3 The visit from uncle Martin
3 Capítulo
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Capítulo 3 The visit from uncle Martin

Com os olhos abrindo em piscadelas, olho ao redor e, pela iluminação amarelada, tenho certeza que estou na enfermaria. A primeira visão que tenho é da Dona Mirtes de costas remexendo uma maleta de remédios perto de uma maca vazia ao lado da qual estou deitada. Apesar de ser uma senhorinha grisalha com seus setenta e poucos anos de vida, Dona Mirtes adora andar de lá para cá, e é assim desde que entrei nessa escola, me lembro dela exatamente com a mesma face, sempre do mesmo jeito: com sua sagrada farda de enfermeira, sapatinhos de pano, pouquíssimas palavras e muitos remédios.

-Ai, Lia, que bom que acordou. – diz Susan, alertando também Natan, que estava sentado na poltrona bege ao meu lado rodopiando um caderninho de anotações na palma da mão aberta.

-Como que eu vim parar aqui? – pergunto, sentando na maca pouco a pouco, massageando o galo que se formou atrás da minha cabeça.

-Por sorte, fui ao banheiro e te encontrei. Se demorasse um pouco mais pra acordar, te levaríamos pro hospital, mas a Dona Mirtes falou que não era nada sério. O que aconteceu? – pergunta Susan, recebendo um esboço de sorriso singelo de Dona Mirtes, enquanto massageia minha mão como se eu estivesse com uma doença em estado terminal. Susan e seu eterno drama.

Como não quero preocupar ninguém, respondo:

-Não foi nada, talvez seja só estresse acumulado, não sei.

-Bom, ainda bem que você acordou pra saber de uma notícia que vai te deixar bem alegrinha. – diz Natan, todo misterioso, tomando liberdade de se sentar ao meu lado na maca enquanto passa seu braço pelo meu ombro para um abraço de lado.

Dona Mirtes, ao vê-lo fazendo mais peso do que o necessário na maca, enrola uma revista fina e acerta numa intensidade fraca na perna de Natan, que levanta na hora e entende o recado ao ficar de pé perto de mim. Nós três rimos.

-Qual é, Natan? Deixa ela se recuperar primeiro, depois você conta isso. – diz Susan, de olho nos medicamentos que Dona Mirtes está separando para mim.

Eu logo fico desconfiada, pois os dois, mais do que ninguém, sabem que eu detesto qualquer tipo de misteriozinho que tire minha paz. Semicerro os olhos e ordeno:

-Ah, não. Agora que começou vai ter que terminar. Anda, desembucha. – cutuco o braço de Natan com meu cotovelo.

Ele dá de ombros para o que Susan diz, revela um sorrisinho forçadamente maldoso e conta:

-Tá todo mundo comentando que a Megan vai ser auxiliar de cozinha pela semana inteira. Ela aprontou alguma coisa, até agora ninguém sabe, mas a ira do Williams veio com tudo.

Quase comemoro pelos velhos tempos de rivalidade, contudo me lembro da postura medrosa dela na diretoria, como uma criancinha assustada, dessa forma, resolvo me manter neutra, pelo menos por enquanto, ainda mais porque o que eu disse a ela perto do armário foge completamente do meu caráter, e não estou contente por ter deixado a raiva falar mais alto:

-E por que eu ficaria feliz por isso? Ela que se resolva pra lá. – digo, me levantando da maca.

Susan se surpreende na mesma hora em que desfaço da situação de Megan. Ela corre em minha direção, mede a temperatura da minha testa com a costa de sua mão direita e diz para Dona Mirtes:

-O caso dela é sério, a senhora pode separar uma dose do remédio mais forte que tiver por essa maletinha de primeiros socorros.

Retiro a mão de Susan de mim e rio:

-Quem vai ficar feliz mesmo é o time de futebol, não é, Natan? – brinco, já que quase todo o time de futebol americano arria os quatro pneus por ela.

Natan revira os olhos e vem me seguindo. Antes que eu possa sair da enfermaria, Dona Mirtes me traz alguns medicamentos amargos que são engolidos com a ajuda de um copo cheio de água gelada, sem mais esperar, caminho em passos lentos pelos corredores. Para minha sorte, depois do desmaio dormi por tanto tempo que perdi todas as aulas que ainda me restavam.

-E então, o que a gente vai fazer agora? Eu pensei da gente ir no Johnny Hot Dog. Esse treino me deu tanta fome que sou capaz de engolir uns sete hot dogs de uma só vez. E pra não engasgar, peço um milk shake do tamanho de um... – Natan se anima tanto que começa a fazer combinações de sanduíche com milk shake, e Susan apoia todas as suas loucuras gastronômicas.

Quando penso em falar a minha opinião a respeito e até montar o meu próprio combo maluco, paraliso na mesma hora e lembro num susto:

-Minha nossa, esqueci do Petter!

