Passei os dois dias seguintes no hospital num nevoeiro de dor e burocracia.
Assinei papéis, respondi a perguntas de médicos e assistentes sociais.
Ninguém da família do Pedro apareceu. Nenhuma chamada. Nenhum pedido de desculpas.
Apenas um silêncio que gritava mais alto que qualquer insulto.
No terceiro dia, recebi alta. Um táxi deixou-me em frente ao nosso apartamento.
A porta estava trancada. Tive de usar a minha própria chave.
Lá dentro, tudo parecia normal. Demasiado normal.
A mala de viagem da Sofia estava no corredor. As suas roupas estavam a secar no estendal da sala. Um par dos seus sapatos de salto alto estava ao lado dos sapatos de trabalho do Pedro, perto da porta.
Ela estava a viver aqui.
Fui até ao nosso quarto. A cama estava desfeita. Do lado do Pedro, na mesinha de cabeceira, estava um copo de água meio vazio e um livro.
Do meu lado, estava tudo como eu tinha deixado. Intocado.
Abri o guarda-roupa. As roupas dele estavam lá. As minhas também.
E, pendurados num canto, estavam os vestidos de maternidade que eu tinha comprado com tanta alegria.
Fechei a porta devagar.
Fui até ao quarto do bebé.
Tínhamos passado meses a prepará-lo. O Pedro tinha pintado as paredes de um azul suave. Eu tinha montado o berço, peça por peça.
Agora, o quarto estava vazio.
O berço, a cómoda, o tapete com animais. Tudo tinha desaparecido.
As paredes azuis tinham sido pintadas de branco. Um branco estéril, hospitalar.
No lugar onde o berço deveria estar, havia uma secretária de escritório e uma cadeira de gaming.
O quarto do meu filho tinha sido apagado.
Ouvi a chave na porta da frente.
Pedro entrou. Não estava sozinho.
Sofia estava com ele. Riam de qualquer coisa que ele disse.
Eles pararam quando me viram, de pé, no meio da sala.
O sorriso do Pedro desapareceu. Foi substituído por uma expressão de irritação.
"Clara. O que estás a fazer aqui? Pensei que ainda estivesses no hospital."
"Tive alta hoje," respondi, a minha voz surpreendentemente calma.
Sofia deu um passo à frente, o rosto uma máscara de falsa preocupação.
"Clara, querida! Estás bem? Ficámos tão preocupados! O Pedro queria ir visitar-te, mas eu não estava a sentir-me bem, e ele teve de cuidar de mim..."
"Onde está o quarto do bebé?" interrompi-a, olhando diretamente para o Pedro.
Ele desviou o olhar.
"Achei que seria demasiado doloroso para ti veres aquilo," disse ele, com um tom defensivo. "Pedi a um amigo para vir buscar as coisas e dar a uma instituição de caridade. E como a Sofia vai ficar aqui por uns tempos, enquanto a casa dela não está habitável, pensei em transformar o quarto num escritório para ela. Ela precisa de um lugar para trabalhar."
Ele disse aquilo como se fosse a coisa mais razoável do mundo.
Apagar o nosso filho para dar um escritório à minha prima.
Olhei para a Sofia. Ela encolheu-se ligeiramente, agarrando o braço do Pedro.
"Foi ideia minha," disse ela, com a voz trémula. "Eu disse ao Pedro que não queria ser um fardo, que precisava de trabalhar... Pensei que te ajudaria a superar... a não teres uma recordação constante..."
"Superar?" repeti a palavra. Saboreei-a. Era amarga. "Superar o meu filho, queres tu dizer."
"Clara, não sejas dramática," disse o Pedro, a sua paciência a esgotar-se. "Foi uma tragédia, mas temos de ser práticos. A vida continua."
"Sim," concordei, um sorriso frio a formar-se nos meus lábios. "A vida continua. É por isso que quero o divórcio."