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O Carvalho Que Nasceu Das Cinzas
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Capítulo 2

Olhei para o telemóvel na minha mão. Ele tinha desligado na minha cara.

Tentei ligar de volta. O número estava ocupado. Tentei outra vez. Direto para a caixa de correio.

Ele tinha-me bloqueado.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Uma risada que soou estranha e partida no quarto silencioso do hospital.

A enfermeira olhou para mim com pena.

"Quer que eu chame alguém? A sua mãe?"

Abanei a cabeça. A minha mãe estava a viajar, incomunicável numa aldeia remota.

Eu estava sozinha. Completamente sozinha.

Olhei para a minha barriga, agora coberta por um lençol branco. Horas antes, estava redonda e cheia de vida. Agora, estava vazia. Uma casa vazia e em ruínas.

A dor física era imensa, mas a dor no meu peito era um abismo.

O Pedro tinha razão numa coisa. Se o meu bebé ainda estivesse aqui, eu provavelmente teria engolido isto. Teria chorado, gritado, mas no fim, tê-lo-ia perdoado.

Porque eu queria que o meu filho tivesse um pai. Uma família completa.

Mas agora, não havia filho.

A única coisa que me prendia àquele homem, àquela farsa de casamento, tinha-se transformado em cinzas, tal como o prédio do Bairro Alto.

O divórcio não era uma opção. Era uma necessidade. Uma questão de sobrevivência.

Ficar com ele seria morrer um pouco todos os dias.

O meu telemóvel vibrou novamente. Era a minha sogra, a mãe do Pedro, a Dona Elvira.

Atendi, esperando talvez uma palavra de conforto.

Fui ingénua.

"Clara! Que vergonha é esta?" a voz dela era estridente. "O Pedro acabou de me ligar, a dizer que o ameaçaste com o divórcio! Tens noção do que o meu filho passou hoje? Ele é um herói nacional! E tu, em vez de o apoiares, fazes uma cena por causa de um acidente?"

"Um acidente?" repeti, incrédula. "Elvira, eu perdi o vosso neto."

"E achas que és a única a sofrer? Nós também perdemos um neto! Mas a vida continua! O Pedro salvou a Sofia, a tua própria prima! Devias estar-lhe grata! Em vez disso, agis como uma criança mimada! Sempre foste assim, a pensar só em ti!"

As suas palavras eram como pedras.

"Se não consegues aguentar um bebé, talvez não devesses ter engravidado! Agora, para de incomodar o meu filho. Ele precisa de descansar."

Ela desligou.

O choque foi tão grande que não consegui reagir. Fiquei a olhar para a parede, o telemóvel ainda encostado à minha orelha, a ouvir o som do silêncio.

Então era isto. Para eles, a perda do meu filho era um "acidente". Um inconveniente.

E a culpa, de alguma forma, era minha.

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