Naquela noite, o ar no apartamento que eu dividia com o Pedro parecia pesado, carregado com o cheiro a café velho e a desilusão.
Ele estava sentado à mesa da cozinha, a cara iluminada pelo ecrã do portátil, completamente absorto no seu trabalho.
Eu fiquei de pé na porta, a segurar o envelope com os resultados dos exames. O papel parecia queimar-me os dedos.
O nosso filho, o Leo, tinha cinco anos e foi diagnosticado com uma doença cardíaca rara.
Os médicos disseram que a cirurgia era urgente, e o custo era astronómico, algo que a nossa conta bancária conjunta nem de perto conseguia cobrir.
"Pedro," chamei, a minha voz a sair mais fraca do que eu esperava.
Ele nem levantou a cabeça.
"Espera um bocado, Sofia. Estou quase a fechar este negócio. É muito importante."
A sua voz era calma, focada. Como sempre.
"É sobre o Leo," insisti, dando um passo para dentro da cozinha. "Recebi os resultados finais."
Só então ele levantou os olhos, e o seu olhar era impaciente.
"E então? O que disse o médico? É algo que umas vitaminas possam resolver?"
Senti uma onda de frio percorrer-me. Ele nem sequer se lembrava da gravidade da situação.
"Ele precisa de uma cirurgia, Pedro. Uma cirurgia cara. O mais depressa possível."
Ele franziu a testa, finalmente fechando o portátil.
"Cara quanto?"
"Trezentos mil," disse eu, a palavra a sair como um peso morto da minha boca.
O Pedro riu. Não uma risada alegre, mas um som seco, cheio de desprezo.
"Trezentos mil? Sofia, ficaste maluca? De onde é que vamos tirar esse dinheiro? Da árvore das patacas?"
"Não sei, Pedro! Podemos vender o carro, pedir um empréstimo, falar com as nossas famílias..."
Ele levantou-se de repente, a cadeira a raspar ruidosamente no chão.
"Vender o carro? Eu preciso do carro para trabalhar! Pedir um empréstimo? Com que garantias? E a minha família? Eles já me deram o suficiente para a entrada deste apartamento. Não lhes vou pedir mais nada por um problema que não é meu."
A sua última frase ficou a pairar no ar, venenosa.
"Um problema que não é teu? Ele é teu filho!"
"Ele é filho da tua fraqueza, Sofia! A tua família tem um historial de problemas de saúde. Isto é genético, veio do teu lado! Eu sou saudável. A minha família é saudável."
Eu olhava para ele, incrédula, a tentar processar a crueldade das suas palavras.
O homem com quem eu casei, o pai do meu filho, estava a culpar-me pela doença do nosso menino.
"Então é isso? Vais simplesmente lavar as mãos e deixar o nosso filho morrer?"
Ele pegou no seu casaco, evitando o meu olhar.
"Não sejas dramática. Ele não vai morrer. Vais encontrar uma solução. És a mãe, é o teu trabalho."
Com isso, ele saiu pela porta, deixando-me sozinha no silêncio do apartamento, com o envelope na mão e o coração feito em pedaços.
Naquele momento, eu soube. Eu estava sozinha nisto. E o meu casamento tinha acabado.