Natan e Susan se entreolham e dizem na mesma hora:

-Tá bom, vamos buscá-lo, ele vai com a gente.

-Não, não, ele já deve estar bufando de raiva só por eu ter esquecido nosso sorvete depois da aula, imagine se pensar que eu esqueci dele porque estava com outros amigos. Eu preciso ir. A gente marca essa nossa saída pra outro dia. – digo, dando um abraço em cada um enquanto me distancio sem mais muito falatório.

-Espera aí, Lia, tem certeza que você já tá bem pra andar rápido assim? – pergunta Susan, parada perto de Natan enquanto eu ando cada vez mais apressada e respondo com as costas viradas, com o dedão erguido em afirmação:

-Sim! Até amanhã.

Sem mais estar sob o olhar vigilante de Natan e Susan, corro o mais rápido que posso e, com a economia de alguns minutos, chego e vejo Petter sentado em um banco de concreto em frente ao estacionamento de sua escolinha, sozinho, com a face emburrada que só piora conforme me aproximo. Ele cruza os braços e, se pudesse, jogava raios lasers em mim pelos olhos serrados.

-Petter, me desculpa, eu...

-Não, Lia, você tá atrasada. – responde em birra, virando o rosto para o outro lado, cruzando os braços o mais apertado que pode para demonstrar sua indignação.

Nunca fui muito boa em negociar com crianças, principalmente quando se trata de Petter, sorvete e praça numa mesma frase. Respiro fundo, fico na mesma altura que ele e tento:

-Ah, Petter, não foi porque eu quis, por favor. Você me perdoaria se eu dissesse que amanhã eu cumpro o prometido? E vai ser bem melhor do que seria hoje. O que acha?

Ele demora uns dez segundos até balançar a cabeça em afirmação, ainda chateado, mas não o suficiente para recusar a proposta de um sorvete e uma surpresa de brinde.

Ele se levanta aos poucos e vai chutando uma pedrinha a sua frente até que caia numa vala perto. Eu, ainda não satisfeita de tê-lo feito esperar tanto, o agarro de lado, beijo o centro de sua cabeça e fico contente ao ver um sorrisinho tomando conta dos finos lábios do garotinho que solta até uma pequena gargalhada com as cosquinhas que eu faço.

Venci!

O caminho de casa é todo silencioso. No horizonte o dia começa a desaparecer e as nuvens negras chegam e ameaçam descarregar uma boa chuva grossa em algumas horas, o que significa que se não apertarmos os passos chegaremos em casa encharcados, embora não seja uma má ideia pegar um resfriado e faltar alguns dias de aula. Olho para Petter ao meu lado e repenso: não seria legal vê-lo resfriado por um ato irresponsável meu, dessa forma, continuamos seguindo depressa.

O tempo fecha cada vez mais, e meu medo de chegarmos em casa molhados só aumenta. De repente, uma brisa forte sopra e farfalha os galhos das árvores plantadas pelas calçadas que se balançam irregularmente, resultando num som agradável de natureza agitada. Algumas folhas, pela intensidade do vento, até caem e se espalham pelas ruas.

Com pressa nos passos, seguro a mão de Petter e o puxo para andarmos com mais velocidade, para minha sorte ele não reclama.

Ao virarmos na esquina da rua principal, noto uma aglomeração com cinco rapazes reunidos num montinho perto de um Mustang 98 estacionado rés ao meio-fio, em frente a uma lojinha de conveniência fechada. Eles têm mais ou menos a minha idade, riem e gritam como se estivessem se divertindo com algo que está no meio da roda conturbada que eles formam.

Preocupada com o que pode ser, recuo alguns passos para trás, afinal de contas, Petter está comigo e uma reunião com cinco homens que mais gritam do que falam não pode ser algo bom.

Olho para o céu, só consigo pensar na chuva que ameaça descer em tempestade a qualquer momento.

-Lia, vamos embora. A gente vai se molhar. – diz Petter, puxando minha mão para que nós continuemos nossa caminhada, já que nossa casa está tão perto, e assim eu obedeço. Com cautela, resolvo posicionar Petter ao meu lado direito, seguro forte em sua mão e agradeço em silêncio que, enquanto a turma masculina da algazarra está do lado esquerdo da rua, eu e Petter estamos no direito.

Tento apenas passar escondida pelos carros estacionados sem fazer questão de olhar para o que seja lá que estejam fazendo, repito para mim mesma que não é da minha conta.

- Por favor, cara, não faz isso! Eu já devolvi o bagulho, mano. Por favor, eu juro que não faço de novo!

Qualquer morador de Ohio reconheceria o dono dessa súplica medrosa e temente, até se fosse um sussurro.

Em desobediência a mim mesma, resolvo olhar para a esquerda e averiguar a situação.

