"Oh, eu terei muito mais do que satisfação. O João pode parecer um caso perdido agora, mas eu sei como transformá-lo. Ele tem potencial. Logo, você vai ver quem fez a melhor escolha. Você vai se arrepender de não ter lutado por ele."
Eu me virei para encará-la, um pequeno sorriso no meu rosto.
"Arrepender-me? Não, Joana. Eu não vou. Mas você... tenha cuidado. A vida com um homem que bebe pode ser difícil. Às vezes, as coisas quebram. Pernas, por exemplo. Rostos."
O sorriso de Joana congelou. Seus olhos se arregalaram em choque. Naquele momento, ela teve a certeza absoluta. Eu também me lembrava. Eu me lembrava da vida em que ela acabou com as pernas quebradas e o rosto desfigurado pelo amante que arranjou depois de se cansar do marido infértil.
"Você...", ela sussurrou, a cor sumindo de seu rosto. "Você também..."
"Tenha um bom casamento, irmã", eu disse, passando por ela e saindo do quarto. A sensação de ver o terror em seus olhos foi indescritivelmente prazerosa. A guerra não era mais secreta. Nós duas sabíamos as regras.
Enquanto caminhava para a cerimônia, pensei na ironia de tudo. Na vida passada, eu lutei tanto. Trabalhei dia e noite, aguentei a humilhação, engoli o orgulho, tudo para construir uma vida do nada. Transformei um homem que a sociedade desprezava e, junto com ele, construí um pequeno império. Paguei cada centavo da minha felicidade com suor e lágrimas.
Agora, o caminho estava limpo. Carlos, meu noivo, já era um homem respeitado e com um futuro estável. Sua família era gentil e honesta. Eu não precisaria lutar contra a pobreza ou o vício. Eu poderia simplesmente... viver. E usar minha energia para outros fins. Como, por exemplo, fazer justiça pela minha mãe.
A cerimônia foi rápida. Depois, na pequena festa, observei meu novo marido, Carlos. Ele era um homem sério, não excepcionalmente bonito, mas com um olhar gentil e mãos firmes. Ele conversava com os convidados com uma calma e dignidade que contrastavam fortemente com o comportamento barulhento e já meio bêbado de João, o marido de Joana.
Eu me sentia estranha. Este homem, Carlos, na vida passada, era o marido de Joana. Eu sabia do seu acidente, da sua infertilidade, da sua tristeza silenciosa. Olhando para ele agora, saudável e inteiro, senti uma pontada de preocupação. Joana, com sua maldade, poderia tentar algo? Ela sabia do acidente. Ela poderia tentar causá-lo?
Naquela noite, em nossa nova casa, um pequeno apartamento funcional fornecido pela fábrica, o silêncio era pesado. Nós dois éramos praticamente estranhos.
Ele se sentou em uma cadeira, eu na beira da cama.
"Maria," ele começou, sua voz um pouco rouca, "eu sei que tudo isso foi... repentino. A troca de noivos. Eu espero que você não esteja infeliz."
Eu olhei para ele. Havia uma sinceridade em seus olhos que me desarmou.
"Eu não estou infeliz, Carlos. Estou grata por você ter aceitado essa situação estranha."
"Joana parecia muito decidida", ele disse, com um leve encolher de ombros. "E, para ser honesto, quando sua madrasta propôs a troca, eu não me opus. Eu sempre achei você... quieta, mas muito forte."
Meu coração se aqueceu um pouco. Ninguém nunca tinha me descrito como forte.
"Carlos", eu disse, tomando uma decisão. "Precisamos ser honestos um com o outro. Somos uma família agora. Eu não tive uma família de verdade por muito tempo."
Contei a ele um pouco sobre minha vida com Lúcia e Joana, não os detalhes sórdidos, mas o suficiente para ele entender a dinâmica. Falei sobre meu desejo de trabalhar, de não ser apenas uma dona de casa.
"Eu tenho algum dinheiro", eu disse. "O dinheiro da minha mãe. Eu quero abrir um pequeno negócio."
Ele me ouviu atentamente, sem interromper. Quando terminei, ele assentiu lentamente.
"Eu entendo", ele disse. "E eu te apoio. O que for que você decida fazer, eu estarei do seu lado. E sobre a família... meus pais já te adoram. Eles estão felizes por eu ter me casado com você. Considere-os sua família também."
Naquele momento, algo mudou. Não era o amor apaixonado dos romances, mas era algo real e sólido. Era o começo de uma parceria. Uma confiança. Pela primeira vez em muito, muito tempo, eu senti que não estava sozinha. Eu tinha um aliado. E com um aliado ao meu lado, eu me sentia capaz de enfrentar qualquer coisa que Joana ou Lúcia pudessem jogar no meu caminho.