Pedro se voluntariou de imediato, o coração acelerado pela esperança de poder salvar o irmão. Acácio também se ofereceu sem hesitar, enquanto Gabriel permaneceu em silêncio, consciente de que, sendo apenas um irmão postiço, não seria compatível.
- Doutor, ele vai acordar quando? - perguntou Gabriel, a voz baixa, quase um sussurro.
- Isso vai depender dele... e de Deus. Além disso, o paciente pode apresentar alguma sequela devido ao trauma na coluna, mas nada que não seja tratável - respondeu o médico, antes de se afastar em direção a outra ala, deixando os familiares com a enfermeira para ver Marcos.
Ao entrar na UTI, Acácio viu o filho deitado, cercado por aparelhos que apitavam em intervalos regulares. Tubos, fios e curativos cobriam o corpo outrora cheio de vida. O homem sentiu o peito se apertar; desejava trocar de lugar com o filho. Pensou em sua falecida esposa e no quanto ela jamais o perdoaria por não proteger Marcos. O peso da culpa era insuportável.
Em todos os canais de televisão, a notícia se espalhava: Marcos Lin sofreu um grave acidente de automóvel e está entre a vida e a morte. A imagem do jovem empresário estampava as telas, e a repercussão era imediata. Antônio, ao ver a reportagem, caiu sentado no sofá, o rosto pálido, lamentando em silêncio. Seu negócio, que parecia promissor, agora estava em risco antes mesmo de começar.
- Querido, o que está acontecendo? - Rosana perguntou, aproximando-se ao ver o marido imóvel diante da televisão.
- Este não é o jovem que ia se casar com Júlia? - acrescentou, descendo as escadas com pressa. Atrás dela, Júlia correu para ver a notícia. Ao perceber que não se tratava de Gabriel Lin, mas sim de Marcos, o filho conhecido por sua irresponsabilidade, ficou indignada. Para ela, era impossível aceitar aquele casamento.
- Esse é o futuro noivo de Júlia. Mas agora... talvez ela não queira se casar com ele - murmurou Antônio, enquanto Clara, servindo chá em silêncio, apenas escutava. A jovem estava absorta em seus pensamentos, perturbada por mais um pesadelo recorrente.
- Pai, eu não vou me casar com um homem aleijado. Não irei sacrificar minha vida com alguém assim! - Júlia falou com rudeza, a voz firme e decidida. Antônio franziu o cenho, desaprovando a atitude da filha.
- Então dê adeus à sua vida de luxo. Acha mesmo que seu casamento será com quem você quer? Nem mesmo sua irmã Clara pode escolher com quem se casar. Não seja mimada. Pense em como será nossa vida sem a empresa - retrucou, irritado. O acordo havia sido feito no dia anterior, e agora a notícia do acidente ameaçava tudo.
- Mãe, eu não quero me casar com um homem assim! - Júlia chorou, como sempre fazia quando não conseguia o que queria. Sabia que sua mãe a apoiaria e que Antônio acabaria cedendo.
- Querido, a Júlia tem razão. Ela é minha única filha, não quero que estrague o futuro com um homem incapaz de se movimentar ou dar filhos. Se for o caso, apresente outra pessoa para se casar com ele. Assim não perderemos a colaboração com a família Lin - disse Rosana, com sua voz doce e calma, fingindo bondade. Antônio, iludido, acreditava naquela farsa, assim como muitos que não conheciam sua verdadeira natureza.
Clara, distraída, não percebeu que Júlia estava à sua frente, bloqueando a passagem. O choque resultou em desastre.
- Mamãe, ela me queimou com este chá quente! - Júlia gritou, teatral, enquanto Clara, apavorada, tentava limpar com um guardanapo.
- Pare com isso, Clara! Não toque em minha filha com essas mãos úmidas! - Rosana bateu violentamente na mão da jovem, fazendo-a se desequilibrar e derrubar a bandeja sobre a mesa.
- Clara, saia daqui! Não vê que está piorando as coisas? - Antônio ordenou, ríspido. Clara saiu rapidamente, o coração pesado.
- Rosa! - Rosana chamou em voz alta.
- Sim, senhora - respondeu à empregada, entrando e vendo a bagunça. Já sabia o que havia acontecido.
- Limpe tudo. E não quero ver aquela sonsa da Clara hoje! - Rosana disse, levando a filha e o marido ao hospital.
Rosa limpou a sala com a ajuda de Clara e depois foi preparar o almoço. Observava a jovem com atenção.
- Clara, o que aconteceu lá? - perguntou, curiosa.
- Esbarrei em Júlia e derramei chá quente nela, mas não foi de propósito - explicou, aflita.
- Ela bem que mereceu - murmurou Rosa, voltando a cortar legumes.
- Rosa, se eles ouvirem você falando assim... - Clara tentou alertar, mas foi interrompida pelo som seco da faca batendo na mesa.
- Não diga isso, menina. Pode atrair aquelas cobras de volta para cá - respondeu, com ódio contido. Rosa odiava aquela família por tratar Clara com tanta crueldade. Observou a jovem concentrada na sobremesa, como se não tivesse feridas nas costas.
- Clara, você está melhor? - perguntou.
- Hoje, sim, apesar de não ter descansado ontem - respondeu, sentando-se e pegando um copo de leite e alguns biscoitos de maizena com goiabada, seu favorito.
- Você teve aquele mesmo pesadelo novamente? - Rosa insistiu. Desde que Clara chegara à mansão, os sonhos se repetiam. Sempre a mesma figura, solicitando ajuda. Rosa acreditava que eram sinais de vidas passadas, de um amor destinado.
- Sim. Não sei por que ainda sonho com ele. Antes era uma criança, a mesma da foto que minha mãe deixou. Rosa, eu tenho medo. Será que essa pessoa realmente precisa da minha ajuda e vem em meus sonhos me avisar? - Clara falava com sinceridade. Para ela, os sonhos tinham significados ocultos, mensagens secretas. O problema era que não lembrava de conhecer aquele menino da foto, mas desde o acidente de carro, ele aparecia sempre.
- Não tenha medo. Se o destino acha que é hora, vocês se encontrarão. Você vai salvá-lo. Não sofra antes da hora - disse Rosa, sentando ao lado da jovem depois de terminar o almoço e arrumar a mesa.
Dois dias se passaram, e Clara continuava a acordar no meio da noite com o mesmo pesadelo. Suava frio, o coração angustiado, os olhos cheios de lágrimas. "Quem é você?", murmurava para si mesma. Levantava e ia até a cozinha beber água. Numa dessas noites, encontrou o pai sentado à mesa, bebendo álcool - algo raro. Ele parecia abatido, como se carregasse um peso enorme.
- Clara, você acha que eu sou um pai ruim? - perguntou, a voz carregada de arrependimento. Sim, ele era um pai ruim, negligente com uma das filhas por causa da esposa atual. Mas, naquele instante, Clara percebeu que talvez houvesse motivos mais profundos por trás de sua fraqueza.