No meio do grupinho de homens escandalosos está Kurt, um menino de quinze anos, um tanto conhecido na cidade por cometer alguns pequenos furtos para sustentar as necessidades de sua mãe portadora de câncer. Quase todo mundo sabe disso, e por ter essa fama que grudou em seu nome como cola permanente, se recusam a oferecer um trabalho digno ao garoto. Algumas entidades doam ranchos de comidas, alguns remédios e outros pertences, mas convenhamos que as ajudas são instáveis: alguns meses têm muito, outros meses não têm nada.

Ainda implorando piedade, Kurt soluça:

-Por favor, por favor, por favor... Desculpa, cara...

Eu sei que deveria ir embora, me esgueirar pelos carros estacionados, passar direto escondida sem ser percebida e fingir que nada está acontecendo, mas não deixo de lembrar que uma vez tive a oportunidade de conversar com Kurt, foram somente alguns minutos, e ainda assim pude ver que ele é apenas uma criança que se sente responsável pela vida da mãe, até porque os dois só tem um ao outro.

-Eu vou te desculpar, sim, pode ficar tranquilo. – diz o rapaz loiro e musculoso de regata branca, cuspindo cada palavra tão perto do rosto de Kurt que, se aproximasse mais, sairia um beijo. O agressor o encurrala contra a parede com uma mão no pescoço e a outra pressionando o meio de seu peito. -Ô, Johnny, traz o perdão dele aí. – finaliza com uma risada maliciosa.

Enquanto o cara de regata toma conta para que Kurt não fuja, dois guardam os lados, o quarto rapaz busca algo dentro do carro e o quinto só se escora no capô do Mustang vermelho, fingindo que a cena violenta não está acontecendo, de braços cruzados e tragando um cigarro, uma baforada atrás da outra.

-É essa aqui, Jack? – pergunta o intitulado Johnny, o encarregado de pegar algo no carro que volta ao grupinho com uma barra de ferro com pelo menos trinta centímetros de comprimento e grossa em espessura.

-É, essa mesma. Vem aqui. – sorri Jack, retirando sua mão do peito de Kurt para receber o que Johnny traz com tanto orgulho.

Estou com tanto medo que não consigo me mexer. Agarro firme a mão de Petter e o escondo cada vez mais atrás de mim, nem sei como ninguém ainda não me viu parada, e, me aproveitando disso, me escondo atrás de um carro que está estacionado do meu lado da rua.

-Lia, eu tô com medo. – sussurra Petter, bem encolhido atrás de mim.

Eu respondo no mesmo tom baixinho:

-Calma, a gente já tá quase perto de casa. Vamos deixar eles irem embora primeiro.

É impossível não escutar as pedidas de Kurt para que o soltem, prometendo que não fará de novo seja lá o que ele tenha feito.

Escondida atrás do carro, espio por cima do capô a cena, e vejo o tal do Jack erguendo a barra de ferro na altura do rosto melado de lágrimas e coriza de Kurt, que grita:

-Não, não, não, não, não... Por favor, por favor, por favoooor... – sua voz oscila entre fina e grossa, quase rouco do tanto chorar.

Meu coração se comprime dentro do peito, rezo para que alguma viatura passe ou qualquer outra pessoa para dar um basta nessa situação horrível, mas hoje a rua tirou um tempo para ficar completamente deserta.

O que mais me surpreende é o quanto são desinibidos, pois por mais que a noite esteja quase caindo e o temporal feche o céu em nuvens negras, eles não se importam em fazer o que estão fazendo em plena rua perto de uma avenida movimentada.

-Lia... – choraminga Petter, repuxando a bainha do meu moletom.

-Xiiiii... – peço a ele, que volta a ficar quietinho.

Jack, já com a barra de ferro em mãos, diz com convicção:

-Eu vou deixar uma marca nessa tua cara de bandido, seu filho da puta. Vai aprender a nunca mais roubar de ninguém, principalmente de mim.

Em questão de milésimos, vendo Jack tomar impulso no braço cuja mão segura a barra de ferro, me sinto agoniada, principalmente quando vejo os olhos castanhos claros de Kurt arregalarem numa expressão mesclada de medo e espanto, enxergando tão de perto o que seria a pior dor de sua vida, e que provavelmente marcaria seu rosto para sempre:

-PARA!!! – grito, revelando minha posição atrás do carro.

A minha intenção era parar a cena sangrenta que sucederia no ato do violento Jack, mas não pensei o que faria depois disso.

Fico parada, enquanto os cinco olham para mim, inclusive Kurt, que deixa nítido em seu peito sua respiração ofegante.

Com uns cinco segundos de distração, Kurt aproveita para se desvencilhar de Jack e, então, pelo seu próprio bem, corre a corrida mais rápida de toda vida, se metendo pelos becos que ele conhece de cor e salteado. Num piscar de olhos, Kurt some da vista de todo mundo.

