No dia seguinte, o sol brilhava, indiferente à tempestade dentro de mim.
Liguei à minha mãe. A voz dela, sempre um porto seguro, estava trémula de preocupação.
"Sofia, querida, o que se passa? Pareces exausta."
Contei-lhe tudo. O diagnóstico do Leo, a conversa com o Pedro, a sua recusa em ajudar.
Houve um longo silêncio do outro lado da linha.
"Aquele desgraçado," disse ela finalmente, a sua voz baixa e cheia de raiva. "Eu nunca confiei nele. Ele sempre foi egoísta."
"Mãe, eu não sei o que fazer. Trezentos mil... é uma fortuna."
"Nós vamos conseguir, filha. Nós vamos arranjar o dinheiro. Nem que eu tenha de vender a casa."
O meu coração apertou. A casa dela era tudo o que lhe restava do meu pai.
"Não, mãe, não podes fazer isso."
"Eu posso e vou. O Leo é meu neto. A vida dele vale mais do que qualquer casa."
As lágrimas que eu tinha segurado finalmente começaram a cair, silenciosas e quentes.
Enquanto a minha mãe falava em vender o seu único bem, o meu marido, o pai do meu filho, estava provavelmente a fechar o seu "negócio importante".
Desliguei a chamada e sentei-me no chão do quarto do Leo.
Ele estava a dormir, o seu peito a subir e a descer de forma tão frágil. A sua pequena mão estava enrolada à volta do seu dinossauro de peluche preferido.
Olhei para o seu rosto inocente e uma determinação fria apoderou-se de mim.
Eu ia salvar o meu filho. Com ou sem o Pedro.
Peguei no meu telemóvel e comecei a procurar online por fundações, instituições de caridade, qualquer coisa que pudesse ajudar.
Horas mais tarde, o Pedro chegou a casa. Ele agia como se nada tivesse acontecido na noite anterior.
"Olá. O que há para o jantar?" perguntou ele, largando a sua pasta no sofá.
Eu não respondi. Continuei a olhar para o ecrã do meu computador.
Ele aproximou-se, olhando por cima do meu ombro.
"Ainda estás a ver essas coisas? Sofia, já te disse, não temos esse dinheiro. Aceita."
Virei-me para ele, a minha cara uma máscara de calma gelada.
"Eu vou conseguir o dinheiro."
"Como?" ele escarneceu. "Vais fazer um milagre?"
"Vou vender a casa."
Ele ficou em silêncio por um momento, a processar as minhas palavras. Depois, o seu rosto contorceu-se numa expressão de fúria.
"A casa? A nossa casa? Nem penses nisso! Esta casa também é minha! Metade dela é minha!"
"Então dá-me a tua metade para a cirurgia do teu filho," retorqui, a minha voz firme.
"Não! Eu trabalhei arduamente por isto! Não vou deitar tudo fora por causa de um erro genético teu!"
"Fora," disse eu, a minha voz perigosamente baixa.
"O quê?"
"Eu disse, sai da minha casa. Pega nas tuas coisas e desaparece."
Ele riu, uma risada incrédula.
"Tu não me podes expulsar. Esta casa é legalmente minha também."
"Então eu vou tornar a tua vida um inferno até saíres. O nosso casamento acabou, Pedro. Agora só me importo em salvar o meu filho."
Ele olhou para mim, e pela primeira vez, acho que ele viu que eu não estava a brincar. A mulher submissa que ele conhecia tinha desaparecido. No seu lugar estava uma mãe disposta a lutar até ao fim.
Ele não disse mais nada. Apenas se virou, foi para o quarto e começou a fazer as malas.