Quando acordei, a primeira coisa que senti foi o cheiro forte de desinfetante.
O teto branco do hospital parecia girar.
A enfermeira, uma senhora de meia-idade com um ar cansado, verificava o meu soro.
"Finalmente acordou, menina. Que susto nos deu."
Ela suspirou.
"O seu marido, o policial, é um herói. Salvou tantas pessoas no incêndio do Bairro Alto."
Tentei sentar-me, mas uma dor aguda na minha barriga fez-me recuar com um gemido.
"Não se mexa muito," advertiu a enfermeira. "Acabou de passar por uma cirurgia de emergência. O seu bebé... não sobreviveu. Lamento muito."
As palavras dela foram diretas, sem rodeios.
E mesmo assim, cada uma delas atingiu-me como uma onda gelada.
O meu bebé. O meu filho.
Tinha desaparecido.
Peguei no meu telemóvel na mesinha de cabeceira. O ecrã estava estilhaçado, mas ainda funcionava.
Dezenas de chamadas não atendidas para o meu marido, Pedro.
As notícias na pequena televisão do quarto mostravam imagens do incêndio. Um prédio antigo no Bairro Alto, em Lisboa, completamente consumido pelas chamas.
O repórter falava sobre a bravura dos bombeiros e da polícia.
E lá estava ele, o Pedro, a ser entrevistado. O rosto coberto de fuligem, o uniforme sujo, mas os olhos a brilhar para a câmara.
Ao lado dele, abraçada ao seu braço, estava a minha prima, Sofia. O seu rosto estava manchado de lágrimas, mas ela olhava para o Pedro com uma adoração que me revirou o estômago.
O meu telemóvel vibrou com uma notificação. Uma nova publicação no Instagram da Sofia.
A legenda dizia: "O meu herói. Arriscou a própria vida para me salvar do inferno. Pedro, não tenho palavras para agradecer. Devo-lhe a minha vida."
A foto era a mesma cena da televisão. Ela, frágil e assustada. Ele, forte e protetor.
Senti o meu sangue gelar.
O incêndio no Bairro Alto. A casa da Sofia.
A minha casa, onde eu estava presa, grávida de oito meses, fica a cinco minutos de carro. Na direção oposta.
Liguei-lhe. Uma, duas, três vezes. Caixa de correio.
Finalmente, na décima tentativa, ele atendeu. A sua voz era áspera e impaciente.
"Que foi, Clara? Estou no meio de um caos. Não vês as notícias?"
"Pedro," a minha voz saiu como um sussurro rouco. "O nosso bebé..."
"O que tem o bebé?" ele cortou-me. "A Sofia quase morreu! Inalou muito fumo, o gato dela desapareceu nas chamas. Estou a levá-la para o hospital agora. Podes parar de ser tão egoísta por um momento?"
Egoísta.
Eu, que liguei dos escombros do nosso prédio, com o teto a desabar, estava a ser egoísta.
"Pedro, eu perdi o bebé."
Silêncio do outro lado da linha. Um silêncio pesado, que durou uns cinco segundos.
Depois, ouvi a voz chorosa da Sofia ao fundo. "Pedrinho, o que se passa? É a Clara? Ela está bem? Oh, meu Deus, eu sinto-me tão culpada por te ter tirado de perto dela..."
A voz dele suavizou instantaneamente. "Shhh, não é culpa tua, meu anjo. Claro que não é. A Clara está bem, ela é forte."
Depois, a sua voz voltou a ser dura como aço para mim.
"Ouve, Clara. Lamento pelo bebé. A sério. Mas são coisas que acontecem. Agora não é a melhor altura. A tua prima precisa de mim. Falamos depois."
E desligou.