Todos estão olhando para mim, mas Jack me fuzila com os olhos, dá um soco na parede a qual Kurt estava sendo esmagado e agora não está mais porque fugiu, e a culpa é toda minha.

Em insatisfação, Jack penteia os cabelos com os dedos, jogando-os para trás, seguido de um bufo de raiva e os olhos arregalados cravados em mim.

Mantenho Petter escondido atrás do carro, enquanto eu sou a única que chama a atenção.

-Viu só o que você fez? Ele fugiu! – diz Jack, verificando os dois lados da rua antes de atravessar, fingindo paciência e um sorriso.

Enquanto ele chega cada vez mais perto de mim, tão assustador como um cão prestes a atacar, recuo alguns passos para trás até encostar na parede. Em alguns segundos ele está a menos de um metro distante de mim.

-Eu... eu... – odeio o modo como gaguejo e pareço tão assustada e frágil, mas a presença dele é tão pesada que é quase impossível não se sentir acuada: os olhos verdes arregalados como um usuário contínuo de drogas, os cabelos loiros penteados para trás e molhados com o que pode ser gel ou suor, a julgar pela regata branca suja, não descarto a possibilidade de ser a segunda opção.

O céu está cada vez mais fechado pelas nuvens carregadas, formando um cenário macabro em que me encontro cercada por um cara sem escrúpulos, outros quatro do outro lado da rua apenas observando e Petter escondido atrás do quarto.

-Aquele trombadinha roubou algo que era meu, sabia? E eu ia fazê-lo pagar, íamos ficar quites e cada um ia seguir com sua vida normalmente. E aí... – Jack faz uma parada dramática, aproximando o rosto cada vez mais do meu, enquanto eu viro a atenção para o lado, evitando o contato do olho no olho. Me esforço para não tremular mais do que gostaria, não movo um músculo. -...você apareceu e cagou tudo. Que coisa, não? E agora, já que você meteu a fuça onde não foi chamada, alguém vai ter que pagar a dívida nessa porra. Quem será que vai ser, hein? – finaliza, tão perto de mim que posso sentir seu hálito de menta, provavelmente do chiclete que ele masca a cada pausa que faz para me analisar dos pés à cabeça.

Eu quero reagir, chutar as partes baixas, puxar Petter e juntos corrermos para bem longe, mas é mais difícil do que eu pensei que seria, principalmente quando posso colocar a vida de quem eu amo em perigo. Enquanto houver apenas ameaças, não faço nada, apenas respiro fundo e me mantenho parada.

-Jack, vambora. O Kurt fugiu, não tem mais nada pra gente aqui. – intervém o rapaz que estava escorado no Mustang e fumava como uma chaminé.

Enquanto impede Jack de fazer qualquer coisa, joga seu cigarro no asfalto e pisa na bituca sem mais utilidade.

De longe ele me olha sério, são dois olhos castanhos escuros que alternam a visão de Jack para mim, e pelo que parece, Jack escuta o que o possível líder tem para dizer, porém, não recua nem um milímetro, e retruca:

-É, ele fugiu porque essa puta apareceu e deu uma de heroína. Alguém tem que pagar, e nós sabemos quem é.

Vejo em câmera lenta as mãos de Jack se aproximarem da bainha do meu moletom, e numa fração mínima de tempo, planejo empurrá-lo e chutá-lo com tanta força entre suas pernas que comprometeria sua proliferação pelo mundo em até trinta e seis encarnações suas, mas Petter é mais rápido quando corre em direção a Jack, revelando sua posição e chutando a canela do agressor.

Jack urra pela dor causada pelo chute de Petter, volta sua atenção para baixo e vê aquele mini ser humano completamente furioso se colocando na minha frente como uma muralha protetora, enquanto diz:

-Deixa ela em paz, seu babaca!

Com medo de qualquer reação, na mesma hora posiciono Petter atrás de mim.

Jack, por sua vez, massageia a parte atingida e grita furioso:

-Então, tinha um cachorro escondido esse tempo todo? Eu vou mostrar o que eu faço com bichinho fedelho que nem você. – Jack parte em minha direção, já que estou posicionada na frente de Petter como uma tela inquebrável, agarra a gola do meu moletom e, prestes a fazer sabe Deus o quê, o mesmo rapaz do cigarro chama sua atenção, dessa vez com a voz mais grave e exclamativa:

-Jack, não tem mais nada aqui. Já deu!

-Taylor, ela precisa entender que...

-JÁ. DEU. – finaliza o rapaz, depois de atravessar a rua, puxar Jack para trás pela regata e ordenar olhando nos olhos do loiro agressivo.

Jack parece engolir sua vontade no seco, olha para mim e para Petter e quase nos mata apenas com o olhar esverdeado, arregalado e psicótico. Por fim, acata o que o rapaz – provavelmente de nome Taylor – pediu com autoridade.

