O rosto do Pedro endureceu. A sua mão apertou o ombro da Sofia.
"Já falámos sobre isto. Não sejas ridícula."
"Eu não estou a ser ridícula," afirmei, a minha voz a ganhar força. "Estou a ser muito clara. Eu quero o divórcio. Agora."
Fui até ao nosso quarto, peguei numa mala e comecei a atirar as minhas roupas para dentro, sem cuidado.
O Pedro seguiu-me, a raiva a irradiar dele. Sofia ficou na porta, a observar, parecendo uma espectadora num drama que ela própria tinha ajudado a escrever.
"Vais mesmo fazer isto?" ele sibilou. "Vais deitar fora cinco anos de casamento por causa disto? Depois de tudo o que eu fiz por ti?"
Parei e virei-me para ele, a minha mão a segurar um vestido.
"O que é que tu fizeste por mim, Pedro? Deixaste-me para morrer num incêndio para salvares a minha prima. Apagaste todos os vestígios do nosso filho sem sequer me perguntares. Instalaste a tua amante na nossa casa. Diz-me, o que é que eu te devo exatamente?"
A palavra "amante" pairou no ar.
Sofia ofegou. "Clara, como te atreves! O Pedro e eu somos apenas primos! Ele estava apenas a ajudar-me!"
"Ajudar-te?" ri-me. "Ajudar-te a desfazeres a cama do meu lado do quarto? A usares o meu roupão de banho? Encontrei-o no chão da casa de banho esta manhã."
O rosto do Pedro ficou pálido. O da Sofia, vermelho.
"Isso não prova nada!" gritou o Pedro. "Estás a ser paranoica e histérica por causa das hormonas!"
"As minhas hormonas não te obrigaram a ignorar as minhas 18 chamadas enquanto eu sufocava em fumo, Pedro. As minhas hormonas não te obrigaram a escolher o gato dela em vez do teu próprio filho."
Ele ficou sem palavras. A verdade era uma arma para a qual ele não tinha defesa.
"Eu quero que saiam," disse eu, a minha voz baixa e perigosa. "Quero que tu e ela peguem nas vossas coisas e desapareçam da minha casa."
"Tua casa?" ele riu-se, recuperando alguma da sua arrogância. "Esta casa está em meu nome, querida. Se alguém tem de sair, és tu."
Ele tinha razão. Quando comprámos o apartamento, eu estava a começar o meu negócio de design e não tinha rendimentos estáveis. O empréstimo ficou apenas em nome dele. Um erro estúpido, nascido da confiança e do amor.
"Tudo bem," disse eu, fechando a mala. "Então eu saio. Mas vais receber os papéis do divórcio amanhã. E vou lutar por tudo o que é meu por direito. Metade de tudo."
"Não tens direito a nada!" ele escarneceu. "Estás desempregada! Foste tu que quiseste sair do teu emprego para 'realizares o teu sonho'! Vais viver de quê? Do ar?"
Olhei para ele, um homem que eu já tinha amado, e não senti nada. Apenas um vazio frio.
"Isso não é da tua conta," disse eu.
Passei por ele e pela Sofia, que agora chorava abertamente.
"Não vás, Clara," soluçou ela. "Podemos resolver isto. Eu posso ir embora..."
"É tarde demais para isso, Sofia," disse eu, sem olhar para trás.
Abri a porta da frente e saí para o corredor.
Não olhei para trás.