Eles seguem em silêncio para o Mustang, sem dizer uma única palavra.

Pela primeira vez em tempos eu agradeço com veemência mentalmente por nada ter acontecido a mim e, principalmente, com Petter.

Taylor, o possível líder deles, abre a porta do motorista, enquanto Jack senta no banco do carona e os outros três vão atrás. Enquanto dirige o Mustang, dá meia volta, olha de relance para mim e por alguns instantes consigo analisar seus detalhes marcantes: a barba raspada, os lábios desenhados, olhos castanhos escuros sérios demais, ao mesmo tempo que têm um quê de mistério, uma mescla de vilão e mocinho, um paradoxo em forma de pessoa.

Tão rápido todos eles somem da nossa vista. Tudo o que consigo pensar é: Taylor, o nome dele é Taylor. Certamente não deveria agradecê-lo por fazer o mínimo, mas algo nele prendeu minha atenção, como se eu já o conhecesse tão bem. Não sei, talvez seja só o alívio por sair viva de uma situação de perigo extremo.

Petter me abraça por trás e, sem esperar mais, me desperta e me puxa pela mão para corrermos, e assim fazemos.

Na fuga, corremos como nunca corremos em toda nossa vida, a partir de hoje, pelo menos Petter será deixado na escola sempre pela tia Ana, nenhum cansaço vale mais do que o bem estar dele. Se não for muito incômodo, pego uma carona.

Já em frente de casa, respiro fundo antes de entrar, pego firme na mão de Petter e, ao abrir a porta, determinada a contar tudo para tia Ana, detalhe por detalhe, dou de cara com ela mesma, só que com uma versão um milhão de vezes mais arrumada, a começar pelo batom bege nos lábios, com um toque de brilho labial; o cabelo escovado, as curvas do rosto em contornos básico de maquiagem, entre eles, blush, pó de contorno e as pálpebras, com um esfumaçado de marrom bem suave.

-Eita! – me surpreendo.

-Uau! – diz Petter, na mesma hora em que eu digo.

Tia Ana, por sua vez, pode estar muito bem vestida e maquiada, mas a chateação no rosto é nítida. Ao olhar-nos tão perto de si, nos abraça, mas não amacia a voz de alívio:

-Pelo amor do Santo Cristo, onde é que vocês se meteram?

Petter, prestes a contar da forma mais horrível possível – porque uma criança não omite fato algum –, é agarrado por mim, que lembro do motivo dela estar tão bem arrumada: tio Martin já deve estar em Ohio.

Com isso, sei o quanto a chegada dele mexe com ela, ainda que os dois estejam separados há anos, mas não quer dizer que o sentimento dela tenha diminuído, pelo menos o dela não.

Sabendo de seu nervosismo e o motivo para isso, agarro Petter de lado e o impeço de falar qualquer coisa, sou mais rápida e minto:

-É que a gente perdeu noção de horário, sei que a senhora não gosta, mas demos uma passada no Lakewood Park, e aí... Já viu, né?

Tia Ana suspira, nos larga do abraço e diz:

-E eu aqui quase ligando pra polícia. Da próxima vez que fizerem isso, pego uma foto bem feia de vocês pra colocar no jornal local de "desaparecidos". Todos os seus colegas vão ver o micão. E eu falo sério. – brinca ela, em tom de chateação. -E a partir de hoje fica decidido que vou deixá-los e pegá-los na escola. Pronto, resolvido!

Bingo! Tia Ana leu meus pensamentos, já que, de certa forma, não está nos meus planos contar o que aconteceu agora pouco, pois ela é do tipo que, se souber, só vai descansar quando olhar o tal de Jack e os outros atrás das grades e, pelo meu pressentimento, acho que não é uma boa mexer com esse pessoal, Kurt que o diga.

-Eu não a perdoaria, tia Ana. Nunquinha! – diz Petter, indignado ao ser ameaçado de ter uma foto sua exposta ao público, no entanto, sua marra carrancuda é desfeita quando tia Ana o abraça forte e diz em seguida:

-Aham, já escutei conversinha demais. Os dois, vão tomar banho, falta pouquíssimo tempo pro Martin chegar. Quero que estejam prontos. Andem, vão.

Eu e Petter subimos as escadas correndo, vejo-o entrando em seu quarto em disparada, tão ansioso e animado quanto tia Ana.

Por uma parte, agradeço a memória de criança do Petter, pois, com a chegada de Martin, é provável que ele esqueça o ocorrido macabro de minutos atrás e se ocupe com as aventuras e histórias parisienses que tanto gosta de ouvir, por outro lado, eu não tenho memória infantil, e tenho certeza que não vou esquecer.

Entro no meu quarto, jogo a mochila de qualquer jeito no chão perto da cama, corro para o banheiro e me olho no espelho. De frente para o meu reflexo, tento conter o pânico que se mostra em resfôlegos no meu peito, me apoio segurando as bordas da minha pia branca e quadrada de porcelana, fecho os olhos e a primeira cena que vem à tona é Taylor. Na verdade, são como várias cenas fotográficas tiradas pela minha própria mente, ora de Taylor intervindo Jack para que não fizesse nada comigo, ora Taylor dando a volta com o carro e, antes de partir, olhando para mim de relance. Como uma quebra na sensação dormente que ele me trouxe, de súbito consigo lembrar o hálito mentolado misturado com cigarro de Jack tão perto de mim, isso me dá ânsia.

Abro a torneira num jato forte de água e lavo diversas vezes o rosto. Faço melhor, arranco as roupas do corpo, ligo o chuveiro em seu nível mais forte e deixo que a água corrente alivie meu estresse.

Depois de quase dez minutos, estou pronta para bancar a melhor anfitriã do mundo. Nem tanto, mas o suficiente.

Ao descer as escadas, o cheiro que exala e inunda a casa toda é simplesmente sensacional.

Chegando na sala de jantar, avisto a mesa mais bem posta que já vi em toda a minha vida, nem eu sabia que tínhamos louças de cerâmica simples em estilo nórdico, copos de vidro transparentes com bordas douradas e talheres também douradas.

Petter vem chegando em seguida como um furacão e devora com os olhos o banquete selecionado exclusivamente para esta noite: risoto de cogumelos, batatas salteadas com ervas frescas, torradas amanteigadas e, de sobremesa, petit gâteau. Um cardápio saído diretamente de Paris para uma singela casa de Ohio.

Para quem está acostumada a pedir comida quase todo dia, olho impressionada para a mesa e brinco:

-Uau! Quem foi que fez tudo isso? – me apoio na borda da cadeira de madeira.

-É, tia, quanto deu todo esse pedido no iFood? – pergunta Petter, que sem querer acabou soando como continuação da minha piada.

Tia Ana vem andando depressa da cozinha, sorrindo:

-Ah, engraçadinhos, tudo isso foi eu mesma que... – tia Ana, ao olhar-nos, pausa seu andar na mesma hora e expressa seu susto: -O tio de vocês vem direto de Paris pra cá e vocês vestidos de... pijama... – aponta para Petter. -...e um blusão de dormir com uma calça de moletom? – aponta para mim.

Primeiramente, gostaria de responder que Martin não é mais nosso tio, já que eles se divorciaram há algum tempo, mas tudo o que falo é:

-Ué, tia, quem está querendo impressioná-lo é a senhora, não a gente. – abraço Petter de lado, este que dá uma risadinha cobrindo a boca com as mãos.

-Lia! – responde ela em protesto, prestes a nos mandar trocarmos as roupas, quando finalmente a campainha é acionada. -Chegou! – diz, respirando fundo, arregalando os olhos e, depois de alguns segundos, voltando a seu estado normal e fingindo naturalidade.

-Deixa que eu abro. – grita Petter, partindo para a porta como um jato.

Ao abrir, dá de cara com tio Martin, todo trajado em suas costumeiras roupas sociais, cuja camisa polo clássica azul com zíper na gola combina muito bem com seus olhos, a calça social bege e os sapatos sociais marrons fecham o pacote completo de um quarentão que sabe muito bem como se vestir, não é à toa que tia Ana ainda é caída de amores por ele.

Petter não dá espaço algum, ao vê-lo, parte para um abraço repentino. Martin, por sua vez, deixa suas compras no chão da entrada, arregala os olhos azuis e aperta Petter na mesma intensidade, enquanto o carrega, rodopia no ar e diz:

-Meu Deus, como você cresceu! Daqui a um tempo não vou mais conseguir te carregar.

-Tio Martin, olha só o que eu fiz: é um Stegosaurus muito realista. – Petter corre até a mesinha com abajur que tinha deixado seu desenho, agarra o papel e mostra orgulhoso para Martin, que, obviamente, finge se impressionar com os rabiscos coloridos em verde, preto e laranja:

-Caramba, toma cuidado com isso, vai acabar assustando alguém. – sorri, ajeitando os cabelos desalinhados com a recepção brusca de Petter, pegando as sacolas que trouxe, erguendo-os e explicando: -Trouxe presentes!

Então, finalmente ele olha para mim, não faço muita cerimônia, até porque já estou grande demais para isso, apenas sorrio e dou um rápido aceno de longe.

-Lia, que bom te ver. Tá cada vez mais parecida com a... – ele pausa antes mesmo de terminar, talvez por perceber que causará um climão se tocar no assunto delicado que vem nos unindo ultimamente. Para se corrigir, balança a cabeça, chega perto e me entrega um embrulho. -Enfim, trouxe isso aqui pra você, espero que goste.

Recebo e agradeço, deixo para abrir mais tarde, mas com certeza vou gostar de qualquer coisa que venha de Paris.

-E pra você, rapazinho, uma coleção inteira de mini dinossauros colecionáveis. – Martin faz questão de descrever o que trouxera para Petter, justamente por saber que sua reação de animação seria impagável, e foi exatamente isso o que aconteceu. Petter pega o presente, desembrulha na mesma hora e surta quando vê um pacote cheio de animais pré-históricos.

-Obrigado, obrigado, obrigado, obrigadooooo... – responde Petter, quase esmagando Martin do tanto que o abraça.

-Tudo bem, tudo bem... – ri Martin, tornando a compostura, arrumando o cabelo para trás, que se desalinha muito, e finalmente chega a hora de tia Ana, que não sabe como recepcioná-lo.

Me uno a Petter e assisto a tudo de longe, enquanto Martin se aproxima de Ana para um abraço desengonçado e constrangido, a entrega seu presente e trocam algumas saudações, como dois adolescentes que acabaram de se conhecer. É sempre assim, no início eles se saúdam como se desconhecidos, no entanto, horas depois estão rindo e trocando farpas como velhos amigos inseparáveis.

A ligação que eles têm é tão forte que, mesmo depois de separados, continuam participando ativamente um da vida do outro, o que é bom porque Petter ama Martin, e seria difícil ter que afastar mais uma pessoa importante da vida dele com tão pouca idade, entretanto, na maior parte das vezes não faz bem à tia Ana, que sabe que pode seguir sua vida amorosa com outra pessoa, assim como Martin faz e não esconde de ninguém, mas diferente dele, ela acha que um dia voltarão e, por isso, nunca mais se relacionou com outra pessoa desde que se divorciaram. Sinto pena, mas já coloquei na minha cabeça que cada um sabe o que está fazendo da sua própria vida. Ou não.

Não demora muito até, finalmente, sermos convidados para o jantar, ninguém merece risoto frio, ainda mais de cogumelos.

Já postos à mesa, tia Ana escancara o orgulho no rosto quando Martin diz:

-Tudo isso é pra mim? Parece até que a rainha vem comer com a gente.

-Gostou do menu parisiense? – pergunta tia Ana, imitando o sotaque dos habitantes de Paris ao dizer "menu".

-Me sinto em casa. – responde tio Martin, abocanhando o risoto.

A noite, além da comida boa e caseira, foi embalada com bastante risada, uma vez que tio Martin não perdeu a chance de contar sobre seus perrengues europeus, eu, tia Ana e Petter não conseguimos conter as risadas, pois Martin, além de muito simpático e bonito, também tem um ótimo senso de humor.

Não consigo me lembrar exatamente dos jantares em família em que tia Ana e Martin estivessem conosco. Até lembro, mas eu era bem pequena, Petter ainda nem era nascido, e todas as vezes em que estavam mamãe, papai, tia Ana e Martin, o silêncio dominava o ambiente, a conversa era muito forçada e, até eu que era uma criança, percebia que tinham assuntos não resolvidos entre os quatro.

Desde que meus pais se foram, tia Ana e Martin organizam esses jantares, devo confessar que adoro, porque me sinto parte de uma família de novo, apesar de saber que não estou.

Terminado o jantar, enquanto tia Ana lava a louça, eu enxugo. Tio Martin e Petter retiram e limpam as migalhas que ficam pela mesa.

Com o relógio apitando em quase meia-noite, tia Ana se sente na obrigação de nos mandar para a cama, sempre me tratando da mesma forma como trata Petter, mas resolvo não causar intriga por motivo desnecessário, afinal, amadurecer é isso, não é?

Com tio Martin arrumando Petter à cama, não é necessário dizer que o garoto dormiu com uma facilidade gigante.

Eu, mesmo deitada, não consigo pregar os olhos e imaginar outra coisa senão a tenebrosa volta para casa. O jantar foi um tanto agradável, por algum tempo me fez esquecer, mas agora, deitada com a cabeça no travesseiro, miro o teto e sinto as pupilas dos olhos arregalados por causa da falta de luz.

Enrolo de um lado para o outro na cama e chego à conclusão de que só vou conseguir dormir quando fizer um leito morno. Não sei se é mito, mas minha mãe costumava fazer sempre quando tinha dificuldade para dormir, e funcionava.

Como uma boa pessoa frienta, calço as pantufas para que meus pés não encostem no piso frio, abro a porta com cuidado e desço os degraus da escada.

Para minha surpresa, Ana e Martin ainda estão acordados, a luz da sala está diminuída para um tom bem baixo e sensual, eu diria. Os dois riem tão alto da cozinha que consigo escutar.

Na mesma hora penso o que pode estar acontecendo, para minha sorte, não sou vista. Volto para meu quarto com delicadeza nos pés para não ser notada.

-E como tá sendo cuidar da Lia e do Petter? – pergunta Martin.

Antes de deixá-los a sós, paraliso meus passos na mesma hora. Como as escadas são envolvidas pelas paredes, não tem como olharem que estou escutando conversa alheia, mas depois dessa pergunta, adoraria escutar o que tia Ana tem para dizer.

Numa rápida espiada, fico de cócoras e deixo aparecer somente meus olhos. Avisto os dois sentados no sofá tão pertos que poderia jurar que são um casal novamente, ele segurando uma taça de um líquido roxo que parece ser vinho, e ela bebendo algo transparente, o que só pode ser água, já que não bebe.

Antes que ela responda, Martin se aproxima dela sorrateiro e consegue arrancar um beijo calmo, quase parando.

Na mesma hora me encolho de volta para a parede, não consigo esconder a careta de ânsia que me deu, certamente poderia dormir sem ver isso.

Após o estalido do beijo, tia Ana finalmente responde, e eu agradeço em silêncio:

-Tá sendo... diferente.

-Diferente como? – pergunta Martin, com o tom da voz paciente.

Daria tudo para ver a feição de tia Ana ao falar de nós, mas o medo de ser pega é maior do que tudo. No mais, resolvo apenas escutar a conversa:

-Ah... O Petter é um menino doce, gentil e muito brincalhão, não tenho do que reclamar, mas a Lia... – ela se interrompe antes de continuar.

-O que tem a Lia?

-Não é que ela seja um problema, mas... Às vezes sinto que ela não gosta de mim, o modo como ela fala comigo, como me olha... – tia Ana faz uma pausa dramática, dá para escutar sua respiração cansada. -Às vezes parece que ela... sabe...

O medo de ser pega ouvindo a conversa é grande, mas isso só fica cada vez mais interessante: sei o quê?

Um silêncio se faz por uns dois minutos, nem Martin ou Ana falam nada, como se o assunto pesasse tanto que é quase impossível prosseguir com algum conselho.

-A gente faz muita besteira quando se é jovem, não é? – finalmente Martin diz algo.

-Ai, eu nem sei por que tô falando isso com você. – tia Ana parece levantar, a julgar pelos seus passos pela sala.

Me encolho, com toda certeza a coisa vai ficar feia se alguém me olhar.

-O quê? Eu tô falando de nós dois, no plural, se não entendeu.

-Não seja sonso, o seu tom sempre empurra a culpa pra mim.

-Como se tudo isso fosse difícil só pra você. É sempre só sobre você, Ana. – retruca Martin.

-Sobre mim? Meu Deus, eu... Se um dia fiz besteira, foi por sua causa, Martin.

Os tons começam a se exaltar, Martin pede silêncio da tia Ana, dá uma risada sarcástica e diz:

-Ah, então eu sou culpado quando você escolhe foder com o nosso casamento? Foder com tudo o que a gente construiu? Eu sou mesmo o único culpado, Ana?

-Olha como você fala comigo.

-Olha como você fala comigo! Se agora você tá colhendo os frutos de um erro passado, não tenta empurrar a culpa só pra mim, porque nós dois sabemos que é um fardo difícil de ser carregado, e eu não admito que seja somente eu o desgraçado que vai ter dor nas costas.

Fico nervosa pelas consequências desse desentendimento, mas mais nervosa ainda por não entender absolutamente nada do que está sendo dito.

Os dois ficam em silêncio novamente, só Deus sabe como eu queria ser uma mosquinha para ver a cara que estão fazendo, principalmente porque o desafeto começou quando meu nome entrou para jogo.

Depois de um tempo, é Martin quem quebra a calmaria:

-Ana, eu não quis... Você sabe que... Já é um assunto que a gente resolveu, e que eu vou te ajudar a criar essas crianças. Que a gente vai continuar com as nossas jantas pra manter esses dois num esteio familiar balanceado, mas o que eu quis dizer foi que...

-Vai embora, Martin, eu quero ficar sozinha. Me desculpa por sempre estragar tudo.

Sem mais falar nada, Martin faz barulho com seus passos, abre a porta e, pelo que tudo indica, foi embora.

Tia Ana parece estar sozinha agora, e eu não quero permanecer mais nem um minuto nessa escada.

Com maciez nos pés, subo degrau por degrau, chego no quarto, fecho a porta com todo cuidado do mundo e me jogo na cama.

O plano inicial era fazer um leite morno para tentar dormir, mas acabei escutando mais do que devia, e em consequência disso, não consigo sequer pensar em dormir, como se não bastasse a dúvida cruel dentro de mim que insiste em não ter tanta simpatia por tia Ana, e agora, mais isso.

É, sem sono por essa noite.

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